ESPECIAL
BRASÍLIA, 60
da utopia moderna aos desafios da realidade brasileira
Por
Juliana Domingos de Lima
Guilherme Falcão
Thiago Quadros
Sariana Fernández
Em 21 abr 2020
brasília 60
Cidade construída na década de 1950, no governo JK, concretizou plano antigo de transferir a capital para o interior. O Nexo resgata sua história, simbolismo, problemas e perspectivas de futuro no sexagésimo aniversário
Capital federal desde 21 de abril de 1960, Brasília foi planejada e construída do zero segundo os mandamentos do urbanismo modernista. Nesse aspecto e em sua escala, é uma experiência praticamente única no mundo.
Sua inauguração pode ser vista como o ápice de um momento histórico de euforia e possibilidade quanto ao futuro do país. Com apenas quatro anos de existência, porém, ela se tornou sede de uma ditadura militar que duraria 21 anos, cuja ideologia e práticas contrariavam em grande parte as convicções daqueles que a haviam idealizado.
Ganhou novos ocupantes com a redemocratização e foi palco de enormes tensões políticas em anos recentes, ilustradas pela imagem de manifestantes tomando o prédio do Congresso nas Jornadas de Junho de 2013 ou por uma Esplanada dos Ministérios dividida com grades, que separavam manifestantes pró e contra o governo Dilma Rousseff, no processo de impeachment de três anos depois. Desde 2019, o Palácio da Alvorada, residência oficial do chefe do Executivo projetada por Oscar Niemeyer, é ocupado por Jair Bolsonaro.
Juca Varella/Agência Brasil - 17.04.2016
Ueslei Marcelino/Reuters – 17.05.2013
À esq., vista da Esplanada dos Ministérios com grades isolando manifestantes. À dir., vista noturna do Congresso Nacional em junho de 2013
Tombada como patrimônio da humanidade em 1987, Brasília encontra-se ainda hoje preservada em seu traçado original, o do Plano Piloto do arquiteto Lúcio Costa. O Distrito Federal conta atualmente com cerca de três milhões de habitantes e compreende 31 Regiões Administrativas: o Plano Piloto e as cidades de seu entorno, previamente chamadas de cidades-satélites. Muitas delas tiveram uma urbanização precária, típica das periferias brasileiras, que contrasta com o planejamento do Plano Piloto.
Ao longo das últimas seis décadas houve, e ainda há, muitos olhares possíveis para Brasília. Eles vão do elogio à vida aprazível das superquadras à crítica contundente às falhas da cidade modernista.
Há os que veem a cidade como elegantemente imponente e há quem a enxergue como monumentalmente desumana. Há quem destaque seu aspecto democrático pela quase ausência de grades e muros altos – tão comuns em outras metrópoles brasileiras –, e quem a classifique como elitista e excludente. Há ainda quem desdenhe de Brasília por ser engessada, espécie de mausoléu de um modelo de cidade do passado, e quem a celebre como organismo vivo, capaz de se atualizar sem apagar sua história. Brasília é, provavelmente, tudo isso ao mesmo tempo.
Com o marco dos 60 anos da capital federal completados em 21 de abril de 2020, o Nexo conta a história desse empreendimento desde sua gestação, passa pelos conflitos e pelo êxito de sua construção e busca investigar o que a capital significa hoje para o país: seus erros, seus acertos e as perspectivas para o futuro.
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imaginando brasília
A iniciativa de construir uma nova capital no interior do país – mais especificamente no Planalto Central – é em geral atribuída ao presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). Brasília, afinal, foi de fato construída durante seu mandato, que durou de 1956 a 1961, e inaugurada por ele, que fez da cidade seu grande “cartão de visita” e a síntese de seu plano de governo.
Menos conhecida do que a narrativa mítica dessa empreitada, porém, são seus antecedentes: já se estudava transferir a capital para o interior do território pelo menos dois séculos antes de Brasília existir.
A ocupação do território pelos colonizadores portugueses começou pelo litoral. O Brasil teve como capital Salvador, entre 1549 e 1763, e o Rio de Janeiro, de 1763 a 1960. Por serem cidades costeiras, ambas estavam vulneráveis a ataques marítimos estrangeiros, dos quais o país ainda precisava se proteger. Figuravam também entre as mais populosas, dotadas de vida política e intelectual, o que tornava o governo central mais suscetível a agitações populares e rebeliões.
À esq., antigo mapa da Baía de Todos os Santos, em torno de 1600. À dir., carta do distrito federal de 1893, quando correspondia ao Rio de Janeiro.
Tendo como objetivo principal resguardar a sede do poder (colonial, imperial ou republicano) de eventuais ameaças, a transferência da capital para o interior passou a ser defendida a partir do século 18 por uma série de figuras de relevo na história do país, por motivos distintos ao longo do tempo.
Brasília antes de Brasília
A primeira proposta conhecida a ir nessa direção é de autoria do Marquês de Pombal (1699-1782), nobre português que foi primeiro-ministro da metrópole e cujas reformas alcançaram também o Brasil. Em sua proposta, a nova capital no interior seria a sede do governo da Colônia e do próprio Reino de Portugal. Ainda no século 18, em 1789, os inconfidentes mineiros também aventaram mudar a capital para São João del Rey.
A Corte Portuguesa, instalada no Rio de Janeiro a partir de 1808, também reconhecia a necessidade da mudança. De Londres, Hipólito da Costa (1774-1823), fundador do primeiro jornal brasileiro – o Correio Braziliense – chegou a escrever que o Rio de Janeiro não possuía “nenhuma das qualidades que se requerem na cidade que se destina a ser a capital do Império do Brasil; e se os cortesões que para ali foram de Lisboa tivessem assaz patriotismo e agradecimento pelo país que os recolheu, nos tempos de seus trabalhos, fariam um generoso sacrifício das comodidades e (...) se iriam estabelecer em um país do interior, central e imediato às cabeceiras dos grandes rios, edificariam ali uma cidade nova”.
Já no período imperial, José Bonifácio (1763-1838), figura cuja influência para a independência do Brasil é tida como decisiva, foi um dos que fizeram a defesa da transferência da capital. Ele retomou a antiga proposta em 1821, em um documento que redigiu e submeteu a deputados paulistas novamente em 1823, quando encaminhou à primeira Assembleia Constituinte um documento chamado “Memória sobre a necessidade de edificar no Brasil uma nova capital”.
Em sua concepção, a nova capital seria localizada em Minas Gerais e se chamaria Petrópole ou Brasília. A Assembleia Constituinte, no entanto, foi dissolvida e a Constituição de 1824, outorgada pelo Imperador D. Pedro 1º, não incorporou a interiorização da capital.
Mas a Constituição outorgada não encerrou o assunto, e a questão seguiu sendo discutida por senadores. Ao longo de quase todo o século 19, ela foi defendida também por Francisco Adolfo Varnhagen, o visconde de Porto Seguro, que se tornou um teórico do assunto. Mais do que isso, Varnhagen liderou uma missão oficial ao Planalto Central, considerada a primeira grande expedição científica para o local, com o objetivo de encontrar a localização ideal da cidade.
