Cientistas do Brasil
que você precisa
conhecer
Thaisa Bergmann
—Astrofísica
19 de set de 2020
“Cientistas são exploradores e descobridores”
Thaisa Bergmann é física, mestre em astrofísica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, doutora na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tem pós-doutorado pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Ela é professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde é chefe do grupo de pesquisa em astrofísica do Departamento de Astronomia. Abaixo, confira o podcast com o áudio da entrevista e uma versão condensada da conversa por escrito.
Como você explicaria a sua área de pesquisa para alguém que não sabe o que você faz?
Eu fiz a graduação em física, e na física nosso objetivo é entender as leis da natureza. Então, eu fui ambiciosa e quis entender o universo. Dentro da astrofísica, me apaixonei pelas galáxias, estudando um certo tipo, que chamamos de galáxias ativas.
A hipótese quando eu comecei lá nos anos 1980, era de que as ativas tinham um buraco negro supermassivo no centro – esses objetos monstruosos que engolem a matéria, no qual não escapa nem a luz. Eu fiquei fascinada com isso. Esse foi o começo da história. Depois fiz mestrado, doutorado, pós-doutorado e trabalho nisso até hoje.
Por que é importante estudar fenômenos como buracos negros e a atividade nuclear das galáxias?
Assim como a gente não se contenta em só conhecer a nossa cidade e quer conhecer outras cidades do mundo, os astrônomos não se contentam em estudar só a Terra, a Lua e os planetas. Eu quis estudar uma coisa mais ampla, o universo em grande escala.
Nós aqui na Terra somos só um planeta dentro de bilhões e bilhões de planetas dentro só da nossa Via Láctea. A Via Láctea é só uma das bilhões e bilhões de galáxias que existem no universo, então a gente quer saber onde isso tudo vai parar.
A importância é que nas galáxias ativas o buraco negro supermassivo no centro captura matéria. E por que esses buracos negros são importantes? A gente concluiu nos anos 1990 que praticamente toda galáxia tem um buraco negro no centro, inclusive a nossa Via Láctea – que tem um buraco negro supermassivo cuja massa é de milhões a bilhões de vezes a do Sol.
Embora esse buraco negro seja um pontinho lá no centro, ele produz efeitos na galáxia ao seu redor. Para a gente entender o universo hoje em dia, temos que entender como se formaram as primeiras galáxias, como elas evoluíram para chegar ao estágio que estão hoje.
O buraco negro é um elemento essencial para entendermos a evolução do universo em grande escala
Os astrofísicos chegaram à conclusão que a gente não pode modelar a evolução do universo sem colocar os buracos negros nos centros das galáxias. Eles são entidades essenciais pra gente entender a evolução do universo.
Sabemos que a força que domina o universo é a gravidade. Se considerarmos somente a gravidade e a observação de que o universo está em expansão, sem levar em conta os buracos negros, os modelos [matemáticos] formam galáxias gigantes, muito maiores do que as galáxias que a gente vê hoje em dia, muito maiores que a Via Láctea.
Mas se você leva em conta o buraco negro – com ele no centro – ele eventualmente captura matéria e gera um efeito que chamamos de efeito de feedback, que é a radiação e os ventos que saem da região do buraco negro que chamamos de disco de acreção, e esses ventos empurram parte da matéria que formaria novas estrelas nas galáxias.
Se você não considera a presença do efeito de feedback dos buracos negros, a galáxia resultante é muito grande. Mas se considerar os buracos negros no centro das galáxias desde o início [da existência de cada uma delas], elas vão crescendo, mas parte do material é ejetado e elas não ficam tão grandes. Por isso, o buraco negro é um elemento essencial para entendermos a evolução do universo em grande escala.
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telescópio Gemini North em Mauna Kea, Havaí, Estados unidos
O projeto Gemini surgiu em 2000, a partir de uma iniciativa da Associação das Universidades pela Pesquisa em Astronomia. Ele foi construído e é operado por um consórcio de sete países, que inclui o Brasil.
Como você avalia o estado da pesquisa astronômica no Brasil hoje? Quais são os desafios e as dificuldades da área?
Eu diria que evoluímos bastante. Um aspecto interessante na ciência é que ela é mundial, é internacional. Estamos fazendo pesquisa de ponta. Desde os anos 2000, nos associamos ao projeto Gemini, que nos dá acessos a dois telescópios muito grandes, um no Chile, o outro no Havaí.
