100 mil mortes no Brasil: o cálculo de uma tragédia

ESPECIAL

O cálculo de uma tragédia

Por Marcelo Roubicek
em 22 de ago de 2020

BRASIL

100.000

O Brasil atingiu a marca de 100 mil mortos pelo novo coronavírus em 8 de agosto de 2020. Publicada semanalmente, esta série do ‘Nexo’ em cinco capítulos aborda os aspectos sanitários, econômicos, políticos e sociais de um tempo que mistura cálculo e incerteza

capítulo 3

Hesitação econômica

O ano de 2020 começou com uma notícia alarmante. O ataque americano que resultou na morte do general iraniano Qassim Suleimani no Iraque pôs o mundo em alerta. Falava-se até em Terceira Guerra Mundial, com consequências imprevisíveis para a economia global.

A guerra não veio. Mas 2020 não se viu livre de uma tragédia. Nos primeiros meses do ano, o novo coronavírus avançou da China para outros países, com estado de pandemia decretado em 11 de março pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

No processo, os mercados foram reagindo aos sinais de que o vírus poderia ter efeitos econômicos consideráveis. As primeiras medidas de isolamento foram tomadas na Ásia, enquanto a covid-19, doença causada pelo coronavírus, ganhava terreno na Europa.

Foto: Ralph Orlowski/Reuters

Painel eletrônico na bolsa de valores de Frankfurt, na Alemanha. Uma curva de um índice financeiro em queda aparece em detalhe, sendo possível distinguir os pixels da tela

Painel eletrônico na bolsa de valores de Frankfurt, na Alemanha

FOTO: lucas jackson/reuters

Homem usa máscara enquanto trabalha na Bolsa de Nova York

No Brasil, o primeiro caso da doença foi registrado no final de fevereiro. A primeira morte ligada ao vírus veio em março, mês que também marcou um dos piores momentos das bolsas de valores na história.

Junto com o avanço da pandemia, houve o crash do mercado de petróleo. No Brasil, o agravante da crise política causada pelo embate entre o presidente Jair Bolsonaro e o Congresso ajudou a derrubar os mercados.

Conforme a situação do vírus piorava pelo mundo, governos optaram por restringir a circulação de pessoas a partir da recomendação de autoridades sanitárias para conter o contágio. A economia desacelerou. 

FOTO: Brendan McDermid/reuters

Em Nova York, Times Square quase vazia por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus

Menos pessoas comprando significou menos dinheiro entrando para as empresas. Como resultado, muitos negócios fecharam ou reduziram o quadro de funcionários, levando à queda no nível de emprego – o que, por sua vez, reduziu o consumo.

Nos primeiros momentos da pandemia, a espiral negativa da economia se desenhava, enquanto a realidade de uma recessão global se consolidava. Recessão essa que passou a ser registrada já nos resultados do PIB (Produto Interno Bruto) dos primeiros trimestres do ano, com quedas significativas no Brasil e em potências como Estados Unidos e China.

A atitude do governo nos primeiros momentos

Mesmo com a chegada do coronavírus ao Brasil em fevereiro, as primeiras mortes em março e os exemplos da China e da Europa, o governo brasileiro não incentivou medidas de isolamento social. Diversos governadores e prefeitos implementaram quarentenas e restrições de circulação, indo na contramão do Executivo federal. Bolsonaro insistia que a economia não poderia parar, apostando politicamente em um embate com estados e municípios. O presidente tentou se eximir de qualquer consequência econômica das quarentenas, colocando a responsabilidade nos poderes locais.

Bolsonaro minimizou a doença e defendeu uma falsa contraposição entre saúde e economia. O raciocínio defendido era de que as perdas econômicas vindas da paralisação parcial das atividades poderiam ser mais profundas do que as perdas humanas. Em vários momentos, o presidente justificou a não-adoção de políticas para manter as pessoas em casa ao fazer uma equiparação entre vidas e empregos

“O efeito colateral das medidas de combate ao coronavírus não pode ser pior do que a própria doença”

Jair Bolsonaro, presidente da República, em pronunciamento no dia 31 de março de 2020

O governo falava em preservação de empregos e renda dos brasileiros. O primeiro conjunto de medidas, anunciado em 16 de março pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, era baseado principalmente em antecipação do pagamento de benefícios sociais e adiamento do prazo para recolhimento de alguns tributos. Houve também aumento dos repasses para a Saúde e para o Bolsa Família, que tinha fila acumulada desde meados de 2019.