Também faz parte da mitologia da capital a história de que, nos anos 1880, o santo italiano Dom Bosco teria profetizado sua construção. Em seu livro de memórias há o relato de um sonho no qual viajava à América do Sul e, na região entre os paralelos 15° e 20°, uma voz lhe disse que ali seria a “terra prometida”, de “uma riqueza inconcebível”.
A partir de 1889, quando se iniciou a República, a ideia da nova capital ganhou outro patamar. Foi incluída na primeira Constituição republicana, de 1891, adquirindo o status de projeto oficial.
“Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabeIecer-se a futura Capital federal”
— Artigo 3º da Constituição de 1891
No ano seguinte, o presidente Floriano Peixoto criou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil em 1892. A viagem, que ficou conhecida como Missão Cruls, foi liderada pelo cientista de origem belga Luiz Cruls e formada por 22 expedicionários. O grupo passou sete meses no Centro-Oeste brasileiro e delimitou o quadrilátero, com a área determinada pela Constituição, que deveria corresponder ao território do novo Distrito Federal. A atual área do DF é menor do que o quadrilátero.
As idas e vindas sobre a nova capital continuaram no período republicano. O projeto perdeu força com o final do governo de Floriano Peixoto e ficou adormecido até o centenário da independência, em 1922, quando um decreto do presidente Epitácio Pessoa fez assentar a pedra fundamental da nova capital próxima ao município de Planaltina, em Goiás.
A Constituição de 1934 trouxe, mais uma vez, um artigo que previa a transferência da capital, mas o assunto ficou estacionado durante o Estado Novo (1937-1945). A mudança apareceu novamente na nova Constituição de 1946, que estabeleceu também a nomeação de uma comissão para efetuar o estudo da localização da nova cidade. Esse trabalho foi feito nos anos subsequentes, ampliando a área indicada pela Missão Cruls.
Os trabalhos dessa comissão se seguiram até meados da década de 1950. Em 1955, em um comício em Jataí, em Goiás, o então candidato Juscelino Kubitschek falou pela primeira vez publicamente que construiria a nova capital. Em janeiro de 1956, JK assumiu a Presidência e anunciou prontamente sua intenção de entregar a cidade ao final do mandato.
Nos anos 1950, a necessidade de defesa da capital brasileira de ataques marítimos tinha deixado de fazer sentido. A interiorização passava a ter por objetivo central o desenvolvimento do Centro-Oeste do país, buscando diluir a concentração econômica do Sudeste.
O Brasil nos anos JK
“Se a ideia de uma capital no interior do país já havia sido mencionada em contextos diversos, por que é que ela dá certo nesse momento e com Juscelino Kubitschek?”, introduz a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz em entrevista ao Nexo.
Schwarcz lembra que na segunda metade da década de 1950 o Brasil vinha de um momento político muito conturbado, após diferentes períodos de governo de Getúlio Vargas – o último deles encerrado com seu suicídio, em 1954, que gerou grande comoção nacional.
“JK aparece como uma espécie de solução, um vendedor de esperança pra um novo Brasil, um Brasil de vocação modernista”, diz a historiadora. Kubitschek fez parte de uma safra de governos populistas que ganharam força na América Latina entre as décadas de 1930 e 1960.
Domínio público / Acervo Arquivo Nacional
O presidente Juscelino Kubitschek (o segundo da esq. para dir.) em sua posse, em 1956. O último, à direita, é seu vice João Goulart
Podendo se orientar mais à esquerda ou mais à direita, os populismos têm como característica a influência do carisma de seus líderes sobre as massas, com as quais afirmam ter a capacidade de se comunicar diretamente, sem a intermediação de outros poderes ou instituições.
No caso de Juscelino, a historiadora aponta que esse carisma foi fundamental para que a população embarcasse na ideia da nova capital. Ele foi capaz de transformar o desalento e o descrédito dos brasileiros com a política naquele momento em um sentimento de “possibilidade de construir uma nova realidade, uma nova capital, um novo sonho de Brasil”. “Brasília era o grande símbolo da possibilidade de alterar o país em cinco anos”, diz Schwarcz.
Ainda assim, JK teve muitos opositores, que questionavam sobretudo qual seria o custo da transferência da capital para os já combalidos cofres públicos. Senadores demonstraram sua contrariedade na tribuna até as vésperas da inauguração.
O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Guilherme Wisnik destaca que, no contexto mundial, vivia-se o que o historiador Eric Hobsbawm chamou de “Era de Ouro”, um período de cerca de três décadas de grande crescimento econômico e transformação social no pós-Segunda Guerra Mundial, em que as cidades também respondiam ao anseio por modernização.
“É um período de prosperidade em que há essa ideia de progresso e no qual os vários governos desenvolvimentistas imaginaram um futuro radioso através de cidades novas”, diz Wisnik ao Nexo.
O ambiente cultural
No campo da cultura e das artes, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Luís Antônio Jorge descreve a segunda metade da década de 1950 como um momento de extrema inovação e de efervescência até então inédita.
Em um mesmo ano, 1956 – o mesmo, aliás, da posse de JK –, foram publicados dois livros importantes de Guimarães Rosa, o romance “Grande Sertão: Veredas” e a reunião de novelas “Corpo de baile”. São obras que se voltam para o interior do Brasil e falam dele usando uma forma literária moderna e arrojada. Também é daquele ano a primeira reunião de poemas de João Cabral de Melo Neto, “Duas águas”, consagrando definitivamente o “poeta-engenheiro” que no ano anterior havia publicado “Morte e vida severina”. Estavam a pleno vapor, ainda, as experimentações com a poesia concreta, em diálogo com vanguardas estrangeiras. O movimento teve como um de seus marcos a 1ª Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em dezembro de 1956.
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reprodução/rio 40 graus (1955)
Guimarães Rosa, arte concreta, o início da Bossa Nova e do Cinema Novo marcaram a cultura nacional na década de 1950
Mas não era só a literatura que estava em ebulição: as artes plásticas passavam por uma renovação intensa, também em diálogo com o movimento concreto, tendo o grupo Ruptura como um dos expoentes do período. O Cinema Novo dava seus primeiros passos com os filmes de Nelson Pereira dos Santos, como “Rio, 40 Graus” (1955) e “Rio, Zona Norte” (1957). E por fim, na música, surgiu em 1959 o LP “Chega de Saudade”, estreia de João Gilberto, que revolucionou a música brasileira e inaugurou a Bossa Nova.
Segundo Luís Antônio Jorge, é também a partir desse ambiente cultural moderno e cosmopolita que se deve entender a eleição de uma estética moderna, encarnada na obra do arquiteto Oscar Niemeyer, para a construção de Brasília. Esse contexto exprimia uma “vontade de emancipação cultural, de escolher os caminhos e expressões da nossa modernidade” – anseio que já vinha, aliás, de algumas décadas.
Nesse sentido, Jorge afirma ao Nexo que a nova capital encarnou a ideia de autorretrato: o retrato de um Brasil moderno projetado para o mundo e, ao mesmo tempo, a construção da auto-imagem de país do futuro, em um momento no qual essa perspectiva de futuro parecia promissora.
