Cientistas do Brasil
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Carlos Alfredo Joly
—Biólogo
24 de set de 2021
“O melhor resultado é ver um aluno ir muito mais longe do que nós”
Carlos Alfredo Joly é biólogo formado pela USP, mestre em biologia vegetal pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutor em ecofisiologia vegetal pela Universidade St. Andrews, na Escócia. Ele também fez um pós-doutorado na mesma área pela Universidade de Bern, na Suíça. Atualmente trabalha como professor de Ecologia Vegetal na Unicamp e é membro titular da Academia Brasileira de Ciências.
Como você explica a sua área de atuação para quem não tem a menor ideia do que você faz?
O trabalho é basicamente entender como as plantas reagem a fatores ambientais. Como elas reagem, por exemplo, a períodos de seca ou grandes variações de temperatura, além de entender como elas interagem entre si. É um trabalho que ao mesmo tempo olha o comportamento do indivíduo e do grupo ou da comunidade onde ele está inserido.
Sabemos que a mudança climática é um dos maiores desafios que a humanidade tem pela frente. Qual é a importância de estudarmos as plantas e a ecologia vegetal nesse contexto?
Se eu tenho um processo de aquecimento global, como o que estamos vivendo, a distribuição das plantas começa a se modificar, porque as temperaturas vão se alterando e, principalmente, a matéria orgânica muda. A floresta começa a captar menos CO2 da atmosfera e a emitir mais CO2. Isso muda completamente o balanço, e contribui com gases de efeito estufa, piorando a situação climática no longo prazo.
Divulgação/Museu da Pessoa
Carlos Alfredo Joly em evento em 2001
Divulgação/Unicamp
O biólogo Carlos Alfredo Joly em seu laboratório na Unicamp em 2018
Na sua carreira, você também passou pela administração pública [Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo e Ministério da Ciência e Tecnologia]. Como esse tempo na gestão pública contribuiu para o seu trabalho hoje?
Contribuiu para tudo que eu desenvolvi dali para frente. Quando o governador Mário Covas foi eleito em São Paulo em 1995, ele assumiu para o estado a Agenda 21, um documento aprovado na Eco 92 e que previa uma agenda de atuação da humanidade para o século 21 sobre a produção, consumo e meio ambiente.
Ele criou vários programas dentro dessa secretaria, e um deles foi o programa de biodiversidade. Nele, a gente reunia informações para traçar as políticas públicas. Nós, por exemplo, elencamos as áreas prioritárias do cerrado no estado de São Paulo que precisavam de mais conservação.
Nesse trabalho, identificamos inúmeras lacunas nas áreas de pesquisa ou então em que a pesquisa era muito pontual e não fornecia dados para traçarmos políticas públicas, e isso culminou na criação do programa de pesquisa em biodiversidade da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que recentemente completou 20 anos e é o principal da América Latina nessa área.
A passagem pelo Ministério de Ciência e Tecnologia entre 2011 e 2012 foi para que eu ajudasse a definir os programas em execução na pasta e promover uma integração dos dados disponíveis, para utilizá-los no aperfeiçoamento das políticas públicas. Minha ideia era montar um Biota [programa da Fapesp] a nível federal, mas infelizmente isso não deu certo, e no final minha principal contribuição foi a montagem da agenda científica da Rio+20 [conferência da ONU sobre sustentabilidade em 2012].
Financiar pesquisa com recurso público é o melhor caminho para a nossa ciência
Como você avalia o financiamento público de pesquisa no Brasil hoje?
Financiar pesquisa com recurso público é o melhor caminho para a nossa ciência. O melhor caminho é o modelo utilizado na União Europeia, e também pelos Estados Unidos, Japão e Austrália. Eles têm toda a pesquisa baseada no recurso público, complementada pelo setor privado.
No estado de São Paulo nós temos a felicidade de ter uma fundação de amparo que é, de certa forma, blindada de grandes impactos políticos. Com isso, você consegue criar um programa como o Biota por 10 anos e depois renová-lo por mais 10 anos, podendo planejar a médio e longo prazo.
Em outros estados isso não acontece, porque sempre há uma interferência política muito grande, com mudanças em cada eleição. No Ministério da Ciência você fica na dependência anual da liberação de recursos, então não há segurança para começar um programa de longo prazo, já que não sabemos qual será o recurso disponível daqui a cinco anos.
O seu doutorado foi sobre ecofisiologia vegetal. O que é isso?