Ao mesmo tempo, o Banco Central tomou medidas para ampliar a liquidez da economia brasileira, deixando mais dinheiro à disposição dos bancos para empréstimos. A ideia era estimular o crédito, aumentando o dinheiro em circulação e amenizando a retração da economia brasileira.

Enquanto isso, Paulo Guedes relutava em elevar o patamar de gastos da União. Insistindo na cartilha liberal que amparava seu discurso desde a campanha presidencial de 2018, o ministro da Economia defendia que a forma de atravessar a crise era avançar com a agenda de reformas para reduzir o papel do governo na economia e atrair investimento privado.

“A melhor resposta à crise são as reformas. Se fizermos as coisas certas, o Brasil reacelera”

Paulo Guedes, ministro da Economia, em 9 de março de 2020

Enquanto o governo titubeava em elevar gastos, o Congresso se mobilizava para abrir espaço para um aumento de despesas. Em março, os parlamentares decretaram calamidade pública; em maio, aprovaram o orçamento de guerra, um orçamento paralelo para as despesas relacionadas à covid-19. Ambas medidas afrouxaram as regras fiscais para o momento de combate à crise.

O impacto inicial na economia

A hesitação do governo em ampliar gastos e a insistência em uma agenda de reformas de difícil tramitação contrastava com a urgência da crise que atingia a população. O vírus avançava e os brasileiros sentiam os efeitos financeiros.

A economia brasileira já estava debilitada antes mesmo da chegada do coronavírus. O país não havia se recuperado plenamente da recessão de 2014 a 2016. 

Em 2020, o Brasil vinha de três anos consecutivos de crescimento baixo do PIB (Produto Interno Bruto). O mercado de trabalho seguia frágil, com aumento da informalidade. Ao final de 2019, 40% dos empregos do país eram informais, o que representava mais de 38 milhões de pessoas. Desses, quase metade trabalhava por conta própria.

Foto: bruno kelly/Reuters

Trabalhador de aplicativo de entrega pedala nas ruas de Manaus. Ele veste uma máscara e está com uma mochila de entregador nas costas. Há carros parados antes da faixa, enquanto o ciclista atravessa.

Trabalhador de aplicativo de entrega pedala nas ruas de Manaus

FOTO: Amanda Perobelli/reuters

Mão de homem negro ergue a carteira de trabalho, com o fundo desfocado mostrando uma fila

Homem segura carteira de trabalho em fila de mutirão de emprego

A vulnerabilidade dos trabalhadores informais à crise do novo coronavírus ficou escancarada a partir da segunda metade de março. A renda diária de muitos depende da circulação de pessoas, como é o caso de vendedores ambulantes e motoristas de aplicativo, e a falta de respaldo legal os torna mais sujeitos a demissões. 

A criação do auxílio emergencial e a guinada do governo

Quase 40 milhões de trabalhadores informais – sem acesso à rede de proteção social que os empregados formais têm – ficaram praticamente desamparados em meio a uma pandemia. O Congresso Nacional articulou uma resposta.

Desde 18 de março, Paulo Guedes falava em criar um voucher de R$ 200 para empregados informais afetados pela crise. Entre deputados, a proposta do governo era vista como insuficiente, e o projeto passou a tramitar na Câmara com o valor de R$ 500. 

Diante de uma iminente derrota política, o presidente Jair Bolsonaro disse que o valor do benefício poderia ser ampliado para R$ 600, afirmando ter o aval de Paulo Guedes para o aumento. O Congresso aprovou o auxílio emergencial e a sanção presidencial foi assinada em 1° de abril.

O benefício, no entanto, demorou a sair do papel. Bolsonaro e Guedes impuseram obstáculos técnicos para a liberação dos valores pela União, temendo que o gasto pudesse ser considerado uma “pedalada” e servisse de munição para um futuro processo de impeachment. Isso atrasou o início dos repasses. Os saques em dinheiro da primeira parcela ocorreram entre o final de abril e início de maio.

