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Como o breque dos apps entra no debate sobre trabalho

Mariana Vick

02 de abril de 2025(atualizado 02/04/2025 às 20h02)

Paralisação nacional de entregadores gerou manifestações em pelo menos 60 cidades, incluindo 20 capitais, segundo contagem do movimento. Ação termina sem acordo com plataformas

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Terminou na terça-feira (1º) a paralisação nacional de dois dias convocadas por entregadores de aplicativos. Chamado de breque dos apps, o movimento foi marcado por motociatas que fecharam ruas importantes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Porto Alegre e Recife. Os manifestantes pedem melhores condições de trabalho e aumento da remuneração. A greve terminou sem acordo com as plataformas, e os trabalhadores planejam novas ações ainda em abril. O Durma com Essa desta quarta-feira (2) mostra o saldo da greve, explica quais são as condições laborais dos entregadores e analisa qual a relação entre o movimento e as discussões atuais sobre trabalho. 

O programa tem também João Paulo Charleaux comentando a decisão que tornou inelegível a deputada e líder da extrema direita francesa Marine Le Pen e Lucas Zacari falando sobre a nova funcionalidade do ChatGPT que permite a geração de imagens no estilo do Studio Ghibli. 

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Edição de áudio Brunno Bimbati

Produção de arte Lucas Neopmann

Transcrição do episódio

Mariana: Uma paralisação de uma categoria que representa mais de um milhão e meio de pessoas. Uma paralisação por reajustes que não são feitos há quatro anos e condições de saúde e segurança nunca garantidas. Entregadores —  esses, autônomos — sem vínculo empregatício com as plataformas para as quais trabalham, numa situação jurídica que o governo e o Congresso tentam há anos resolver. Eu sou a Mariana Vick e este aqui é o Durma com Essa, o podcast semanal de notícias do Nexo. 

[vinheta]

Mariana: O programa desta semana tem também João Paulo Charleaux comentando a decisão que tornou inelegível a deputada e líder da extrema direita francesa Marine Le Pen e Lucas Zacari falando sobre a nova funcionalidade do ChatGPT que permite a geração de imagens no estilo do Studio Ghibli. 

[trilha]

Mariana: Terminou na terça-feira a greve nacional de dois dias puxada por entregadores de aplicativos. Liderado por grupos que representam a categoria em várias partes do país — como o Sindicato dos Motoboys de São Paulo e a Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil —, o chamado breque dos apps gerou mobilizações em pelo menos 60 cidades, incluindo 20 capitais, segundo contagem própria.  

Mariana: Os atos foram marcados por motociatas e fecharam ruas importantes em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Goiânia, Porto Alegre e Recife. As ações foram pacíficas na maioria dos casos. Os dados sobre a adesão são dispersos, mas a Associação dos Motofretistas de Aplicativos do Brasil disse que ao menos 5.000 entregadores participaram do primeiro dia de protestos na capital paulista. Na segunda-feira, alguns estabelecimentos relataram quedas de mais de 80% nos pedidos por aplicativos, segundo o portal UOL. 

[áudio greve em São Paulo]

Agora há pouco, chegaram aqui em motociata, praticamente, um comboio de — dá para dizer seguramente — algumas centenas de motocicletas dos entregadores. 

[áudio impactos da paralisação]

Olha, muita gente sentiu o reflexo dessa paralisação. Tentou pedir uma comida por aplicativo, por exemplo, e teve que esperar mais tempo. Isso porque essa paralisação aqui em São Paulo foi bem grande, mas foi uma paralisação em todo o Brasil, que começou na segunda-feira. 

Mariana: Os entregadores pedem melhores condições de trabalho. De forma concreta, eles fazem quatro propostas: reajuste da taxa mínima de R$ 6,50 para R$ 10,00 por entrega; aumento do valor pago por quilômetro rodado de R$ 1,50 para R$ 2,50; limitação das rotas de bicicleta, com máximo de 3 quilômetros por pedido; e pagamento de taxa integral por entrega, sem cortes que os entregadores consideram arbitrários — como acontece, por exemplo, quando há mais de um pedido no trajeto.