Arquitetura moderna no Brasil
A adesão ao modernismo na arquitetura brasileira não nasceu com Brasília: ela já tinha, na década de 1950, uma série de antecedentes importantes. O Brasil já era reconhecido no mundo por uma nova e inventiva geração de arquitetos que não só estavam sintonizados e aplicavam os preceitos internacionais da arquitetura moderna como propunham novas soluções adequadas às especificidades brasileiras, como o clima e vegetação.
Há uma série de edifícios modernos brasileiros anteriores a Brasília que são emblemáticos. O Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, projetado por Oscar Niemeyer a convite do então prefeito da cidade Juscelino Kubitschek, na década de 1940, é visto em muitos sentidos como o início da nova capital.
daniel raposo/wikicommons
Vista da Lagoa da Pampulha e de parte do conjunto arquitetônico de mesmo nome, em Belo Horizonte
No Rio de Janeiro, então capital federal, há o Palácio Capanema, prédio público de grande porte projetado nos anos 1930 por uma equipe que incluía Lúcio Costa e Niemeyer – e que contou com uma consultoria do mestre modernista Le Corbusier –, que se tornou um ícone da arquitetura moderna brasileira. Já o conjunto residencial do Parque Guinle, projetado por Lúcio Costa nos anos 1940, é o ancestral direto das superquadras de Brasília.
Edificações de São Paulo, como o conjunto arquitetônico do Parque do Ibirapuera, projetado por Niemeyer para a comemoração dos 400 anos da cidade em 1954, também entram nesse rol.
Pedro Ivo Trasferetti/Fundação Bienal de São Paulo
Vista interna do Pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo
Todas essas experiências contribuíram para que Brasília fosse construída com a feição que tem hoje. Elas explicam também o fato de que, à época da realização do Concurso Nacional do Plano Piloto, o paradigma do urbanismo modernista fosse um consenso entre os arquitetos brasileiros.
O concurso do plano piloto
O Concurso Nacional para o Plano Piloto da Nova Capital do Brasil ocorreu entre setembro de 1956 a março de 1957. De início, cogitou-se que o desenvolvimento do plano poderia ficar a cargo do arquiteto suíço Le Corbusier, considerado um mestre da arquitetura moderna e uma grande referência para a arquitetura brasileira da época. O Instituto dos Arquitetos do Brasil, porém, se posicionou defendendo a realização de um concurso público com a participação de profissionais brasileiros, que concorreriam com seus respectivos projetos para a nova capital.
O instituto fez também uma série de recomendações sobre o que deveria constar no edital do concurso. Mas o edital que foi publicado em setembro de 1956 não acatou todas elas, exigindo dos concorrentes apenas a apresentação do projeto com o traçado básico da cidade e de um relatório no qual justificassem suas escolhas.
Além desses requisitos básicos, as equipes poderiam entregar, facultativamente, estudos e dados. Não havia quaisquer indicações prévias sobre como a cidade deveria ser ou mesmo qual a população prevista, permitindo a elaboração de planos muito diversos.
Os participantes tinham que lidar com alguns fatores pré-determinados: o limite máximo de 500 mil habitantes, as coordenadas em que a cidade seria edificada e a criação de uma represa (o Lago Paranoá) em uma localização já definida para melhorar o microclima da região, bastante seco.
Também estava previamente fixada a localização de alguns edifícios, cuja construção se iniciou antes do resultado do concurso: um hotel (que se tornou o Brasília Palace), um aeroporto e o palácio residencial da Presidência (o Alvorada).
Já à época da divulgação do edital, o arquiteto Oscar Niemeyer passou a chefiar o Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Novacap, estatal criada para construir a nova capital. A tarefa de projetar os principais edifícios da cidade já havia sido destinada a ele, que gozava de prestígio como arquiteto e era próximo de Juscelino Kubitschek.
O vencedor do concurso ficaria responsável pelo projeto urbanístico de Brasília, enquanto Niemeyer realizaria os principais projetos arquitetônicos.
A nomeação de Niemeyer gerou desconforto entre alguns arquitetos, levando ao temor de que ele pudesse exercer influência sobre o processo de seleção do autor do projeto e, mais especificamente, que favorecesse Lúcio Costa, a quem admirava e com quem havia trabalhado anteriormente.
Ao final do prazo, no dia 11 de março de 1957, foram entregues 26 propostas. O horário limite para depositar o trabalho estaria fixado para as 18 horas. Segundo jornais da época, Lúcio Costa foi o único a entregar seu trabalho após o vencimento do prazo, passadas as 23 horas. Ainda assim, Costa pôde competir, e, como se sabe, ganhou o concurso.
Para Milton Braga, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e autor do livro “O concurso de Brasília: sete projetos para uma capital”, o concurso não foi um “jogo de cartas marcadas”, destinado desde o início à vitória de Lúcio Costa – um rumor que passou a existir desde então.
Tendo estudado a competição e os planos concorrentes, Braga acredita que cada projeto foi avaliado objetivamente pelo júri, que teria optado pelo de Lúcio Costa em função de sua consistência e qualidade. Ao Nexo o professor afirma, porém, que pode ter havido favorecimento no sentido de garantir a participação de Costa no concurso.
Mesmo os termos do edital, muito mais simples do que os que haviam sido sugeridos pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil, foram essenciais para que o já experiente arquiteto pudesse concorrer. Diferentemente de outros participantes, Costa não estava à frente de um escritório de arquitetura, razão pela qual o trabalho que apresentou foi menos detalhado se comparado aos demais.
Sete projetos foram premiados pela comissão julgadora, composta pelo engenheiro Israel Pinheiro, presidente da Novacap, pelos arquitetos urbanistas estrangeiros Sir William Holford (Inglaterra), André Sive (França) e Stamo Papadaki (EUA), e pelos brasileiros Oscar Niemeyer (Novacap), Luiz Hildebrando Horta Barbosa (Clube de Engenharia) e Paulo Antunes Ribeiro (IAB). Os integrantes eram, de forma geral, defensores ou simpatizantes do urbanismo modernista. Segundo o edital do concurso, os cinco primeiros colocados receberiam prêmios em dinheiro.
“De um lado, considerou-se que uma capital federal destinada a expressar a grandeza de uma vontade nacional, deverá ser diferente de qualquer cidade de 500 mil habitantes. A capital, cidade funcional, deverá além disso, ter expressão arquitetural própria. Sua principal característica é a função governamental. Em torno dela se agrupam todas as outras funções e para ela tudo converge”, diz o relatório divulgado pelo júri, em que justifica a escolha.
A ideia da cidade funcional está expressa no Plano Piloto de Lúcio Costa e tem origem nas diretrizes do urbanismo moderno. Outros projetos participantes também se basearam nesse mesmo paradigma.
Atrás do projeto vencedor, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP Milton Braga destaca como as mais interessantes as propostas de Rino Levi e de Marcelo e Maurício Roberto, conhecidos como os irmãos Roberto. Ficaram empatadas, ocupando a terceira e a quarta posição.