Basicamente é a relação das plantas com as alterações que temos no ambiente. No meu doutorado, eu trabalhei com as espécies de mata ciliar e que por um período do ano vão estar com o solo alagado na época das cheias.
Nesse período, o solo ficando alagado, não há oxigênio para as raízes daquelas árvores respirarem. Então a ecofisiologia vegetal é usada para entender como elas respiram sem oxigênio, como elas suportam esse excesso de água, etc. E há também o contrário, nos períodos de seca, como elas se adaptam à falta de chuva? Esses estresses de água e temperatura e como as plantas reagem a isso é a ecofisiologia.
Wikimedia Commons
Mata ciliar (ou vegetação ripária) é um corpo de árvores que existe nos entornos de um corpo de água, especialmente rios, córregos e riachos.
O seu trabalho atual envolve a coordenação da criação de uma plataforma brasileira de biodiversidade. Como está o andamento desse projeto?
Eu sempre tive muita preocupação em gerar dados e trabalhar na interface com a política, para melhorar a qualidade dos nossos programas de biodiversidade principalmente.
Em 2011, quando eu estava no Ministério da Ciência, eu trabalhei bastante para a criação da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade, que faz para a biodiversidade um papel similar ao do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] para as mudanças climáticas globais, reunindo tudo o que foi publicado sobre o tema e elencando orientações para os governos.
Em 2012, criamos essa plataforma para fazer isso pela biodiversidade. Em 2019, publicamos o primeiro relatório, mostrando que se não mudarmos nada do nosso comportamento até o fim do século, teremos perdido mais de um milhão de espécies. Essa plataforma reúne 140 países.
Achamos que era importante criar uma plataforma similar especialmente para o Brasil, já que a plataforma intergovernamental olha para um conjunto de países. No momento estamos elaborando nosso primeiro diagnóstico, que é fazer uma fotografia ampla dos biomas do país e entender quais são os principais vetores de destruição, as opções de governança e, a partir disso, gerar informações que podem ser usadas em políticas públicas.
Se não mudarmos nada do nosso comportamento até o fim do século, teremos perdido mais de um milhão de espécies
Estar por dentro dessas pesquisas sobre a mudança climática te deixa mais ou menos esperançoso em relação ao caminho que o mundo está tomando?
Como professor universitário, tenho que ser otimista. Não posso ir no começo da formação de alguém ser pessimista e dizer “olha, não adianta vocês estudarem, influenciarem ou mudarem as coisas porque isso não vai resolver o problema”.
Eu olho de uma maneira otimista. Vários países estão saindo da pandemia da covid-19 usando a parada do setor econômico para retomarem tudo com atividades de menor impacto e utilização de carbono.
Temos que mudar as atitudes agora para conseguir resolver em 100 anos. A crise da biodiversidade não tem retorno, já que quando uma espécie é extinta, você a perdeu definitivamente. Então, temos que atuar ao máximo para evitar a perda de espécies e restaurar o que for possível.
Enquanto pessoa, qual foi o maior presente que a ciência já te deu?
Formar profissionais e ver esses profissionais liderando grupos e abrindo novas áreas de pesquisa. O melhor resultado que temos é ver um aluno indo muito mais longe do que a gente conseguiu.
O que é um dia perfeito para você?
Em Ubatuba, tomando banho de cachoeira no meio da mata Atlântica, tendo a sensação de que eu contribuí de alguma forma para que aquela floresta continuasse lá. E usufruir tudo isso junto com meus netos.
3 livros que inspiraram Carlos Alfredo Joly
O Nexo pediu para que o cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
Grande sertão: veredas
João Guimarães Rosa
Publicado em 1956, “Grande sertão: veredas” conta a história de Riobaldo, um jagunço do sertão brasileiro que relembra a própria vida, em especial a relação com Diadorim, seu companheiro de batalhas. É considerado um dos livros mais importantes da literatura brasileira.
1984
George Orwell
Publicado em 1949, o romance distópico de Orwell imagina uma sociedade governada por um regime totalitário, que vigia os indivíduos a todo instante e destrói conceitos como verdade objetiva e liberdade de expressão.
Dom Quixote
Miguel de Cervantes
O primeiro romance da história, publicado em 1605, conta a história de Dom Quixote, um cavaleiro andante que, munido de um idealismo incessante, sai cavalgando pela Espanha em busca de aventuras e de realizar o sonho impossível de reviver o antigo espírito da nobreza espanhola.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Sariana Fernández
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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