[áudio entregadores]

A situação é precária. Tivemos um aumento há três anos atrás, né? Muito difícil trabalhar dessa maneira. Temos a manutenção da nossa moto, temos peça, temos gasolina, temos óleo para trocar. Então tem diversas coisas. A pessoa fala: motoboy ganha muito, mas, quando você vai colocar na balança, você vai ver que você tá ganhando muito pouco.

É muito difícil, até mesmo porque todos aqui somos de bem. Estamos trabalhando para poder sustentar nossa família. Eu, no particular, tenho quatro filhos que me esperam todos os dias em casa, então eu preciso voltar para lá. 

Mariana: O presidente do Sindicato dos Motoboys de São Paulo, Gil Almeida, disse à revista IstoÉ que a categoria está “há mais de quatro anos sem nenhum centavo de reajuste”. Já o presidente da Associação dos Motofretistas de Aplicativos e Autônomos do Brasil, Edgar Francisco da Silva, afirmou que os entregadores recebem apenas pela mão de obra, enquanto custeiam do próprio bolso os itens necessários para o trabalho, como moto, capacete, celular e capa de chuva. Em nota, o SindimotoSP disse que há uma “exploração desenfreada das empresas de aplicativo, que promovem a pior precarização trabalhista da história do motofrete, explorando os entregadores e tornando-os verdadeiros escravos em pleno século 21”.

Mariana: Hoje há cerca de 1 milhão e meio de entregadores e motoristas de aplicativos no Brasil, segundo dados do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Edgar Francisco da Silva disse que parte dos trabalhadores não quis ir para a rua, mas assinou um abaixo-assinado para demonstrar que apoia o movimento. No Rio de Janeiro, houve casos de agressões contra entregadores que não pararam, por parte dos que estavam em greve. Doze pessoas foram presas por atos violentos. 

Mariana: Esta não foi a primeira vez que a categoria para as atividades. Em 2020, no contexto da pandemia de covid-19 — quando houve um boom nas entregas por aplicativos —, teve o primeiro breque dos apps. Na época, os entregadores também pediram o aumento da taxa mínima de entrega, além do fim de bloqueios considerados indevidos e reativação dos cadastros que tivessem sido indevidamente bloqueados. Os atos foram convocados por perfis nas redes sociais, que também incentivaram os consumidores a boicotar as plataformas durante a paralisação. 

[áudio discurso em São Paulo 1]

O descaso do poder público. Porque as autoridades não ligam para nós. A gente era totalmente herói na pandemia, e hoje olha nossa situação. É o pai de família que tá morrendo. O próprio prefeito de São Paulo falou que vai aumentar a Ford aqui em São Paulo, mas ele não tá fazendo nada por nós. O descaso do poder público, hoje em dia, junto com as empresas de aplicativo. 

[áudio discurso em São Paulo 2]

Hoje a gente vai fazer o iFood tremer. É hoje, rapaziada. Hoje eles vão ver a força do trabalhador. [Som de buzinas]

Mariana: O iFood foi uma das empresas que se empenharam em reparar a imagem pública em 2020. Desta vez, em 2025, a empresa divulgou uma nota em que pediu que a paralisação ocorresse sem prejudicar o funcionamento dos estabelecimentos parceiros e com respeito à livre circulação da população. O iFood também afirmou que mantém uma agenda de diálogo com trabalhadores. Disse que reajustou em 2023 a taxa mínima de entrega para R$ 6,50, que aumentou em 50% o valor pago por quilômetro rodado — chegando aos atuais R$ 1,50 — e que paga um adicional de R$ 3,00 por entrega agrupada. 

Maaiana: A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia, que representa tanto o iFood quanto Uber e 99, também se manifestou. A entidade disse que respeita o direito de manifestação dos entregadores que as empresas associadas apoiam a regulamentação do trabalho por meio das plataformas digitais — tema que chegou ao Congresso Nacional em 2024. 

Mariana: Mas não houve acordo com o entregadores. Uma reunião entre os aplicativos e os manifestantes na terça-feira, que seria o último dia de greve, terminou sem resolução. Segundo uma reportagem da rede CNN Brasil, o iFood disse que a única reivindicação passível de fazer neste momento é a redução da quilometragem para quem faz entregas de bicicleta. Já o resto das demandas vai ser analisado com mais calma. 