Os primeiros momentos de execução do programa do auxílio foram marcados por falhas de acesso ao benefício. Entre elas, estavam o travamento do aplicativo da Caixa Econômica Federal, onde se faz a inscrição, e a demora na análise dos pedidos. Além disso, milhões de pessoas tiveram problemas no cadastro.

Por todo o país, houve cenas de longas filas e aglomerações na frente de agências da Caixa, mesmo em meio à pandemia. Eram pessoas tentando sacar o dinheiro referente à primeira parcela do benefício, ou tentando regularizar o CPF para poder receber o auxílio.

Foto: Pilar Olivares/Reuters

Debaixo de logo da Caixa, pessoas com máscara fazem fila respeitando distanciamento social

Pessoas fazem fila do lado de fora de agência da Caixa, no Rio de Janeiro

FOTO: Ricardo Moraes/reuters

Duas mulheres usando máscaras aparecem focadas em segundo plano. Ambas olham para a lente. Em primeiro e terceiro plano, mais mulheres também com máscaras aparecem desfocadas

Mulheres usando máscaras formam fila em frente a banco

Os erros de execução do programa vieram também na forma de fraudes. Mais de 680 mil servidores públicos, que não têm direito ao auxílio, receberam o benefício, trazendo prejuízo de quase R$ 1 bilhão aos cofres públicos. As irregularidades envolviam também dezenas de milhares de militares. Além disso, foram descobertas quadrilhas para fraudar o auxílio pelo Brasil. Suspeitas de fraude levaram a Caixa a bloquear as contas digitais – por meio das quais se paga o benefício –  de 3 milhões de pessoas.

Enquanto isso, parentes de pessoas presas tiveram entraves para acessar o benefício. O governo federal disse que isso ocorreu porque nomes de presos foram usados irregularmente para tentar conseguir o benefício. A medida foi considerada grave por especialistas, que indicaram que a restrição podia ser visto como discriminatória.

Os impactos sociais e políticos do auxílio

Independentemente de disputas políticas, erros e atrasos, o auxílio emergencial se tornou a mais importante medida do governo federal para amparar a população na crise da pandemia – principalmente pelo enorme alcance. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), praticamente metade da população brasileira foi beneficiada pelo benefício.

Um estudo publicado em julho por pesquisadores da FGV-Eaesp (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas) mostrou que, na média, o auxílio mais que compensou as perdas decorrentes da pandemia na renda dos beneficiários. O impacto sobre a população de menor renda foi significativo.

Não por acaso, um estudo do pesquisador Daniel Duque, do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), indicou que a pobreza no Brasil em 2020 está no menor nível já registrado no país – justamente em meio à pandemia do novo coronavírus. Duque associa essa queda ao auxílio emergencial.

Foto: Marcello Casali Jr./Agência Brasil

Duas mãos seguram celular cuja tela mostra o aplicativo Caixa Auxílio Emergencial

Tela de smartphone mostra aplicativo Caixa Auxílio Emergencial

O alcance do auxílio teve desdobramentos políticos importantes ao longo dos cinco meses de pandemia. A começar pela intensificação da mobilização por uma renda básica permanente no Brasil. A iniciativa tem apoio de diversos economistas, organizações da sociedade civil e políticos.

Outro desdobramento do auxílio emergencial foi o impacto sobre a popularidade de Jair Bolsonaro. Uma pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 13 de agosto mostrou que o presidente atingiu na pandemia seu maior índice de aprovação desde o início do mandato.  Analistas apontam o auxílio emergencial como um fator determinante para esse fenômeno.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Bolsonaro usa máscara de proteção e faz aceno para apoiador com a mão durante passeio na área externa do Palácio da Alvorada

Bolsonaro passeando na área externa do Palácio da Alvorada

Desde o início da implementação, o benefício fez parte do cálculo político do governo. Apesar de o auxílio ter sido articulado pelo Congresso Nacional, o Executivo federal traçou nas redes sociais uma estratégia de se apropriar da narrativa da criação do benefício. 

O governo anunciou no fim de junho a prorrogação do programa por mais dois meses, julho e agosto, com manutenção do valor de R$ 600 – não sem resistência inicial de Bolsonaro. Em agosto, as discussões sobre possivelmente alongar a duração do auxílio até o fim de 2020 foram retomadas em Brasília. O governo estuda manter o benefício, mas com parcelas menores.