Projeto do Plano Piloto apresentado pelos irmãos Roberto
Projeto do Plano Piloto apresentado por Rino Levi
O de Levi tinha no centro de seu conceito a verticalização, e propunha a estruturação da cidade em superblocos, edifícios de uso misto com mais de 80 andares com apartamentos residenciais e serviços. Já no dos irmãos Roberto, a capital seria basicamente composta de um conglomerado de pequenas cidades circulares e autônomas.
os preceitos da cidade moderna
Em voga nas primeiras décadas do século 20, o movimento moderno trouxe inovações baseadas na racionalidade e na funcionalidade para a arquitetura e o urbanismo.
Realizados a partir de 1928, os Ciam (Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna) reuniram os principais nomes dessa vertente no mundo para tratar de seus princípios. Um dos fundadores do evento foi o arquiteto franco-suíço Le Corbusier, um dos principais nomes do movimento moderno e referência fundamental para os arquitetos modernos brasileiros, que também frequentavam os Ciam.
Maquete da “ville radieuse” (cidade radiante), plano urbano de Le Corbusier apresentado pela primeira vez em 1924 e nunca executado
A quarta edição do congresso, realizada em 1933, resultou em um documento conhecido como Carta de Atenas, manifesto que consolida as discussões que vinham sendo feitas ao longo de décadas.
Ela se tornou uma espécie de cartilha do urbanismo moderno, que pressupunha, entre seus vários pontos, um zoneamento funcional – a organização da cidade em quatro funções, que seriam habitar, trabalhar, circular e ter lazer.
“A cidade adquirirá o caráter de uma empresa estudada de antemão e submetida ao rigor de um planejamento geral. Sábias previsões terão esboçado seu futuro, descrito seu caráter, previsto a amplitude de seus desenvolvimentos e limitado, previamente, seu excesso. Subordinada às necessidades da região, destinada a enquadrar as quatro funções-chave, a cidade não será mais o resultado desordenado de iniciativas acidentais”
— Trecho da Carta de Atenas
O conceito do Plano Piloto de Lúcio Costa
Lúcio Costa apresentou um projeto baseado no cruzamento de dois eixos, que, segundo o texto de seu relatório “nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse”. No desenho, um desses eixos aparece arqueado para melhor se adaptar à topografia local, o que resultou na comparação com o formato de um avião.
Projeto do Plano Piloto de Brasília apresentado por Lúcio Costa
O eixo norte-sul, chamado de rodoviário-residencial, corresponde às asas. Nele está alocada a vida cotidiana da cidade, baseada nas superquadras, setores residenciais que pretendiam ter a autonomia de uma pequena cidade, cada uma contando com escola, centros de saúde e de lazer, igreja e comércios locais – mercadinhos, açougues, quitandas, barbearias, cabeleireiros.
governo federal
Vista aérea de superquadras na Asa Sul. É possível notar os prédios com gabaritos iguais e a arborização do entorno
Cada superquadra seria circundada por uma “larga cinta densamente arborizada”, para garantir faixas de sombra e o resguardo interno das quadras. A disposição dos blocos residenciais era livre, mas eles deveriam obedecer a um gabarito máximo de seis pavimentos e ser erguidos sobre pilotis, pilares que deixam o térreo livre e aberto para a circulação de pessoas. O tamanho das unidades habitacionais e os padrões de acabamento da construção poderiam variar, fazendo com que tivessem valores distintos. Na concepção de Lúcio Costa, isso as tornaria acessíveis a diferentes classes sociais e permitiria a convivência entre elas.
“Deve-se impedir a enquistação de favelas tanto na periferia urbana quanto na rural. Cabe à Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações decentes e econômicas para a totalidade da população”
— Lúcio Costa, em trecho de
seu relatório do Plano Piloto
Croquis das superquadras e detalhamento de elementos do sistema viário esquematizado por Lúcio Costa
Estava prevista ainda neste eixo uma separação entre o trânsito de pedestres e de veículos. O sistema viário constitui uma parte importante do plano. Voltado para veículos automotores, como carros e ônibus, ele é composto por vias expressas de alta velocidade e pistas laterais para o tráfego local. Com isso, Costa criou um sistema com trevos (chamados hoje de “tesourinhas”) e passagens de nível, o que elimina os cruzamentos diretos.
Já no eixo leste-oeste, chamado de eixo monumental, foram dispostos os edifícios identificados à vida pública da cidade – e suas funções de capital. No extremo leste, onde o sol nasce, estaria o Palácio da Alvorada, residência presidencial.
Ainda na parte leste desse eixo estariam localizados os centros cívico e administrativo, constituídos pela praça dos Três Poderes e pela Esplanada dos Ministérios. A primeira, no formato de um triângulo equilátero, abrigaria as sedes dos Três Poderes: o Executivo, que viria a ser o Palácio do Planalto, o Palácio do Supremo Tribunal Federal na base e o Congresso Nacional no vértice.
Detalhamento da Praça dos Três Poderes no projeto de Lúcio Costa
Este último ficaria de frente para a esplanada, onde seriam situados os edifícios dos ministérios e autarquias em sequência. Ainda haveria uma praça autônoma com uma catedral e um centro cultural com museus, biblioteca e planetário. Esse setor seria contíguo à “ampla área destinada à Cidade Universitária”.
No lado oeste, ficariam outros grandes equipamentos, como o centro esportivo, o setor administrativo municipal (com a sede do governo do Distrito Federal) e os quartéis.
No cruzamento entre os dois eixos, portanto no centro da cidade, Lúcio Costa idealizou “uma grande plataforma” que concentraria o centro de diversões da cidade, com cinemas, teatros e restaurantes. Seria “uma mistura em termos adequados de Piccadilly Circus, Times Square e Champs Elysées”.
A área térrea coberta pela plataforma ficaria destinada ao estacionamento de veículos e abrigaria a rodoviária interurbana (basicamente um terminal de ônibus). Ao lado desse setor de diversões, haveria dois grandes núcleos de comércio e também dois outros setores, um para os bancos e outro para os escritórios.
Na orla do lago, cuja localização fora previamente definida, o arquiteto imaginou “bosques e campos de feição naturalista e rústica para os passeios e amenidades bucólicas de toda a população urbana”. Não deveria haver bairros residenciais próximos a ele, para preservá-lo: “apenas os clubes esportivos, os restaurantes, os lugares de recreio, os balneários e núcleos de pesca poderão chegar à beira d'água”.
Lúcio Costa também sugeriu no relatório do plano a numeração dos endereços pela qual a cidade é famosa hoje. “A referência deve ser o eixo monumental, distribuindo-se a cidade em metades norte e sul; as quadras seriam assinaladas por números, os blocos residenciais por letras, e finalmente o número do apartamento na forma usual, assim por exemplo, N-Q3 – L – ap. 201”, exemplifica”.
Desenvolvimento do conceito dos dois eixos que se cruzam concebido por Lúcio Costa
“A solução apresentada é de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui a variedade no tratamento das partes, cada qual concebida segundo a natureza peculiar da respectiva função, resultando daí a harmonia de exigências de aparência contraditória. É assim que, sendo monumental é também cômoda, eficiente, acolhedora e íntima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. O tráfego de automóveis se processa sem cruzamentos, e se restitui o chão, na justa medida, ao pedestre”
— Lúcio Costa, em trecho de
seu relatório do Plano Piloto
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construindo brasília
Uma lei sancionada em setembro de 1956 criou a Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital), empresa pública responsável por gerenciar a construção de Brasília. Para sua Presidência, JK nomeou o engenheiro e político mineiro Israel Pinheiro.
