A história da Olimpíada de Tóquio em fotos
Disputados em meio à pandemia e sem público nas arquibancadas, os Jogos Olímpicos de 2020 finalmente aconteceram, com 11 mil atletas de 205 países. Abaixo, o ‘Nexo’ traz os destaques do evento em imagens
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Pandemia: uma Olimpíada sob risco
A pandemia de covid-19 adiou a Olimpíada de Tóquio em um ano. Prevista inicialmente para julho de 2020, a competição foi aberta em 23 de julho de 2021, em uma cerimônia com delegações reduzidas e sem público. O novo Estádio Olímpico de Tóquio, inaugurado em 2019 para abrigar o evento, foi um palco vazio para a tenista Naomi Osaka acender a pira, gesto que decreta simbolicamente o início dos Jogos.
Do lado de fora das arenas onde as provas foram disputadas, parte da população japonesa protestava contra a realização da Olimpíada no pior momento da pandemia no país. Mesmo com a ausência de torcida nas arquibancadas (salvo pequenas exceções) e com os protocolos sanitários para restringir a circulação de atletas e comitivas dos países participantes, o número de casos de covid aumentou no Japão durante o evento, ultrapassando os 15 mil registros diários pela primeira vez – a maioria deles em Tóquio.
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Calor: Tóquio 40 graus
As Olimpíadas costumam ser disputadas durante o verão dos países do hemisfério Norte. Temperaturas altas são comuns durante a competição. Atletas tiveram que enfrentar termômetros acima dos 40°C na edição de Atlanta em 1996 e na de Atenas em 2004, por exemplo. Em Tóquio, a sensação térmica se aproximou disso, mas houve um agravante: a umidade. Característica típica da estação no Japão, ela foi contornada da última vez que a capital japonesa recebeu os Jogos, em 1964 – na época, o evento foi disputado no mês de outubro, no outono. Além disso, o país sofre com as mudanças climáticas: em 1964, o verão em Tóquio tinha temperatura média 1,5 °C mais baixa do que em 2021.
Os efeitos foram sentidos pelos atletas: corredores passaram mal e deixaram a maratona no meio do caminho, uma competidora desmaiou durante o arco e flecha, algumas provas mudaram de horário para evitar o pior do calor e skatistas reclamaram que a borracha de seus equipamentos estava amolecendo sob o sol. Para lidar com a demanda de ar condicionado das arenas olímpicas, o governo japonês reativou um reator nuclear que estava desligado desde o desastre de Fukushima, em 2013.
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Esportes novos: a aposta no rejuvenescimento do público
Toda Olimpíada inclui modalidades novas em seu programa. Algumas voltam a ser disputadas depois de um período fora dos Jogos, como aconteceu com o beisebol em 2021. Outras são esportes que estreiam devido aos gostos do país anfitrião – em Tóquio, foi o caso do caratê. E há aquelas que se tornam olímpicas num movimento de acompanhar o espírito do tempo. Na edição do Japão, houve uma aposta em esportes muito vinculados a lifestyles ou antes restritos ao circuito “radical”: escalada, basquete 3x3, surfe e skate. Nos últimos dois, o Brasil se destacou. O surfista Ítalo Ferreira foi o responsável pela primeira medalha de ouro do país na competição. Já no skate, foram três pratas: com Pedro Barros, na categoria park, e Kelvin Hoefler e Rayssa Leal, no street.
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Brasil: o melhor desempenho da história
Foi a Olimpíada em que o Brasil conquistou mais medalhas em sua história – 21 no total, sendo sete ouros, igualando o recorde no Rio em 2016. Além do bom desempenho em modalidades estreantes, o país voltou a subir no pódio em esportes nos quais tradicionalmente vai bem. Caso do judô, com os bronzes de Daniel Cargnin e Mayra Aguiar. No boxe, a repetição do recorde de pódios de 2012 em Londres, mas desta vez com título: ouro para Hebert Conceição, prata para Bia Ferreira e bronze para Abner Teixeira. Na canoagem, Isaquias Queiroz conseguiu o ouro que faltou no Rio, quando se tornou o único brasileiro a ganhar três medalhas em uma mesma Olimpíada.