As medidas para trabalhadores formais

O auxílio emergencial era voltado aos trabalhadores informais, mas o governo também tomou medidas para os formais. Em 22 de março, Bolsonaro publicou uma medida provisória que permitia a suspensão total dos contratos e salários por quatro meses, sem quaisquer compensações do governo aos empregados. Diante da repercussão negativa, a medida foi revogada pelo presidente em questão de horas. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, revelou que a retirada do trecho foi um pedido pessoal do presidente. “Tira, porque eu estou apanhando muito. Vocês arredondam e depois mandam”, teria dito Bolsonaro a Guedes.

Dias depois, o governo publicou outra medida similar, mas com compensações: o Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda. Para evitar demissões, o texto permitiu a redução temporária de até 70% nas jornadas e salários de quem trabalha no setor privado formal.

O texto determinou que a União entrasse com dinheiro para compensar em parte as perdas de rendimentos dos trabalhadores. A medida também permitiu a suspensão total dos contratos por alguns meses.

Foto: Arquivo/Agência Brasil

Um trabalhador com a carteira de trabalho em uma das mãos. Não é possível ver seu rosto, apenas que está sentado com o documento nas mãos.

Homem segura carteira de trabalho

Por um determinado período, as firmas que aderirem à redução de salários ou suspensão de contratos não poderão demitir os empregados que tiveram o vínculo alterado. De acordo o Ministério da Economia, mais de 16,2 milhões de trabalhadores tiveram contratos alterados até 20 de agosto. Outras modificações estabelecidas desde março contribuíram para a flexibilização trabalhista.

Os milhões que perderam o emprego

Mesmo com as medidas do governo para tentar preservar o emprego, o impacto da crise no mercado de trabalho foi considerável. A taxa de desemprego de 13,3% atingida no segundo trimestre do ano não parece ser tão alta – pelo menos frente ao período de grave crise vivida na saúde e na economia.

Isso se deve a uma questão técnica: para o IBGE, uma pessoa desempregada é aquela que não só tem idade para trabalhar (acima de 14 anos) e não está trabalhando, como também está procurando emprego e tem disponibilidade para assumir um posto. A pessoa que perde o emprego e não procura trabalho não entra na conta dos desocupados.

Os dados do IBGE mostram que quase 9 milhões de pessoas perderam o emprego no segundo trimestre de 2020. Os mais afetados foram os trabalhadores informais, que responderam por quase 70% dos postos perdidos. Enquanto isso, muitas pessoas se retiraram do mercado de trabalho, majoritariamente por medo de contágio ou por falta de vagas no local onde mora.

8,9 milhões

de pessoas perderam o emprego entre abril e junho

Os empregos perdidos

Trajetória do trabalho formal e informal no Brasil

Mesmo com a queda no nível do emprego, a renda média do trabalho aumentou na pandemia. Isso ocorreu porque as pessoas que perderam o emprego tinham, na média, remunerações menores. São geralmente indivíduos ligados à informalidade e ao trabalho autônomo, como manicures, vendedores ambulantes e motoristas de aplicativo e táxi.

Os números indicam que os impactos da crise sobre a renda do trabalho foram desiguais. Em maio, economistas já projetavam um aumento da desigualdade de renda no Brasil com a crise. As razões apontadas são variadas: maior vulnerabilidade de trabalhadores informais, menor espaço em pequenos negócios para absorver choques negativos, mercado de trabalho desigual e precário, assimetria no contágio pela covid-19, com maiores números entre os mais pobres, e maiores dificuldades de acesso à educação entre a população de baixa renda.

O crescimento das desigualdades no Brasil

A desigualdade de renda do trabalho não é a única que ficou escancarada no contexto da pandemia. Ainda no mercado de trabalho, ficou claro que nem todos os empregados tinham condições de trabalhar de casa e se proteger do contágio. De acordo com o Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, ligado ao Ministério da Economia –, apenas 22,7% dos empregos no Brasil poderiam ser feitos de casa, abaixo da mediana internacional.