Mariana: Os entregadores planejam fazer uma nova paralisação nos próximos dias, mais longa que a desta semana. Representantes de associações desses trabalhadores devem fazer uma reunião no dia 9 de abril para decidir a data para a nova greve. Enquanto a gente grava este episódio, no fim da tarde de quarta-feira, é difícil saber qual vai ser o desfecho dessa história. 

[mudança de trilha]

Mariana: Um relatório publicado em 2023 mostra que a maioria dos trabalhadores de aplicativo no Brasil enfrenta condições de trabalho injustas e falta de proteção social. A publicação do projeto Fairwork Brasil analisou 10 plataformas de vários setores, incluindo entrega e transporte. São elas: 99, Americanas Entrega Flash, AppJusto, GetNinjas, iFood, Lalamove, Loggi, Parafuzo, Rappi e Uber.

Mariana: O relatório usou cinco quesitos para avaliar as empresas: remuneração justa — ou seja, o pagamento pelo menos do salário mínimo —; condições justas de trabalho, com mitigação dos riscos da profissão; contratos justos, escritos com clareza; gestão justa, com comunicação entre trabalhadores e plataformas; e representação justa, por meio de sindicatos e organizações de representação.

Mariana: De 10 pontos máximos que cada plataforma poderia receber, só três conseguiram pelo menos um ponto. São elas: AppJusto, iFood e Parafuzo. O AppJusto, que é uma empresa local de São Paulo, lidera o ranking, mas só com três pontos. O iFood recebeu dois pontos, e a Parafuzo ficou em terceiro lugar, com só um ponto. O restante das plataformas não pontuou — o que quer dizer que elas não forneceram evidências claras e verificáveis de que atendem aos quesitos do Fairwork Brasil. 

[áudio entregador]

O que mais quebra as pernas é o percurso para ir trabalhar. São 33 km para ir e 33 km para voltar. Ou eu durmo na rua para economizar, ou eu passo fome. E os aplicativos baixaram o valor da entrega. Tem entrega de até R$ 4,50. É a vida de um motoqueiro, o que ela vale: R$ 4,50. 

Mariana: Esse aí que você ouviu foi o entregador Luciano de Oliveira Rosa, que falou com a BBC Brasil em 2022 sobre a vida como motoqueiro há mais de uma década em São Paulo. Naquele ano, para conseguir viver com o que ganhava no trabalho, ele não voltava para casa em várias noites da semana, para economizar combustível. 

Mariana: Ainda falando no relatório do Fairwork Brasil, o AppJusto pontuou nos quesitos remuneração justa, contratos justos e gestão justa. Já o iFood pontuou em contratos e gestão justa. A Parafuzo pontuou só em remuneração justa. Nenhuma plataforma pontuou nos princípios de condições justas de trabalho — embora, nesse caso, o relatório diga que algumas mudanças estão em andamento — e representação justa dos trabalhadores. Para o Fairwork Brasil — que avaliou as empresas a partir de documentos, entrevistas com trabalhadores e reuniões com gestores —, esses são sinais de alerta para a economia de plataformas no Brasil. 

Mariana: Como mudar esse cenário? Para muitos, a solução é regular o trabalho por aplicativo. Mas o tema é alvo de muita controvérsia. Uma pesquisa Datafolha feita em 2023 a pedido do Uber e do iFood mostra que três em cada quatro motoristas e entregadores que trabalham com aplicativos preferem manter a autonomia de hoje a ter a carteira assinada. 

Mariana: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propõe regular as relações de trabalho nas plataformas desde a campanha eleitoral de 2022. No dia 1º de maio de 2023, Dia dos Trabalhadores, o Ministério do Trabalho criou um comitê com representantes de empresas e de motoristas e entregadores para discutir o tema. Em 2024, a partir das conclusões desse grupo, o governo enviou ao Congresso um projeto de lei voltado especificamente aos motoristas de aplicativo. 