Na década de 1950, a Novacap chegou a ter 30 mil funcionários, segundo informações oficiais do governo do Distrito Federal, incluindo figuras como o arquiteto Oscar Niemeyer, o paisagista Roberto Burle Marx e o artista Athos Bulcão.
A empresa deveria ser extinta com a inauguração da cidade, mas, como ainda havia muitos prédios inacabados após a inauguração, seguiu existindo. Continua em funcionamento até hoje, mas com outras atribuições, como realizar podas de árvores, manutenção de vias e calçadas, obras de infraestrutura urbana e conservação de edifícios públicos.
As principais edificações da capital ficaram prontas em três anos. Politicamente, era essencial para JK cumprir o prazo prometido para a inauguração. A oposição apostava no fracasso da empreitada, que representaria o “suicidio político” do presidente.
Duas semanas antes da inauguração, o senador João Villas Boas (UDN-MT) se pronunciou no Palácio Monroe, antiga sede do Senado no Rio de Janeiro para questionar o presidente, que estava “distribuindo convites até a Sua Santidade o papa e à rainha da Inglaterra para virem assistir a quê? A andaimes, apartamentos em construção e ruas poeirentas, que só atravessá-las nos deixa a roupa marrom. Isso na época da seca. Quando chove, é preciso tirar os sapatos e suspender a calça até o joelho para atravessar o lamaçal. A cidade também não tem luz nem esgoto. É grande o ridículo da parte de nosso governo”.
Brasília se tornou a “meta-síntese” de seu conhecido plano de metas, anunciado com o slogan “cinquenta anos em cinco”. A construção e inauguração da cidade foram um acréscimo aos 30 itens do programa de governo, e passaram a condensá-lo, simbolizando a possibilidade de dar um salto temporal rumo ao futuro.
reprodução
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À esq., JK em frente ao Palácio da Alvorada. À dir. Oscar Niemeyer e Lúcio Costa
Atraídos pela notícia da construção da nova capital, um grupo de cerca de 250 migrantes em busca de trabalho chegou ao local ainda em 1956, quando as obras tiveram início. Foram os primeiros candangos – como ficaram conhecidos os trabalhadores saídos de todas as regiões do país, que muitas vezes levavam poucos pertences e pouco dinheiro, viajando por dias rumo ao que seria Brasília em busca de oportunidades.
Com o início das obras, a população cresceu rapidamente. Dados censitários coletados em 1959 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que já havia, naquele ano, cerca de 64 mil pessoas ocupando a área demarcada para o Distrito Federal.
A maioria dessa população era formada por homens, 42 mil segundo os dados daquele ano. Grande parte deles estava empregada na construção civil, vivia nas dezenas de acampamentos erguidos pelas construtoras e tinha entre 20 e 40 anos. A maioria vinha dos estados mais próximos: Goiás, Minas Gerais e Bahia. Já em termos regionais, 44% dos candangos eram nordestinos, segundo apontou o IBGE em 1959.
Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles
Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles
Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles
Trabalhadores durante a construção de Brasília
Violência nos canteiros de obras
Com um ritmo acelerado de trabalho e nenhuma fiscalização, as condições de segurança e de saúde dos operários foram amplamente negligenciadas durante a construção de Brasília.
Os acidentes eram constantes e fizeram proliferar relatos de que, na impossibilidade de interromper o trabalho, corpos de trabalhadores ficavam depositados nas colunas de concreto que dão sustentação ao Congresso Nacional e a outros edifícios.
Nunca houve confirmação oficial sobre esse procedimento, mas ele aparece no testemunho de muitos trabalhadores que participaram das obras. Tampouco há registros oficiais sobre o número total de mortes.
Faz parte da história desse período um episódio que nunca foi plenamente esclarecido e que ficou conhecido como “o massacre da Pacheco Fernandes”.
Em fevereiro de 1959, no refeitório da construtora que dá nome à história, com capacidade para mais de mil pessoas, dois funcionários se revoltaram com a má qualidade da comida, que estaria estragada. A reclamação deu início a uma briga, o encarregado chamou a polícia e, segundo a versão oficial, um trabalhador teria sido morto e 48 teriam ficado feridos no conflito.
Entre os trabalhadores, a versão era de que a polícia teria promovido uma matança de centenas de pessoas, cujos corpos teriam sido desovados em um lugar desconhecido. Esses depoimentos foram registrados pelo cineasta Vladimir Carvalho em seu documentário “Conterrâneos velhos de guerra”. São, porém, contestados por alguns pesquisadores e jornalistas.
A exploração dos trabalhadores era legitimada pelo discurso oficial. Em fevereiro de 1960, apenas dois meses antes da inauguração, o então ministro da Saúde, Mário Pinotti, declarou ao Jornal do Comércio que, devido à melhora na saúde do sertanejo nas décadas anteriores, o candango era capaz de suportar de 12 a 14 horas de trabalho diário.
Acusações de corrupção
e gastos sem controle
Brasília foi inaugurada no prazo, mas isso resultou em um custo humano e econômico que é, até hoje, difícil mensurar. A política desenvolvimentista de JK, que englobava a construção da nova capital, levou a um aumento na dívida externa, crescimento da taxa de inflação e desequilíbrio nas contas públicas.
Além das obras, houve ainda o gasto com a transferência dos funcionários públicos do Rio para Brasília, que incluiu o incentivo à mudança com as chamadas “dobradinhas”, o oferecimento de salário dobrado para aqueles que fossem para a nova capital.
“Até hoje não sabemos quanto custou Brasília, desconhecemos o tamanho dessa conta. O que se sabe é que ela custou a entrada de muita corrupção e de muito favorecimento no governo”, diz ao Nexo a historiadora Lilia Schwarcz.
O governo JK fortaleceu, com a construção de Brasília, a relação entre empreiteiras privadas e o Estado. Isso abriu caminho para construtoras de vários estados se associarem e se organizarem politicamente, tornando-se politicamente decisivas no cenário brasileiro a partir de então, segundo mostra a tese de doutorado do historiador Pedro Campos, “A ditadura dos empreiteiros”.
Segundo ele, as empreiteiras fizeram parte da articulação para o golpe de 1964 e pautaram políticas públicas de acordo com seus interesses durante o regime militar, mantendo forte influência também no peŕiodo da redemocratização, a partir de 1985.
Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles
Peter Scheier/Acervo Instituto Moreira Salles
Crianças em arredores de escola na superquadra e torre administrativa do Congresso Nacional, ambas em 1960
A formação das ‘cidades-satélites’
Como a instalação permanente dos operários na nova capital não foi prevista por aqueles que a idealizaram, os comércios e residências dos acampamentos, construídos em madeira, eram provisórios e precários.
Os assentamentos deveriam existir somente enquanto durasse a construção. Na Cidade Livre, por exemplo, os lotes haviam sido cedidos em sistema de comodato, sem escritura definitiva, e os terrenos deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959.