Também podemos fazer pedidos, por exemplo, ao telescópio espacial Hubble. O nível científico dos pesquisadores brasileiros já é mundial. A gente tem condição de fazer ciência de ponta. É claro que estamos numa fase de enfraquecimento do CNPq, nossa agência que apoia a ciência no Brasil.
O CNPq está passando por dificuldades, estamos com bolsas de mestrado e doutorado congeladas. Isso teria que ser revertido para continuarmos em um caminho de sucesso. O fato de termos conseguido investir nos projetos desses grandes telescópios foi essencial para conseguirmos ter o mesmo nível de pesquisa e acesso aos instrumentos que todo o mundo. Mas temos que cuidar para que esses recursos não parem de vir.
Como você explicaria o que é um buraco negro?
Podemos começar entendendo o que é a força gravitacional, aquilo que nos mantém presos à superfície da Terra. O que acontece se dobrarmos a massa da Terra? A força gravitacional que vamos sentir vai ser duas vezes maior, nosso peso vai dobrar. Se eu conseguisse comprimir a Terra para metade do raio que ela tem, a força gravitacional ia quadruplicar, nosso peso seria quatro vezes maior.
São duas coisas que importam, a massa do objeto na gravidade e o raio. Quanto menor o raio, maior a força gravitacional, e quanto maior a massa, também maior a força gravitacional. Se eu aumento a massa, aumento e aumento, e ao mesmo tempo diminuo o raio, isso vai acabar em um buraco negro. O buraco negro é uma região do espaço em que a gravidade é tão forte que nada escapa, nem a luz.
ARTE / NEXO JORNAL
Quais os principais desafios de comunicar a ciência astronômica para um público leigo?
Paradoxalmente, o público leigo se interessa bastante pela astronomia. Eu entrei no Twitter e lá há uma comunidade de jovens alunos de mestrado e doutorado que estão fazendo divulgação científica. É uma divulgação muito visual, porque as imagens astronômicas atraem bastante o público, já que são lindas.
Eu não sei se isso está chegando às pessoas e qual é o alcance. De todo jeito, acho muito importante. Muita pesquisas não têm um objetivo prático, e por isso precisamos do apoio público. É essencial que façamos divulgação para que as pessoas achem a pesquisa necessária.
Embora a gente faça muita pesquisa somente pela pesquisa, elas muitas vezes geram resultados que têm aplicação tecnológica. As telas de celular e de televisão, por exemplo. Os primeiros detectores que levavam essas telas eram de pesquisa astronômica. Ou o GPS, que usa posições relativísticas para o posicionamento correto – ou seja, a relatividade geral. A pesquisa mostra resultados depois de ser feita, e mostra que vale a pena investir na ciência.
Wikimedia Commons
Publicada pelo físico Albert Einstein em 1915, a Teoria da Relatividade Geral explica como corpos celestes, estrelas e planetas, distorcem o tecido do espaço-tempo. Entender essa distorção é essencial para que o GPS funcione corretamente. Se a distorção não fosse levada em consideração, o sistema de GPS apontaria ao usuário uma localização diferente daquela em que ele de fato está.
O físico Stephen Hawking (1942-2018), um dos cientistas mais conhecidos do público, foi um nome importante para o estudo dos buracos negros. Qual foi o impacto dele na área?
Eu sou caçadora de buracos negros, por assim dizer. Vou atrás de observações que tentam estudar como ele interage com as galáxias. O Hawking era totalmente teórico. Há uma dificuldade bem conhecida de unir a teoria da gravitação com a teoria quântica, de unir o macro e o micro, um sonho do próprio Albert Einstein.
Acho que uma das contribuições mais importantes do Stephen Hawking foi atribuir um fato quântico para a vizinhança do buraco negro. O vácuo, a ausência de matéria, pode ser fonte de partículas e antipartículas. Então, o vácuo não é exatamente um vazio. A teoria dele é que se esse efeito quântico ocorre na vizinhança de um buraco negro, essa partícula é capturada e não pode voltar para o vácuo. É como se os buracos negros evaporassem. É algo muito difícil de se observar, mas é uma teoria apoiada pelos demais físicos.
Ser capaz de enxergar a nossa real insignificância é um presente que o estudo astronômico nos dá
Como é um dia normal de trabalho na vida de uma astrofísica?
Quando eu comecei, minha vida girava em torno dos turnos de observação noturna. Quando o projeto Gemini chegou, já estávamos fazendo observação remota. Metade do tempo era preparação, viagem e observação, e os outros 50% era de análise dos resultados.