No atletismo, a consagração de Thiago Braz no salto com vara, ao levar o bronze cinco anos depois de ser campeão olímpico, e o terceiro lugar de Alison dos Santos nos 400 metros com barreiras, após um longo jejum brasileiro nos pódios das provas de velocidade individuais. Na natação, Fernando Scheffer e Bruno Fratus se juntaram a Cesar Cielo, Gustavo Borges e outros na galeria de medalhistas olímpicos. Nas modalidades coletivas, o futebol masculino se tornou bicampeão olímpico e o vôlei feminino surpreendeu com uma prata num ano em que não era favorito.
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Mulheres no topo: o recorde de medalhas
Tóquio foi a Olimpíada em que mais mulheres brasileiras subiram ao pódio – foram nove medalhas. Com um ouro e uma prata na ginástica artística, Rebeca Andrade foi a primeira a ser premiada duas vezes numa mesma edição. Ana Marcela Cunha venceu a maratona aquática e se tornou a primeira nadadora brasileira a ganhar uma prova nos Jogos. Martina Grael e Kahena Kunze levaram o bicampeonato olímpico na vela. A boxeadora Bia Ferreira ficou com a prata nos pesos leves. Com um bronze, a judoca Mayra Aguiar se igualou à jogadora de vôlei Fofão como a maior medalhista olímpica do país (as duas têm três). Aos 13 anos, Rayssa Leal virou a brasileira mais jovem a subir no pódio. Laura Pigossi e Luisa Stefani conquistaram a primeira medalha do tênis do Brasil em uma Olimpíada, ao ficarem em terceiro lugar nas duplas. E a participação do país em Tóquio foi fechada com o segundo lugar no vôlei, o quinto pódio da história da modalidade feminina.
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Saúde mental no esporte: o holofote sobre o tema
No quinto dia da Olimpíada, a estrela americana Simone Biles teve um mau desempenho na sua apresentação no solo na final por equipes da ginástica artística e decidiu não participar dos aparelhos seguintes da prova. No momento, sua comissão técnica alegou que se tratava de uma contusão. Mas o motivo veio à tona depois: Biles ficaria de fora das competições pelo tempo que fosse necessário para cuidar de sua saúde mental. “Temos que proteger nossas mentes e nossos corpos e não apenas fazer o que o mundo quer que façamos”, disse ela, que era uma das apostas dos Estados Unidos para acumular medalhas em Tóquio. A ginasta também revelou estar sofrendo de “twisties”, uma desorientação espacial durante a execução de movimentos no ar que pode causar sérias lesões. Isso não tirou do centro do debate a saúde mental no esporte de alto rendimento. Nascida em 1997, Biles é representante de uma geração que não se esquiva de falar sobre questões psicológicas e está sujeita à pressão constante do público por meio das redes sociais – ferramenta que, na via oposta, ajudou a formar uma corrente para abordar o tema. E ainda deu tempo de ela disputar a última prova individual da ginástica: a americana conseguiu o bronze na trave assimétrica.
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Protestos: como a política apareceu na Olimpíada
Para a edição de Tóquio, o COI (Comitê Olímpico Internacional) afrouxou suas regras sobre manifestações de cunho político. Se antes qualquer gesto era proibido durante as provas, em 2021 eles passaram a ser restringidos apenas nas cerimônias oficiais. como a entrega de medalhas no pódio. A atleta americana de arremesso de peso Raven Saunders, no entanto, quebrou o protocolo ao receber a prata. Ela cruzou os braços acima da cabeça e saudou os oprimidos. “Grito para todos os meus negros. Grito para toda a minha comunidade LGBTI. Grito para todo o meu povo que lida com a saúde mental”, afirmou depois.
Não foi o único ato político nesta Olimpíada. Uma das primeiras controvérsias dos Jogos foi uma recomendação do COI, depois revogada, para que sua equipe de redes sociais não desse publicidade para as imagens de jogadoras do futebol feminino se ajoelhando antes das partidas em alusão ao Black Lives Matter. Na esgrima, competidoras americanas usaram máscaras rosas de proteção contra a covid para protestar contra o assédio sexual. O caso da corredora Krystsina Tsimanouskaya, que se recusou a voltar a Belarus por medo de perseguição, destacou o não raro papel dos Jogos como refúgio político. E também houve as referências geopolíticas: judocas muçulmanos que se recusaram a enfrentar adversários israelenses, a rivalidade entre atletas chineses e taiwaneses, as ginastas do Azerbaijão que se apresentaram de preto pelo luto vivido no conflito com a Armênia e uma ode ao regime cubano feita por um boxeador do país que derrotou um rival nascido em Havana, mas naturalizado espanhol.