A Cidade Livre foi um dos primeiros acampamentos montados, no fim de 1956. Ela deu origem ao que hoje é o Núcleo Bandeirante, uma das 31 regiões administrativas (R.A.s, anteriormente chamadas de cidades-satélites) que circundam o Plano Piloto e compõem o Distrito Federal.
Arquivo Público do Distrito Federal
Vista da Cidade Livre, depois Núcleo Bandeirante, em 1958
Tendo sido concebida como um centro comercial e de diversões – não eram concedidos alvarás para residências –, recebeu esse nome por ser uma zona livre do pagamento de impostos, medida de incentivo para a vinda de comerciantes para o Planalto Central. Mesmo assim, trabalhadores passaram a se instalar por ali, e, com a inauguração da capital, iniciaram um movimento pela permanência no território, que foi concedida por lei em 1961.
Além do Núcleo Bandeirante, outras comunidades formadas pelos operários puderam permanecer onde estavam, como a Vila Planalto, constituindo hoje regiões administrativas do Distrito Federal. Mas houve aquelas que foram removidas antes mesmo da inauguração, e cujos habitantes foram transferidos para pequenos núcleos urbanos mais distantes, como Taguatinga.
Já no final da década de 1960 e início de 1970, iniciou-se um segundo momento de remoções das favelas remanescentes nas proximidades do Plano Piloto para áreas mais afastadas. Então governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira criou em 1970 a Campanha de Erradicação de Invasões, que transferiu as comunidades da Vila do IAPI, morro do Querosene, do Urubu e outras para as terras de uma antiga fazenda, ao norte de Taguatinga. Assim nasceria a cidade-satélite da Ceilândia, cujas três primeiras letras correspondem à sigla da campanha.
O caso da Vila do IAPI é um exemplo marcante, pela dimensão da remoção e a forma como foi feita. Formada por 12 mil barracos e cerca de 82 mil habitantes, a comunidade “foi removida contra a vontade de seus moradores para um local sem infraestrutura urbana ou comunitária, localizado cerca de 30 km do Plano Piloto”, diz o professor da Universidade de Brasília, Luiz Alberto de Campos Gouvêa, em seu livro “Brasília: a capital da segregação e do controle social”.
A remoção da vila foi baseada em “laudos técnicos”, que atribuíam à ocupação a contaminação de córregos próximos. O governo fazia uma marcação pintando um “x” na porta dos barracos a serem removidos nos próximos dias e entregava uma notificação às famílias. A mudança foi feita com a promessa de condições mais dignas de moradia, mas a administração pública só passou a prover condições mínimas de habitabilidade, como água encanada e rede de esgoto, anos depois da instalação dos primeiros moradores na Ceilândia.
Ainda segundo o livro de Gouvêa, essa política teve consequências muito negativas do ponto de vista social. A transferência das famílias provocou uma redução significativa de suas rendas devido à distância maior até o Plano Piloto, que concentrava as oportunidades de emprego. A política de remoção de favelas prosseguiu até meados da década de 1970. Entre 1970 e 1976, a CEI removeu cerca de 118.453 pessoas de favelas e áreas do Plano Piloto.
‘Um novo Tiradentes’
Brasília foi, enfim, inaugurada em 21 de abril de 1960. “Eu não acredito em nenhuma data como coincidência”, diz a historiadora Lilia Schwarcz. “JK, que era mineiro, usou do dia 21 de abril para homenagear Tiradentes, que foi o primeiro símbolo republicano. Tiradentes é um herói cuja imagem foi construída durante a República, por isso até hoje ele é retratado como um verdadeiro Cristo tropical. JK queria usar e adicionar para si essa imagem de um novo salvador, um novo herói que era, ao mesmo tempo, republicano e religioso”.
“Esta cidade, recém-nascida, já se enraizou na alma dos brasileiros; já elevou o prestígio nacional em todos os continentes; já vem sendo apontada como demonstração pujante da nossa vontade de progresso, como índice do alto grau de nossa civilização; já a envolve a certeza de uma época de maior dinamismo, de maior dedicação ao trabalho e à Pátria, despertada, enfim, para o seu irresistível destino de criação e de força construtiva”
— Juscelino Kubitschek em seu discurso na inauguração de Brasília
a estrutura da cidade
plano piloto
eixo monumental
asa norte
asa sul
setor habitacional norte
setor habitacional sul
setores
eixo monumental
superquadras
hoteleiro
comercial
médico hospitalar
universidade de brasília
bancário
autarquia
cultural
plano piloto
cultural
teatro nacional
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catedral metropolitana
de brasília
ministérios
esplanada dos
ministérios
palácio itamaraty
palácio da justiça
três poderes
congresso nacional
supremo tribunal
federal
palácio do planalto
wikimedia commons
Vista noturna do Distrito Federal capturada pela Nasa em 2011
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interpretando brasília
Logo depois de sua inauguração, ainda na década de 1960, Brasília passou a ser alvo de uma série de críticas. Elas questionavam, em suma, seu planejamento urbano, o impacto econômico de sua construção e a exclusão imposta àqueles que tanto haviam trabalhado para construí-la.
De um lado, o paradigma modernista que a orientava já estava sendo colocado em xeque no mundo por novas ideias, que dariam origem ao pós-modernismo no campo da arquitetura e do urbanismo. A utopia moderna, que havia acreditado ser possível planejar e organizar todas as dimensões da vida no espaço urbano, encarando o ser humano como uma espécie de máquina, agora parecia autoritária e sufocante.
De outro, a esse debate internacional se somava o fato de que os ideais democráticos presentes na concepção da cidade haviam sido rapidamente suplantados pelo golpe militar de 1964 e pelo usufruto quase exclusivo do Plano Piloto de Lúcio Costa pela classe média e alta, enquanto os mais pobres haviam ido morar fora de seus limites.
“Brasília ainda era uma cidade recente, e passou a ser muito criticada tanto internamente, pela questão dela abrigar muito bem, de certa forma, o poder militar, o poder autoritário, quanto por ela ser a encarnação de alguma coisa anacrônica, de uma ideia de cidade que, já nos anos 1960, considerava-se ultrapassada”
— Guilherme Wisnik,
professor da FAU-USP
Em 1987, a cidade foi reconhecida pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, como patrimônio da humanidade. Foi o primeiro conjunto urbano construído no século 20 a adquirir esse status. Com isso, o governo do Distrito Federal emitiu um decreto que regulamenta a preservação do projeto urbanístico da cidade.
Em um capítulo de seu famoso livro “Cidades para Pessoas”, um marco para o urbanismo contemporâneo, o arquiteto Jan Gehl critica Brasília afirmando que vista do alto, é uma “bela composição” mas uma “catástrofe ao nível dos olhos”. Ele se refere à escala humana, para a qual os espaços urbanos de Brasília seriam “muito grandes e amorfos”, as ruas excessivamente largas e as áreas verdes igualmente inadequadas, já que é possível ver os caminhos abertos pela passagem de pedestres no meio delas, o que Gehl enxerga como um protesto inconsciente ao rígido planejamento da cidade.
Além da monumentalidade, que passou a ser vista por alguns como opressora e desumana, são feitas críticas ao seu rodoviarismo, que privilegia o deslocamento por carro em detrimento de meios de transporte coletivo, como o metrô.