Mariana: A proposta do governo não estabelece vínculo empregatício entre motoristas e empresas — ou seja, os profissionais não vão entrar no regime CLT. O que vai acontecer se o projeto for aprovado é que eles vão ser considerados autônomos. O texto também prevê que os condutores trabalhem sem regime de exclusividade; que a jornada de trabalho seja, no máximo, de 12 horas por dia; que seja definido um piso de remuneração mínima para os profissionais; que os motoristas tenham direito à Previdência Social; e que seja criado um sindicato da categoria. 

Mariana: A Federação Brasileira de Motoristas de Aplicativos e a Associação de Motoristas de Aplicativos de São Paulo não gostaram da proposta quando ela foi apresentada. Para eles, as mudanças sugeridas pelo governo poderiam engessar e prejudicar o trabalho nas plataformas. Por pressão de lideranças da categoria, a Comissão de Indústria, Comércio e Serviços da Câmara dos Deputados tirou o texto da pauta três meses depois do início da tramitação. Não há prazo para ele ser apresentado novamente. 

Mariana: Essa história mostra alguns dos motivos pelos quais não é simples regular relações de trabalho por aplicativos. Em artigo de opinião para o Nexo Políticas Públicas, o doutor em ciência política e pesquisador do Cebrap Caetano Patta Barros escreveu que isso vale tanto para o conteúdo das propostas quanto para os arranjos e procedimentos de representação e negociação. É difícil que uma categoria tão grande como a dos entregadores chegue a um consenso. 

Mariana: Barros também escreveu que, quanto mais usuários dependem de uma plataforma, maior é o poder dessa empresa na disputa regulatória. O Brasil viu um exemplo disso na própria elaboração do projeto de lei do governo Lula. Segundo uma reportagem do jornal Valor Econômico publicada em 2024, o Executivo queria originalmente que o projeto permitisse enquadrar os motoristas de aplicativos como CLTs, mas essa possibilidade caiu por pressão do Uber. Ficou só a opção de os condutores serem autônomos. 

[mudança de trilha]

Mariana: A paralisação dos entregadores ocorre num momento em que o trabalho está na ordem do dia. Não são só as condições de vida dos trabalhadores de aplicativos que estão em discussão no Brasil. Um dos temas que mais mobilizaram a sociedade brasileira no último ano, por exemplo, foi a Proposta de Emenda Constitucional que sugeriu o fim da escala 6×1 — ou seja, a escala que estabelece seis dias de trabalho para um dia de folga por semana. 

Mariana: Apresentada pela deputada federal Erika Hilton, do PSOL de São Paulo, a PEC surgiu a partir das demandas de trabalhadores engajados em movimentos como o VAT, o Vida Além do Trabalho. O texto propõe que a duração do trabalho normal não seja superior a oito horas diárias e 36 horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana. Ou seja, ele vai além do fim da escala 6×1, propondo a abolição também da escala 5×2 — e sem perdas salariais.

Mariana: A redação da PEC diz que a mudança busca refletir “um movimento global em direção a modelos de trabalho mais flexíveis aos trabalhadores”, que têm demandado mais qualidade de vida. Para quem defende a alteração, o fim da escala 6×1 traz mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional e menos problemas de saúde por conta de jornadas excessivas. Mas vários setores econômicos são contrários à proposta, que está parada no Congresso. 

[áudio Erika Hilton 1]

Eu acho que existe uma questão da precarização do trabalho, a uberização do trabalho, o desmonte dos direitos trabalhistas, o trabalhador se vendo cada vez mais escanteado, o trabalhador se vendo cada vez mais esquecido, o trabalhador se enxergando cada vez mais como: “espera, as pessoas, o meu patrão, os conglomerados de grupos empresariais são cada vez mais ricos, são cada vez mais poderosos, e eu não consigo ver meu filho, eu não consigo fazer um cursinho, eu não consigo estudar online para prestar um vestibular, para fazer um curso técnico, eu não consigo ver um filme no cinema, eu não consigo ir ao teatro, eu não consigo frequentar o culto da minha igreja, do meu terreiro, seja lá qual for a minha denominação religiosa. O trabalho tem sequestrado momentos importantes da minha vida e, mais do que isso, eu tenho adoecido emocionalmente, psicologicamente, mas também fisiologicamente”.

