especial-vida

ESPECIAL

Quanto vale
uma vida

Por Marcelo Roubicek
em 14 de Abr de 2020

Na economia, estudos tentam calcular o valor produtivo e estatístico que se perde quando alguém morre. A pandemia do novo coronavírus e as medidas usadas para contê-la trouxeram esse debate à tona de forma inédita

As perdas humanas decorrentes da pandemia do novo coronavírus crescem a cada dia. Em diferentes países, muitos dos quais já contabilizam milhares de vítimas, há previsões de o total chegar a dezenas ou até centenas de milhares de mortes. Mesmo com medidas de distanciamento social que tentam frear o número de doentes, sistemas de saúde ao redor do mundo dificilmente passarão ilesos – o que levará a um número de mortos inevitavelmente maior.  

Também sabe-se que a economia vai sofrer um grande abalo, já visível em diversos lugares. Com fechamento de comércios e a adoção de quarentenas, as pessoas saem menos de casa e o consumo cai drasticamente, o que afeta negativamente empresas de todos os portes. O desemprego aumenta, resultando em uma queda ainda maior do consumo e em uma espiral descendente da economia. Não à toa, as expectativas de órgãos internacionais são de uma forte recessão global em 2020.

Em meio a um cenário de crise sem precedentes no século 21, iniciou-se uma discussão no Brasil e no mundo sobre se, mesmo diante da rápida disseminação da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, o Estado deve adotar medidas que ajudam a frear a crise sanitária mas prejudicam a economia. Entre os argumentos a favor dessa visão está a perspectiva de as perdas econômicas serem potencialmente ainda mais profundas que as causadas pela crise de saúde.

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está entre os poucos líderes mundiais que endossaram uma oposição entre economia e saúde na pandemia do novo coronavírus. “O efeito colateral das medidas de combate ao coronavírus não pode ser pior do que a própria doença”, disse em pronunciamento em rede nacional no dia 31 de março de 2020. Em vários momentos, justificou a não-adoção a nível federal de políticas para manter as pessoas em casa ao fazer uma equiparação entre vidas e empregos.

O discurso de Bolsonaro seguiu a linha então defendida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. De forma semelhante, o americano apontou o que viu como o perigo de propositalmente desacelerar a economia para combater a pandemia com medidas de distanciamento social. “Não podemos deixar a cura ser pior que o problema em si”, escreveu em suas redes sociais. Desde então, no entanto, Trump mudou de tom e passou a defender a necessidade do isolamento.

Questões similares são levantadas ao redor do mundo, não só por autoridades mas por economistas, especialistas de diferentes áreas e  mesmo por muitos dos cidadãos afetados pela ampla gama de efeitos da pandemia em suas vidas. 

No campo da economia, o debate é precedido por pesquisas e estudos acadêmicos que dão diferentes abordagens à questão. Envolve também aspectos sociais, humanos e éticos e faz, em sua essência, uma pergunta: é possível determinar o valor de uma vida?

Como economistas pensam o valor da vida

A discussão em torno do valor de uma vida é, evidentemente, delicada e polêmica. Mas existem, na área da economia, metodologias que tentam chegar a um número que seja representativo do valor da dimensão econômica de uma vida – uma tentativa vista como válida por parte dos economistas e encarada com desconfiança por outros.

“É uma questão muito controversa, mesmo na perspectiva econômica”, explicou ao Nexo Rodrigo Soares, professor de economia da Universidade de Columbia. “Mas, dentro da literatura de economia da saúde, existe um esforço metodológico nessa direção, que tenta fazer esse tipo de cálculo.” 

A professora de economia da Unicamp Simone Deos reconhece que há tentativas de fazer cálculos do tipo. Ela alerta, porém, que é impossível calcular de fato o valor de uma vida: “A vida humana está acima de qualquer coisa, ela é incalculável. Seu valor é imensurável.”

O cálculo da capacidade produtiva

Há duas principais metodologias apontadas. A primeira leva em conta a perda de capacidade produtiva de uma pessoa quando ela morre. O cálculo se baseia no fato de que, se levar uma vida normal, uma certa pessoa vai trabalhar por um determinado período da vida, durante o qual vai receber uma certa remuneração. Se essa pessoa morre cedo, ela perde permanentemente sua capacidade produtiva, e os rendimentos que essa pessoa receberia no futuro deixam de existir.

Isso tem efeitos econômicos negativos. “Significa uma perda permanente na capacidade produtiva do Brasil porque você está diminuindo sua força de trabalho”, explicou ao Nexo o economista Carlos Góes, que é pesquisador-chefe do Instituto Mercado Popular e atuou como assessor econômico do Palácio do Planalto entre 2017 e 2018, sob a gestão do então presidente Michel Temer. Nesse cargo, chegou a elaborar estudos com base nesse método.