Trata-se de um paradigma de meados do século 20 que marca o traçado de diversas cidades no Brasil e do mundo, e cujas consequências negativas para a mobilidade urbana não são um problema só de Brasília.
Mas o fluxo entre as regiões administrativas do entorno e o Plano Piloto penaliza aqueles que dependem do transporte coletivo com longas esperas, viagens extensas e custo elevado. A frota de automóveis do Distrito Federal supera 1,7 milhão e um colapso na mobilidade vem sendo anunciado, mas o poder público continua investindo na construção de novos viadutos. O metrô só chegou à capital em 2001 e hoje opera com 25 estações, deixando ainda a maior parte do território descoberto.
Muitos também chamam atenção para sua ausência de espaços públicos, de espaços de convivência compartilhados por seus habitantes. Ao encarar a cidade como um grande edifício que, depois de pronto, não precisaria mais ser transformado – um produto, e não um processo –, os modernistas acabavam tendo uma visão redutora da experiência urbana, afirma ao Nexo o professor da FAU-USP Milton Braga.
Para a historiadora Lilia Schwarcz, a ambiguidade é uma característica constitutiva de Brasília. “Por isso ela é uma capital a serviço de quem está no poder. Foi uma belíssima capital para a ditadura militar, que performou a sua teatralidade naquele local. Governou a partir de 17 atos institucionais, retirando os direitos dos brasileiros durante um longo período e, ao mesmo tempo, se fazia apresentar naquele espaço tão moderno, teoricamente democrático e receptivo. A ditadura militar não precisava do povo, não gostava do povo e achou em Brasília um ótimo lugar simbólico para performar o poder”.
Desde sua inauguração, segundo ela, a cidade tem sido usada por todos os governantes em exercício para demonstrar a força de seu poder, por meio de rituais possibilitados por sua arquitetura monumental, como o da subida e descida pela rampa do Palácio do Planalto. Ainda segundo Schwarcz, Brasília “se transformou no local da eficácia simbólica do poder político”.
Wisnik também afirma que, durante a ditadura, a capital passou a ser vista como uma espécie de panóptico, por meio do qual os militares exerceriam sua vigilância sobre a população. Hoje, no entanto, o professor destaca que a ausência de grades e muros altos nas superquadras, em comparação a outras grandes cidades brasileiras, dá a Brasília ares de miragem.
Ele descreve como inacreditável andar pelas superquadras hoje “e não ver guaritas, não ver câmeras de vigilância, não ver cerca elétrica, nada disso”. “As nossas cidades foram completamente dominadas pelo medo, pela febre da securitização e pelo isolamento. A superquadra de Brasília é um manifesto contra isso. É impressionante que ela esteja lá”, diz. Wisnik ressalta, porém, que as superquadras só mantêm essa feição original devido ao tombamento.
Já as entrequadras comerciais, quadras de comércio local idealizadas por Lúcio Costa a fim de abastecer a vizinhança das superquadras, acabaram se desvirtuando em relação à proposta original.
No plano do arquiteto, as fachadas do comércio deveriam estar voltadas para a superquadra – para os edifícios residenciais, a faixa arborizada em torno deles e a via de circulação dos pedestres. Já os fundos das lojas estariam virados para a rua, funcionando como área de estacionamento e descarga.
Na prática, isso se inverteu. Em função do maior movimento nas vias destinadas aos carros, que confere maior visibilidade aos estabelecimentos, suas entradas principais se voltam para essas vias, e os fundos para o interior das superquadras.
Outro problema das quadras comerciais, levantado pelo professor Guilherme Wisnik, é sua “esterilidade”. A separação funcional de Brasília faz com que elas careçam da tradicional mistura de usos das cidades comuns.
O encontro dos dois eixos, planejado por Lúcio Costa para ser o sofisticado cosmopolita centro urbano de Brasília, também não saiu como previsto. Essa que foi imaginada pelo arquiteto como a “escala gregária” da cidade é apontada pelo professor da USP Milton Braga como aquela que menos deu certo em seu plano. O “centro” conta hoje com a rodoviária do Plano Piloto e dois shopping centers. A plataforma é viva e movimentada, mas é hoje sobretudo um lugar de passagem.
Sem fugir à regra das cidades brasileiras grandes e médias, surgiram em Brasília vários shoppings com o passar dos anos. Wisnik afirma que a forma destacada e pós-moderna de alguns agride a arquitetura da cidade, mas observa também que “por outro lado, os shoppings são consequências naturais do plano da cidade”, na qual se circula de carro e onde há uma segregação funcional.
Sendo um lugar aonde se vai para consumir, ele pode ser visto como uma extensão do raciocínio presente no projeto da cidade. Nesse sentido, ele aponta que “talvez em Brasília o shopping esteja mais em casa do que em outras cidades brasileiras”, diz.
A vida dos moradores
Apesar de todas as críticas à cidade, os moradores do Plano Piloto gozam de uma das maiores qualidades de vida entre os municípios do país. Em muitos aspectos, para quem vive no plano e se desloca de carro, a cidade de fato funciona muito bem, segundo as previsões de quem a concebeu.
Mas, como o acesso à moradia nas superquadras ficou restrito às classes privilegiadas, há a acusação de que essa vida idílica só existe em função do afastamento da pobreza para as cidades-satélites.
Hoje, nem todas as cidades-satélites consistem em assentamentos precários, ocupados pela população de menor renda. Em anos recentes, condomínios fechados também proliferaram no entorno de Brasília, em regiões como Águas Claras. Essa heterogeneidade, com cidades que vão de grandes periferias a redutos de alta renda, é definida por Wisnik como um “mosaico das tipologias do urbanismo excludente brasileiro”.
“Segregação, gentrificação, violência são o DNA do urbanismo capitalista, ainda mais em um país periférico”
— Guilherme Wisnik,
professor da FAU-USP
Ainda assim, os pesquisadores ouvidos pelo Nexo procuram fazer uma distinção entre os problemas originados pelo planejamento urbano de Lúcio Costa e aqueles que são fruto de um desvirtuamento do plano devido a problemas mais amplos da sociedade brasileira, comuns também a outras cidades.
“Segregação, gentrificação, violência são o DNA do urbanismo capitalista, ainda mais em um país periférico”, diz o professor Guilherme Wisnik. “É um pouco injusto acusar o desenho de uma cidade por um problema que é muito mais amplo. Mas, claro, houve uma certa ingenuidade ali. Havia a ideia, por parte do Lúcio Costa, de que todas as classes sociais morariam nas superquadras, de que elas seriam um espaço democrático, onde haveria essa convivência diversificada. Não foi o que aconteceu”.
A desigualdade entre o Plano Piloto e seu entorno criou distorções que têm como exemplo significativo o fato de que as escolas públicas instaladas nas superquadras para atender às crianças e jovens que nelas residem de modo geral não são hoje frequentadas por seus habitantes.
Por serem mais ricos, muitos moradores do plano estudam em colégios particulares localizadas fora dele, enquanto os mais pobres, vindos de outras regiões administrativas do DF, estudam nas escolas públicas do plano, o que cria um trânsito cruzado que contraria a racionalidade do planejamento urbano da capital.
