Acadêmico

Qual a situação de mulheres vítimas de violência em áreas rurais no Brasil

Beatriz Junqueira Kipnis

19 de setembro de 2018(atualizado 28/12/2023 às 12h09)
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Esta pesquisa, realizada na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, mapeia as dificuldades enfrentadas por mulheres em situação de violência — e as estratégias de organizações públicas para assisti-las — a partir da análise do Programa de Unidades Móveis em Pernambuco, que atende vítimas em áreas rurais.

Entre as conclusões, a autora do estudo destaca que as mulheres sofrem com o isolamento geográfico e social e têm dificuldade no acesso aos serviços de atendimento.

1Qual a pergunta a pesquisa responde?

A dissertação aborda a violência contra mulheres em áreas rurais, passando por dimensões como isolamento, família e comunidade para compreender quais as estratégias e dificuldades apresentadas pelas mulheres e por organizações públicas para que elas saiam de situações de violência. Entender este problema de pesquisa exigiu uma abordagem múltipla e se fez necessário um estudo de caso para acessar as habitantes de áreas rurais.

O Programa de Unidades Móveis em Pernambuco, que atende mulheres em situação de violência em áreas rurais, foi escolhido para concretizar a pesquisa, possibilitando ouvir e analisar as falas de mulheres e também profissionais que trabalham diretamente com a temática. Busquei, dentro desta estratégia geral, analisar se e como os fatores associados à dificuldade das mulheres saírem de situações de violência são específicos de áreas rurais; entender se o Programa de Unidades Móveis é uma interiorização do modelo urbano (e se essas especificidades exigem estratégias diferentes) e analisar em que medida o programa consegue atender essas mulheres.

2Por que isso é relevante?

De acordo com os dados mais recentes do 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2016, uma mulher foi assassinada em média a cada duas horas no Brasil. Ainda assim, os dados são subdimensionados, sobretudo para  regiões rurais. Essas mulheres, principalmente aquelas em áreas remotas, também sofrem com a violência, mas suas vozes raramente são ouvidas e seus problemas, dificilmente resolvidos, levando em consideração as especificidades dos lugares rurais.

A literatura aponta que as mulheres em áreas rurais sofrem com o isolamento geográfico e social, traduzidos pelo difícil acesso a serviços de atendimento, apoio e proteção e laços sociais restritos pelo casamento. A família e os valores patriarcais também parecem ser mais exacerbados nessas áreas, em velhas e novas roupagens. Há evidências de que as mulheres não confiam em pessoas dentro da mesma rede social para relatar as agressões sofridas. Esta pesquisa visa dar luz ao problema da violência contra as mulheres em áreas rurais no Brasil, investigando se essas mulheres têm maior dificuldade de saírem de situações de violência e por que isso ocorre, a partir das dimensões elencadas pela literatura.

3Resumo da pesquisa

Esta dissertação tem como objetivo aprofundar a literatura existente por meio da compreensão de quais são os diferentes fatores associados à dificuldade de mulheres rurais saírem de situações de violência. Para isso, foi utilizada a metodologia do campo-tema, permitindo uma abordagem multimétodos de aproximação do problema em três dimensões: documentos internacionais, dados secundários e estudo de caso no estado de Pernambuco. Os documentos internacionais reforçam fatores da literatura, apontando para o isolamento geográfico e maior vulnerabilidade das mulheres em áreas rurais. Os dados secundários apontam que os indicadores socioeconômicos das mulheres em áreas rurais são inferiores aos dos demais grupos.

Além disso, a pesquisa de dados secundários sobre a violência contra as mulheres em áreas rurais mostra a análise de dados do Disque-180, porém revela a fragilidade desses números. Por fim, o estudo de caso de Pernambuco possibilitou o reforço e relativização das dimensões encontradas na literatura a partir de entrevistas com mulheres que moram em áreas rurais, além de apontar estratégias e desafios do Programa de Unidades Móveis no estado.

4Quais foram as conclusões?

No quesito isolamento geográfico, foram identificados a falta de serviços e bens em geral, falta de empregos e pouco acesso a transporte público. O isolamento social também esteve presente no caso estudado, o que representa uma violência, além de um primeiro passo para outras violências contra as mulheres que vivenciam essa situação. Em relação à dimensão familiar, ficou evidente que ambas as formas de patriarcalismo, tradicional e novo, existem concomitantemente nas áreas rurais. Na dimensão comunitária, o estudo de caso possibilitou a percepção de que  a relação entre as pessoas nas comunidades pode levar as mulheres a esconderem situações de violência por receio de serem julgadas pelos outros. Quanto às organizações públicas, o programa possui estratégias específicas e auxilia as mulheres trazendo informações e formando laços de confiança entre elas. Porém, existem limitações quanto à mudança das dimensões que dificultam a saída dessas mulheres de situações de violência – isolamento, família e comunidade.

5Quem deveria conhecer seus resultados?

Os resultados desta pesquisa podem interessar a organismos governamentais de políticas para mulheres, como secretarias, diretorias e coordenadorias estaduais, municipais e federal, assim como outras esferas governamentais cujas atuações perpassam temáticas de gênero, violência contra a mulher e áreas rurais. A pesquisa também pode  ser de interesse de organizações do terceiro setor. Estes resultados são igualmente relevantes na área acadêmica, para tornar visível e fomentar o debate sobre a violência contra a mulher em áreas rurais. Qualquer cidadão interessado em entender e discutir as dimensões ligadas à violência contra a mulher e o contexto das áreas rurais pode encontrar insumos para reflexão nesta dissertação.

Beatriz Junqueira Kipnisé formada em administração pública e mestra em administração pública e governo pela Fundação Getulio Vargas-SP. Atua em diferentes temas de políticas públicas, sobretudo na realização de diagnósticos e avaliações qualitativas.

Referências

  • FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Acessado em 20.11.2017.
  •  SPINK, Peter. Pesquisa de campo em psicologia social: uma perspectiva pós-construcionista. Psicologia & Sociedade. Vo 15 (2). P.18-42. Jul./Dez., 2003.

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