Coluna

Cristina Pinotti

Depois da Mãos Limpas: a Lava Jato chega à Itália

27 de fevereiro de 2020

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Operações como a brasileira e a italiana são indispensáveis, mas a redução da grande corrupção não vai acontecer sem mudanças nas instituições que permitiram o seu crescimento

Há um ano foi lançado o livro “Corrupção: Lava Jato e Mãos Limpas”, que organizei e para o qual escrevi um capítulo introdutório salientando algumas diferenças entre a operação brasileira e a italiana, a importância da qualidade das instituições na determinação do volume de corrupção nos países, e os custos econômicos que a corrupção acarreta.

Nos demais capítulos, protagonistas das duas operações — Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Roberson Pozzobon, da Lava Jato, e Piercamillo Davigo e Gherardo Colombo, da Mãos Limpas — relataram suas experiências e avaliaram as operações. O caso italiano continua provocando curiosidade por aqui, além de alguns vaticínios, que considero descabidos. Não há inexorabilidade histórica, há apenas uma dinâmica comum no comportamento daqueles que cometem crimes de corrupção e querem continuar cometendo: usar todo o poder e influência disponíveis para tentar abrandar as leis e dificultar as punições. Foi o que ocorreu, com sucesso, na Itália, mas, entre nós, apesar das tentativas do sistema político de seguir a mesma cartilha, o apoio da população ao combate à corrupção permanece e faz enorme diferença.

Outra peculiaridade da grande corrupção brasileira foi a rapidez e a intensidade com as quais ela se espalhou pelo mundo afora, tornando-a mais visível e, portanto, vulnerável. A chegada da Lava Jato à Itália é mais um capítulo dessa história. A partir de informações coletadas no Brasil e enviadas à Itália, investigações foram feitas e os sócios da San Faustin, holding de uma empresa ítalo-argentina (a Techint), foram denunciados pelo suposto pagamento de propinas a Roberto Duque, ex-diretor da Petrobras. Entre 2009 e 2014, Duque teria favorecido a empresa em contratos da Petrobras, recebendo em troca propinas a serem depositadas no exterior. O executivo já foi condenado no âmbito da Lava Jato a 124 anos de prisão, e cumpre pena desde 2015. Mais uma curiosidade: a Techint também havia sido investigada na operação Mãos Limpas no início dos anos 90 por pagamento de propinas na Itália. O CEO da empresa à época admitiu pagamentos ilícitos, fez um acordo, e foi condenado a 16 meses de prisão. Sem mudanças nas leis e regras, a história se repete…

A Itália acaba de chegar a uma já longa lista de países que tiveram empresas ou políticos envolvidos com a Lava Jato, que tem por objetivo investigar as operações de corrupção e lavagem de dinheiro ocorridas em contratos da Petrobras com suas maiores fornecedoras, sobretudo empreiteiras. No caso, uma empresa italiana está sendo responsabilizada pelo pagamento de propinas a um funcionário da Petrobras. Em outros, o pagamento de propinas era feito por empresas brasileiras a políticos de outros países. Podemos ter uma ideia deste procedimento, ainda que parcial, seguindo os passos da Odebrecht.

Embora tenha sido revelada a existência no Brasil de um cartel formado pelas maiores empreiteiras, a Odebrecht, a maior delas, liderou o processo de internacionalização da nossa corrupção. Ao que tudo indica, tal liderança foi conquistada pela introdução de métodos gerenciais sofisticados no pagamento das propinas por meio da criação, em 2006, do “Departamento de Operações Estruturadas”, que lhe garantiu grande vantagem com relação às parceiras de cartel, como sugerem Nicolas Campos, Eduardo Engel, Ronald Fischer e Alexander Galetovic no artigo “ Renegotiations and corruption in infrastructure: the Odebrecht case ” (ou “Renegociações e corrupção em infraestrutura: o caso Odebrecht”), de novembro de 2019. Em vez de chegarem apenas na forma de pagamentos em espécie — nas famosas malas de dinheiro — as propinas passaram a ser depositadas em contas offshore, utilizando um sistema paralelo, fora da contabilidade da empresa, e oculto por uma rede de alta segurança para não deixar pistas das operações e dos participantes, que utilizavam codinomes e senhas complexas nas comunicações.

Cristina Pinottié graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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