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Atletas LGBTI: ampla presença e a 1ª mulher trans
A neozelandesa Laurel Hubbard, do levantamento de peso, não passou da primeira prova classificatória em Tóquio, mas fez história: ela se tornou a primeira mulher transgênero a competir em uma Olimpíada. A participação de atletas trans entre os 11 mil competidores que estiveram no Japão foi pontual. Além de Hubbard, apenas duas pessoas não binárias estiveram nos Jogos (Alana Smith, dos EUA, e Quinn, do Canadá, nas modalidades femininas do skate e do futebol). Sinal do lento avanço na inclusão de pessoas trans no esporte, apesar de o COI ter flexibilizado regras em 2016.
A presença de esportistas abertamente LGBTI, no entanto, foi um recorde: 181, 90% deles mulheres. Campeões olímpicos como o britânico Tom Daley, dos saltos ornamentais, e a nadadora Ana Marcela Cunha são homossexuais. A expectativa é que esse número seja ainda maior nas próximas edições.
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Destaques e marcas históricas: quem brilhou
Foram os primeiros Jogos desde 2000 sem Michael Phelps, 23 vezes campeão olímpico na natação, e Usain Bolt, o homem mais rápido do mundo da edição de Pequim em 2008 à do Rio em 2016. Isso não significa que Tóquio não teve seus bichos-papões. A começar pelo cubano Mijaín Lopez, que venceu o quarto título seguido da luta greco-romana e igualou um recorde do próprio Phelps e das lendas do atletismo Carl Lewis e Al Oerter.
Já nas piscinas, o americano Caleb Dressel ganhou cinco medalhas de ouro, e a australiana Emma McKeon subiu sete vezes ao pódio (quatro ouros, três bronzes). Nos 100 metros livre, a sul-africana Tatiane Schoenmaker bateu o recorde mundial da prova.
No atletismo, houve números superlativos: recordes mundiais nos 400 metros com barreiras masculino (com o norueguês Karsten Warholm) e feminino (obra da americana Sidney McLaughlin); a velocista jamaicana Elaine Thompson-Herrah repetiu o feito do Rio e faturou as provas de 100 metros (com a melhor marca do mundo) e 200 metros; e a venezuelana Yulimar Rojas se tornou a mulher a obter a maior distância da história no salto triplo.
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Espírito olímpico: quando vencer não é o mais importante
Que a Olimpíada não é feita só de recordes é algo sabido desde os tempos do Barão de Coubertin, fundador do COI e pai dos Jogos modernos. Há o espírito esportivo, também conhecido como fair play, que inclui o respeito, a humildade, a generosidade e a amizade.
Atitudes que foram vistas nas comemorações conjuntas na natação; na amizade entre skatistas nas provas da modalidade; na despedida do jogador argentino de basquete Luís Scola, aplaudido de pé pelos rivais depois de sua última partida em Olimpíadas; e no caso do italiano Gianmarco Tamberi e do qatari Mutaz Essa Bashim, que resolveram dividir a medalha de ouro depois de empatar na final do salto em altura.
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Novo ciclo: o caminho para Paris 2024
Após 19 dias de competição, a Olimpíada terminou com os Estados Unidos no topo do quadro de medalhas, seguido de perto pela China. Os donos da casa ficaram em terceiro, batendo o seu recorde de pódios. Ao Brasil, coube o 12º lugar, sua melhor posição no ranking de países até hoje.
O encerramento também ocorreu de arquibancadas vazias. Performances musicais e de dança buscaram passar a mensagem de união que permeou o evento e deram as boas vindas às Paralimpíadas de Tóquio e aos Jogos de Paris de 2024. Com a crise sanitária, a tradicional apresentação feita pela nova sede olímpica não ocorreu no estádio, mas por vídeo, com imagens da capital francesa e destaque para o breaking, esporte derivado do breakdance que vai estrear na próxima edição do evento.
O ciclo olímpico desta vez será mais curto: três anos. Um desafio para os atletas, mas não tão grande quanto foi a pandemia.
Produzido por Antonio Mammi
Arte e Desenvolvimento por Thiago Quadros
Colaboraram Letícia Arcoverde e Rafaela Ranzani
©2021 Nexo Jornal
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