Mariana: Essa aí que você ouviu é a deputada federal Erika Hilton em entrevista ao Nexo em 2024. Você pode assistir à conversa completa no canal do Nexo no YouTube. 

Mariana: Trabalhadores de aplicativo veem conexões entre suas demandas e as de quem defende o fim da escala 6×1. Em entrevista ao site The Intercept Brasil, Nicolas Souza Santos, um dos coordenadores da paralisação desta semana, disse que a redução na jornada de trabalho é uma pauta deles também. Segundo ele, mesmo que os entregadores não sejam trabalhadores formais, a melhoria de condições do mercado formal também melhora a vida deles, já que “diminui a quantidade de uberizados na pista e, automaticamente, sobra para quem fica uma condição melhor de negociação, porque você tem menos pessoas disputando com você o mesmo espaço”. 

Mariana: Vale lembrar que a uberização de que o Nicolas fala não é sobre quem trabalha para o Uber, mas sobre o fenômeno do crescimento do trabalho por aplicativo no Brasil, puxado na última década pela sequência de crises econômicas do país, com altas taxas de desemprego e aumento da informalidade. Primeiro veio a recessão de 2014 a 2016 e, depois, a pandemia de covid-19 em 2020. Mas esse fenômeno não é só brasileiro — ele se estende por vários países, inclusive os desenvolvidos. 

Mariana: Hoje o cenário de trabalho é diferente do das últimas crises econômicas. O IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgou em janeiro que a taxa média de desemprego em 2024 foi de 6,6%, a menor desde que o instituto começou a calcular a desocupação no Brasil, em 2012. Isso significa que o país teve em média 103,3 milhões de pessoas ocupadas em 2024, e um número de desocupados de 7,4 milhões. 

Mariana: Os números do desemprego seguem em queda desde 2022. Para especialistas do IBGE, o crescimento da população ocupada nos últimos anos se deve tanto ao trabalho formal quanto ao sem carteira de trabalho assinada — categoria na qual se incluem os trabalhadores de aplicativo. Os brasileiros sem carteira eram 14,2 milhões em 2024 — uma alta de 6% em comparação com o ano anterior. Talvez a gente encontre nesses dados uma das respostas pelas quais diferentes categorias de trabalhadores decidiram voltar a fazer barulho por suas reivindicações, como a Erika comentou na nossa entrevista. 

[áudio Erika Hilton 2]

Quando o trabalhador tem melhores condições, ele consegue olhar para além. Ele consegue enxergar para além do horizonte do ter o emprego, do sobreviver, do colocar a comida na mesa. Quando a gente consegue superar alguns indicadores, a gente consegue dar força para o trabalhador. Então agora eu tenho um emprego, eu tenho a minha comida garantida, eu tenho as mínimas condições garantidas, eu posso pensar em melhorar a qualidade do meu trabalho. Eu posso pensar em melhorar a minha condição de vida.

Mariana: O Durma com Essa volta já.

[mudança de trilha]

Mariana: O Tribunal Correcional de Paris condenou na segunda-feira a deputada Marine Le Pen a quatro anos de prisão e cinco de inelegibilidade por desvio de fundos quando era eurodeputada entre 2004 e 2017. Derrotada três vezes em eleições presidenciais, a política de extrema direita era uma das favoritas ao pleito francês de 2027. No bloco “Além da Fronteira” desta semana, João Paulo Charleaux fala sobre o tema. 