Considerando fatores como idade e produtividade, o método estima o valor do quanto se espera que uma pessoa receba ao todo na vida, descontando fatores como a inflação e a taxa de juros à qual esses rendimentos seriam aplicados. Segundo esse raciocínio, a vida dos jovens tende a valer mais, uma vez que a pessoa está apenas iniciando sua vida profissional e o total de capacidade produtiva perdida com uma morte prematura seria maior.

As críticas ao modelo

Apesar do método chegar a um valor numérico final, o próprio Góes explica que o número não representa o valor da vida como um todo – mas apenas o quanto a pessoa deixa de produzir ao morrer.

A metodologia da perda de capacidade produtiva é frequentemente criticada por economistas por chegar a um valor com base apenas no critério da produção ao longo da vida. Levando as premissas do modelo ao extremo, a abordagem pode levar a um raciocínio segundo o qual a vida de uma pessoa aposentada tem valor próximo a zero, uma vez que a capacidade produtiva é nula ou quase nula.

O valor da vida estatística

O método do valor da vida estatística é o mais usado entre economistas nesse tipo de cálculo. Ele se baseia na ideia de que, o tempo inteiro, os indivíduos fazem escolhas em que estimam, de alguma forma, o valor de suas vidas. O método, portanto, tenta chegar a um valor observando as decisões de mercado feitas pelas pessoas no dia a dia.

Algumas dessas decisões são mais fáceis de compreender. Por exemplo, há pessoas que aceitam empregos com um risco maior de morte por um salário maior. Ao fazer isso, a pessoa está dizendo, ainda que implicitamente, que ela está disposta a aumentar as chances de morrer, desde que receba uma recompensa financeira por isso.

“Tendemos a achar que as pessoas não estão dispostas a aumentar marginalmente o risco de fatalidade por uma compensação financeira. Mas, na verdade, no mercado as pessoas fazem isso com uma certa frequência. Nem todo mundo que compra um carro compra um veículo com todos os dispositivos de segurança disponíveis”

Rodrigo Soares, professor de economia da Universidade de Columbia, em entrevista ao Nexo

O método do valor da vida estatística tenta mostrar o quanto as pessoas – e as populações, mais especificamente – estão dispostas a pagar para diminuir o risco de perder a vida.

Por exemplo: há uma população de 10 mil pessoas, onde o risco aleatório de morrer por uma determinada causa é de 1 em 10 mil. Somando quanto cada pessoa estaria disposta a pagar para diminuir esse risco, chega-se ao valor que o coletivo aceita pagar para evitar que uma pessoa aleatória morra. Se cada pessoa der R$ 1.000, por exemplo, o valor da vida será de R$ 1.000 multiplicado por 10 mil – ou seja, R$ 10 milhões, ao todo.

Digamos que um governo de um país com 1 milhão de habitantes quer investir em um plano para tapar os buracos de todas as estradas. As estimativas são de que o programa irá salvar 100 vidas por ano e, para bancar o plano, o governo irá implementar um novo imposto. O valor que as pessoas estão dispostas a pagar nesse novo imposto dirá qual é o valor da vida estatística nessa população.

Suponhamos que a disposição a pagar neste caso seja de R$ 200, na média, por pessoa. Nesse caso, então, o valor estatístico da vida é igual aos R$ 200 milhões que a população inteira está disposta a pagar conjuntamente, divididos pelas 100 vidas que serão salvas. O valor da vida estatística é, portanto, R$ 2 milhões. Quanto maior a disposição a pagar para diminuir o risco de morrer, maior será o valor da vida estatística.

As limitações do modelo

As limitações a essa metodologia aparecem quando o modelo tenta considerar as diferenças entre as pessoas que compõem a população. Afinal, a disposição a pagar está condicionada por fatores como renda e nível de educação.

“Indivíduos mais pobres têm menos recursos e vão estar dispostos a pagar menos”, explicou o professor Rodrigo Soares ao Nexo. “Aí, obviamente, os dilemas filosóficos de usar um conceito como esse se tornam muito salientes. Então, tipicamente, quando isso é usado para análise, não se leva em consideração essa heterogeneidade.”

Outro exemplo que evidencia a limitação do modelo quando se considera a heterogeneidade são as diferenças de riqueza e renda em diferentes países. O modelo pode desconsiderar a discrepância de recursos disponíveis à pessoa em diferentes locais do mundo e, assim, passar a impressão de que a vida de pessoas em países mais pobres vale menos do que a vida de pessoas em países mais ricos.