“Essa disfuncionalidade tem a ver com a contradição entre a funcionalidade da ideia moderna e a segregação da cidade brasileira”, define Wisnik.
Para ele, a utopia modernista de Brasília “deu errado e certo ao mesmo tempo”. Ela teve êxito na qualidade de vida e na eficiência que oferece aos habitantes do plano. Mas fracassou, segundo Wisnik, porque os valores coletivistas que seu projeto buscou representar perderam a batalha histórica, não se espalharam para outros lugares, e acabaram por transformá-la em um “museu da modernidade”, sem par no resto do país.
‘A Ceilândia não canta parabéns para Brasília’
Crescido na Ceilândia, onde chegou aos quatro anos de idade, em 1974 – poucos anos depois de sua fundação – o cineasta Adirley Queirós descreve como estranha e tensa a relação que tinha com Brasília ao longo da infância e da adolescência.
A capital era um lugar que parecia distante, sem conexão com a vida levada na cidade-satélite. Ainda criança, ia com o pai vender bolo na rodoviária do plano piloto, onde chegavam de manhã cedo. Adirley dormia durante o trajeto e se espantava de acordar já no plano. “Brasília para mim era a rodoviária”, diz ao Nexo.
Já então, a capital representava para ele, seus irmãos e seus pais, um lugar de trabalho, nunca de lazer. Naquela época, o próprio itinerário dos ônibus, segundo Adirley, não permitia que os habitantes das cidades-satélites frequentassem o Plano Piloto a passeio, nos fins de semana. “Hoje eu penso que era porque não queriam, justamente, que a gente estivesse lá”, afirma.
A violência de Brasília em relação às cidades-satélite, para ele, é principalmente de ordem estética. A desigualdade econômica, uma “violência de classe”, existe, mas ela seria comum a outras metrópoles brasileiras. O diretor interpreta mesmo a expulsão dos mais pobres do plano piloto, que deu origem às cidades-satélites, como uma necessidade, antes de tudo, estética. Era preciso, segundo ele, preservar a forma da cidade que os modernistas tinham tanto orgulho de ter construído.
Adirley, que na década de 2010 se tornou um dos diretores de cinema de maior destaque do Distrito Federal e do cinema autoral brasileiro, tem como tema central de seus filmes as marcas históricas da exclusão e da violência sobre os moradores da Ceilândia.
São obras que documentam histórias de pessoas próximas a ele, como a do amigo Marquim, que ficou paraplégico devido à repressão policial de um baile black, contada em “Branco sai, preto fica”. Ao mesmo tempo, os filmes criam elaborações ficcionais mais imaginativas sobre as questões das cidades-satélites e sua relação com Brasília – como quando, no mesmo filme, um herói vindo do futuro destrói o plano piloto para evitar a tragédia ocorrida no baile.
divulgação
Cena do filme “Branco sai, preto fica”, de 2014
O aniversário da inauguração de Brasília, segundo ele, não é comemorado na Ceilândia. “A gente não canta parabéns pra Brasília, não faz parte da festa”, diz.
Mesmo havendo uma divisão clara entre os territórios, o diretor afirma existir uma retórica reiterada – por parte de políticos de Brasília, por exemplo – de que a cidade é uma só, de que as cidades-satélites fazem parte de Brasília. Ele a enxerga como uma cidade velha e reacionária. “Para mim, só serviria como cenário de filme apocalíptico, um ‘Blade Runner 3’”, brinca.
Soluções para a cidade
Para otimizar a mobilidade urbana, o governo do Distrito Federal pretende expandir os atuais 42 km de extensão do metrô, que deve chegar, nos próximos anos, à Asa Norte, Ceilândia e Samambaia. Também será preciso priorizar propostas relativas à criação de faixas exclusivas de ônibus, ciclovias integradas e tirar do papel a construção do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos).
Nas regiões administrativas mais precárias, seria necessário realizar estudos e investir na urbanização de favelas, melhorando a infraestrutura urbana e a qualidade de vida da população dessas regiões e reduzindo as enormes desigualdades existentes no entorno do Plano Piloto.
Em uma análise comparativa entre os projetos que participaram do concurso de 1956/57, o professor Milton Braga avalia que o projeto de Lúcio Costa tem problemas, mas funciona. Além disso, acredita na sua capacidade de adaptação: apesar de ser “engessado” e mesmo com seu desenho voltado para o carro, permitiu a implantação de um metrô.
“Acho que Lúcio Costa soube fazer uma cidade que pode se transformar sem perder sua essência. Ele definiu o traçado e as normas de uso e ocupação do solo, mas não os edifícios. É uma cidade que, se trocar todos os prédios, mantendo as características normativas, provavelmente ela não se transforma muito. Ela pode ser bastante atualizada sem perder a sua natureza”, diz ao Nexo.
Para o cineasta Adirley Queirós, a impossibilidade de crescimento do núcleo projetado por Lúcio Costa impede que Brasília possa de fato agregar a população periférica de seu entorno. Ele nota, porém, que gerações mais jovens da Ceilândia passaram a “circular mais, a disputar democraticamente” espaços do plano piloto com maior frequência em comparação ao passado.
A ampliação do acesso à universidade pública no Brasil em anos recentes, por meio de ações afirmativas, foi decisiva para essa mudança, segundo afirma Adirley. Ela tem permitido que mais jovens da Ceilândia e de outras periferias frequentem a Universidade de Brasília, a UnB. Com isso, usufruem de pelo menos uma parte da utopia idealizada por Lúcio Costa e, cada vez mais, refletem criticamente sobre ela, reivindicando o que foi historicamente negado a quem ficou de fora do plano.
Bento Viana/Governo do Distrito Federal
Vista de Brasília em 2012, com o Palácio do Planalto e o Lago Paranoá ao fundo
brasília
na cultura
literatura
“Nos primeiros começos de Brasília”, de Clarice Lispector (1970)
Crônica sobre a cidade publicada pela autora no Jornal do Brasil, está disponível online.
“Expresso Brasília: a história contada pelos candangos”, Edson Beú (2013)
Memórias dos trabalhadores que participaram da construção da cidade.
“Brasília-Z: cidade palavra”, de Nicolas Behr (2014)
Dicionário afetivo do poeta sobre a cidade.
cinema
“Brasília, contradições de uma cidade nova”, Joaquim Pedro de Andrade (1967)
Curta documental que mostra a cidade inaugurada há poucos anos e discute se, mesmo tendo sido planejada, estaria reproduzindo as desigualdades do país.
“Conterrâneos velhos de guerra”, Vladimir Carvalho (1990)
Documentário que conta a história dos candangos e da construção de Brasília.
“O Risco: Lucio Costa e a Utopia Moderna”, Geraldo Motta Filho (2002)
Documentário sobre vida e obra do arquiteto urbanista, que narra, através de sua trajetória, o percurso da arquitetura moderna brasileira.
“Era uma vez Brasília”, Adirley Queirós (2017)
Longa de ficção científica ambientado na capital federal, estrelado por um agente intergaláctico perdido no tempo.
Produzido por Juliana Domingos de Lima e Guilherme Falcão
Arte por Guilherme Falcão
e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Thiago Quadros
Edição por Conrado Corsalette
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