João: Olá, ouvintes. Olá, amigos do Durma com Essa. A Justiça da França tornou a candidata de extrema direita Marine Le Pen inelegível. Antes disso, a Justiça do Brasil tinha tornado o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível também. E, um pouco antes disso, a mesma coisa aconteceu com o candidato da extrema direita da Romênia, Calin Georgescu. A onda de inelegibilidade está acertando em cheio os líderes da extrema direita nesses três países. Parece até que existe uma ofensiva do mainstream político contra eles. Mas será verdade? Não, não é verdade. Le Pen, Bolsonaro e Georgescu de fato cometeram crimes. E foi por esses crimes que a Justiça tornou todos eles inelegíveis. O fato de os três serem candidatos com excelente intenção de voto nas pesquisas é algo que revela muito sobre o eleitorado de extrema direita. Esse eleitorado às vezes pensa que a democracia se resume a três fatores: pluralidade partidária, eleições regulares e liberdade de expressão. Eles estão certos ao enumerar esses três fatores, mas falta um, muito importante, que é o respeito ao Estado de direito. Não adianta nada um candidato ter a preferência da maioria se a forma com que ele faz política é ilegal. Se você se interessa por essa questão, talvez queira dar uma olhadinha na coluna que eu publico esta semana no Nexo Jornal.

[mudança de trilha]

Mariana: O ChatGPT lançou na terça-feira uma nova ferramenta de geração de imagens. Desde então, usuários a têm utilizado para recriar fotos em diferentes estilos. Um dos traços gerados pelo chatbot que mais viralizaram foi o das animações do Studio Ghibli, conhecido por filmes como “A viagem de Chihiro” e “O menino e a garça”. O Lucas Zacari escreveu sobre o tema e fala dele aqui no bloco “Tudo é cultura” desta semana. Lucas, como funciona essa nova ferramenta do ChatGPT? 

Lucas: O gerador de imagens do ChatGPT é semelhante ao Dall-E, projeto da OpenAI que cria imagens a partir de textos descritivos. Na nova ferramenta, no entanto, as imagens estão mais realistas e o serviço segue as instruções do usuário de forma mais precisa. Também é possível pedir que ele simule estilos artísticos ou de animação, como da Disney ou dos Simpsons. 

Lucas: A viralização de imagens com o estilo do Studio Ghibli nas redes sociais começou no final de março. Os desenhos vão desde fotos pessoais a representações de cenas icônicas da cultura pop, como a abertura da série “Friends”; momentos do esporte, como Lionel Messi levantando a taça da Copa do Mundo de 2022; memes antigos e atuais; e cenas da política americana, como a reunião em que Barack Obama acompanhou a operação que matou Osama Bin Laden, em 2011. 

Lucas: Imagens controversas no estilo do Studio Ghibli também foram feitas, como a representação dos ataques de 11 de setembro de 2001 e o assassinato de John F. Kennedy. Até o perfil oficial da Casa Branca no X, antigo Twitter, publicou o desenho de uma mulher dominicana condenada por tráfico de fentanil sendo presa por entrar nos Estados Unidos sem documentos.

Mariana: Mas nem todo mundo gostou dessa nova ferramenta, né? Quais são as críticas ao uso dela?

Lucas: Com a viralização das imagens, usuários das redes sociais relembraram uma declaração de 2016 de Hayao Miyazaki, um dos fundadores do Studio Ghibli, em que ele condena o uso de inteligência artificial para animações. O momento faz parte de um documentário da rede de televisão pública japonesa NHK, em que o cineasta diz para um animador que essa tecnologia “é um insulto para a própria vida”. 

Lucas: A geração de imagens ao estilo do Studio Ghibli também retomou discussões sobre os direitos autorais para fazer o machine learning, também conhecido como aprendizado de máquina. No entanto, essa ainda é uma área cinzenta, pois ainda não é possível saber se os frames das animações realmente foram utilizados para fazer o treinamento da inteligência artificial, o que fere as leis de direitos autorais, ou se esse treinamento foi feito apenas por meio de referências indiretas e descrições textuais, que não estão protegidas pela legislação.

Mariana: Se você quiser se aprofundar nos temas que a gente tratou no programa desta semana, entre em nexojornal.com.br. 

[vinheta]

Mariana: Da greve nacional dos entregadores de aplicativo, passando pela situação política de Marine Le Pen e pela geração de imagens com estilo autoral no ChatGPT, Durma com Essa. 

Mariana: Com roteiro, produção e apresentação de Mariana Vick, edição de texto de Suzana Souza, participações de João Paulo Charleaux e Lucas Zacari, produção de arte de Lucas Neopmann e edição de áudio de Brunno Bimbati, termina aqui mais um Durma com Essa. Até a próxima semana! 

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