Agora, usamos menos tempo para preparação. Como temos que escrever um projeto para fazer a observação, eu diria que quase todo dia estou escrevendo ou revisando um deles. Então, 25% do tempo eu passo escrevendo projetos. Depois, 50% do tempo é dedicado a orientação de alunos e ministrando aulas. Os outros 25% uso me atualizando, participando de seminários, conferências e me informando de todas as formas possíveis.
Qual a sua maior dúvida em relação ao universo que você gostaria de ver respondida pela astronomia e pela astrofísica?
Estou muito interessada pelo lançamento do novo telescópio espacial, o James Webb, da Nasa. Um dos projetos principais do James Webb é observar a formação das primeiras estrelas e galáxias, e isso também envolve a formação dos primeiros buracos negros.
O telescópio Hubble já nos permite olhar galáxias bem jovens, mas ele não chega ao que chamamos de fronteira da primeira luz. Quando ocorreu a primeira luz do universo? Ainda não chegamos lá, porque não conseguimos ver essa fronteira. Eu gostaria de estar viva para ver isso. O James Webb vai para o espaço em 2021.
Outra coisa que acho bem interessante é a exploração dos exoplanetas [localizados fora do Sistema Solar]. Quando eu comecei a estudar astrofísica, isso parecia ser algo inimaginável e hoje em dia há satélites que detectam esses planetas, e estamos concluindo que a presença de planetas em torno de estrelas é mais uma regra do que uma exceção.
E outra coisa que me interessa e que acho muito importante é entender por que a vida surge no universo. São coisas que me movem para conhecer mais sobre o universo.
Arquivo Pessoal
SIMPÓSIO DA UNIÃO ASTRONÔMICA MUNDIAL (IAU) EM 2020
Arquivo Pessoal
Aula na Sociedade Brasileira para o Progresso e a Ciência (SBPC)
Para além de aspectos de desenvolvimento da carreira em si, qual foi o maior presente que a astrofísica lhe deu enquanto pessoa?
Acho que ficamos com uma perspectiva da nossa importância ou da nossa insignificância no universo, isso pode dar uma humildade. Nos damos conta de que vivemos em um planetinha pequeno, ao redor de uma estrela média para pequena, e que essa estrela é somente uma de 200 bilhões de estrelas, numa galáxia que é apenas uma das outras 200 bilhões de galáxias do universo.
Acho que ser capaz de enxergar a nossa real insignificância é um presente que o estudo astronômico nos dá. Por outro lado, quando conseguimos contribuir com alguma descoberta sobre o universo, temos um prazer enorme, e eu também gosto de passar isso para os jovens.
Qual conselho você daria para um jovem que quer seguir a carreira de astrofísico?
A carreira envolve gostar de física. Uma ferramenta importante é a matemática. Outra, é a computação. Acho que a pessoa tem que gostar dessas áreas.
Projetos e descobertas a serem feitas existem muitos. Se o jovem gosta dessa área, vai fundo, porque o sucesso vem com o esforço e a dedicação de fazer as pesquisas.
Cientistas são exploradores e descobridores. A gente faz descobertas praticamente todos os dias, mesmo que pequena. Às vezes, uma pequena descoberta pode levar a uma repercussão muito grande.
O que é um dia perfeito para você?
Eu gosto de ler alguma coisa que me interesso. Talvez fazer um pouquinho de divulgação nas redes sociais. E também fazer exercício físico. Também gosto de assistir a uma palestra inspiradora, conversar com os alunos e progredir na pesquisa. De noite, ainda vejo um pouquinho de televisão, algum seriado ou coisa parecida. Para mim, isso tudo já seria um dia bem satisfatório.
3 livros que inspiraram Thaisa Bergmann
O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
Fundação
Isaac Asimov
Na trilogia publicada entre 1951 e 1953, Asimov conta a história do Império Galáctico, uma civilização espacial com grande poder político, tecnológico e bélico. Para diminuir o período de trevas nessa sociedade, um cientista cria um time para tentar preservar todo o conhecimento já produzido.
Duna
Frank Herbert
Publicado em 1965, “Duna” se passa em um universo no qual a sociedade é organizada por meio de feudos planetários. A história explora a política, a religião e a ecologia desses mundos, bem como os conflitos que se desenrolam entre eles.
Amor nos tempos do cólera
Gabriel Garcia Márquez
Publicado em 1985, este romance inspirado na vida dos pais do autor colombiano conta a história de um telegrafista que se apaixona por uma jovem. Usando elementos do realismo mágico, tem a América Latina do século 19 como cenário para um triângulo amoroso que dura mais e 50 anos.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Thiago Quadros e Sariana Fernández
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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