O valor de uma vida em números

Diante das duas principais metodologias de cálculo, há diferentes números apontados como o “valor” de uma vida.

O economista Carlos Góes diz que o método da perda da capacidade produtiva mostra que, em média, a morte prematura de uma pessoa no Brasil leva a perdas econômicas de R$ 630 mil (em valores de 2020, já corrigidos pela inflação), de acordo com estudo elaborado pelo Planalto em 2018, do qual participou.

Transpondo esse número para um cenário epidemiológico pessimista de covid-19, seria possível chegar a um valor das perdas econômicas decorrentes das mortes pela doença. Em um cenário em que não são tomadas medidas de prevenção à disseminação do vírus e 60% da população é contaminada a uma taxa de mortalidade de 1%, 1 milhão e 260 mil pessoas irão morrer. O “prejuízo” chegaria a R$ 800 bilhões.

Já na metodologia do valor estatístico da vida, o exemplo mais conhecido é o do valor utilizado pela EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA). As estimativas da agência pública apontam que, no país, cada vida valha em torno de US$ 9,4 milhões.

Se as piores estimativas para o cenário americano se cumprirem e ocorrerem 2 milhões de mortes pelo coronavírus nos EUA, as perdas econômicas serão de quase US$ 20 trilhões.

“As metodologias levam a resultados diferentes mas, qualitativamente, as duas apontam que as perdas decorrentes de muitas mortes são substancialmente grandes”

Carlos Góes, pesquisador-chefe do Instituto Mercado Popular, em entrevista ao Nexo

A ética que baseia a questão

Professora da Unicamp, Simone Deos foi crítica ao se referir às tentativas de associar um valor à vida humana. Segundo ela, o pensamento econômico dominante – mais presente na esfera de discussão pública – vem tentando, ao longo dos últimos anos, separar a economia das outras ciências sociais, tentando aproximá-la de uma ciência exata.

“É a partir desse tipo de visão da ciência econômica que essa dicotomia [entre saúde e economia] que estamos vendo hoje se coloca, e permite que cálculos sobre o valor da vida humana sejam feitos”, disse ao Nexo. “Isso é uma tragédia”.

Segundo ela, a economia seria apenas uma das esferas da vida, e pensá-la dissociada das outras esferas – como saúde e sanidade – é algo que deve ser visto com desconfiança. Carlos Góes também ponderou que o cálculo da vida em seu valor pleno é impossível, uma vez que a vida é composta também de elementos emocionais e subjetivos que não são quantificáveis.

Também reconhecendo os dilemas éticos por trás da tentativa de colocar um valor na vida, Rodrigo Soares pondera que cabe aos economistas fazer esse tipo de pergunta. “Eu diria que, se existe um papel social do economista, é este. Fazer as perguntas chatas, desagradáveis, que ninguém quer ouvir.”

As ações para conter a pandemia

Entre economistas, a visão predominante em meio à pandemia do novo coronavírus é de que o dilema entre economia e saúde é falso. Esse também é o posicionamento adotado por entidades internacionais como a Organização Mundial da Saúde e o Fundo Monetário Internacional, que apontam que a saúde é um pré-requisito para as pessoas produzirem.

Mesmo com visões diferentes sobre as tentativas de se atribuir um valor à vida humana – ou, ao menos, uma dimensão dela –, os economistas ouvidos pelo Nexo apresentaram visões convergentes favoráveis às medidas de isolamento social. Os diversos argumentos usados foram em direções variadas: defender a questão ética e humanitária, ganhar tempo para saber mais sobre o vírus, e mesmo minimizar as perdas econômicas. 

A professora Simone Deos foi além, e disse que não deveria haver limites no empenho público para minimizar as perdas humanas da pandemia. Segundo ela, é impossível o Brasil (ou qualquer país) ficar insolvente em sua própria moeda. Do ponto de vista do poder público, portanto, não há orçamento ou déficit que demarque a fronteira da ação possível do Estado.

“O tamanho do esforço [para salvar vidas] é todo o esforço. Todo o esforço – toda a nossa capacidade produtiva, com toda a coordenação do Estado e toda a ajuda do Estado – deve ser mobilizado para salvar todas as vidas [possíveis]. O limite é o limite das nossas capacidades produtivas”

Simone Deos, professora de economia da Unicamp, em entrevista ao Nexo

Produzido por Marcelo Roubicek

Arte e Desenvolvimento
por Thiago Quadros

Edição por Letícia Arcoverde

©2020 Nexo Jornal