A educação foi outra área afetada pelas desigualdades de acesso à tecnologia. A paralisação das aulas presenciais não afetou de forma igual os estudantes brasileiros. Alunos da rede pública – que concentra as faixas mais pobres da população – tiveram dificuldades para manter a rotina de estudos e acompanhar as atividades a distância, seja por desmotivação, necessidade de trabalhar ou falta de acesso às tecnologias.

Foto: Divulgação/Secretaria de educação do Estado de São Paulo

Sala de aula vazia em escola do governo de São Paulo; imagem mostra carteiras com cadeiras vermelhas enfileiradas e quadro branco ao fundo, sem nada escrito

Sala de aula vazia em escola inaugurada pelo governo do estado de São Paulo, em agosto

FOTO: Diego Vara/Reuters

Professor de inglês do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, dá aulas pela internet aos alunos

Professor de inglês do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, dá aulas pela internet aos alunos

Alguns estados adotaram medidas como pacotes de dados para levar internet gratuita a alunos de baixa renda da rede pública. Na rede federal, o Ministério da Educação detalhou em 17 de agosto planos semelhantes para levar conexão a mais de 400 mil alunos pelo país. O próprio ministro da pasta, Milton Ribeiro, admitiu que a iniciativa chegou “um pouquinho tarde”. Enquanto isso, muitas escolas privadas realizaram por meses aulas com transmissão ao vivo para os alunos e mantêm plataformas online que permitem interação.

Outra desigualdade aflorada na pandemia é a alimentar. A crise pode levar a um aumento da fome no Brasil e no mundo. Nos anos anteriores à chegada do coronavírus, a fomevinha crescendo no Brasil, revertendo uma trajetória de redução. Com a crise sanitária e econômica de 2020, a Organização das Nações Unidas alertou para um aumento da fome em “proporções bíblicas” no mundo todo. Mesmo que políticas públicas como o auxílio emergencial sejam mantidas por mais tempo, a recessão causada pela pandemia pode ter efeitos mais duradouros sobre a pobreza e a segurança alimentar no Brasil.

As dificuldades de pequenas empresas

A desigualdade deu as caras também entre as empresas brasileiras. Dados do IBGE mostraram que mais de 700 mil fecharam as portas em definitivo durante a pandemia, até a primeira quinzena de junho de 2020. Quase todas (99,8%) eram de pequeno porte.

As pequenas empresas tiveram suas vendas mais atingidas na pandemia do que as médias e grandes. Como resultado, uma proporção maior de empresas pequenas teve dificuldades para realizar pagamentos. Nesse cenário, muitos pequenos negócios tiveram de reduzir o quadro de funcionários.

A dificuldade dos pequenos empresários vai na mesma direção de uma declaração de Paulo Guedes na reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Em vídeo do encontro – tornado público pelo Supremo Tribunal Federal –, Guedes revela uma priorização às grandes empresas na crise.

“Nós vamos ganhar dinheiro usando recursos públicos para salvar grandes companhias. Agora, nós vamos perder dinheiro salvando empresas pequenininhas”

Paulo Guedes, ministro da Economia, na reunião ministerial de 22 de abril

Os problemas de acesso ao crédito

Ao mesmo tempo em que tiveram suas receitas mais impactadas, as pequenas empresas também encararam a dificuldade de acesso ao crédito. As medidas de ampliação da liquidez tomadas pelo Banco Central ainda em março não foram suficientes para levar o financiamento à ponta. Mesmo com mais dinheiro disponível, os bancos emprestavam muito pouco. Com as incertezas sobre o futuro se amontoando, muitas pequenas empresas tiveram pedidos recusados no banco, ou aprovados a juros altos e com muitas garantias.

Foto: Pilar Olivares/Reuters

Vendedor veste uma camiseta laranja (provavelmente uniforme dos vendedores) e está de pé segurando os braços olhando para fora da loja. Sua expressão é distraída. Ao seu lado, estão dispostos alguns produtos, como tiaras de criança e fantasias.

Vendedor usa máscara em loja de rua no Rio de Janeiro

Um dos programas criados pelo governo foi o Pese (Programa Emergencial de Suporte a Empregos). A medida previa que o governo subsidiasse crédito voltado exclusivamente para ajudar a quitar a folha de pagamentos, colocando R$ 34 bilhões à disposição. O programa não foi bem sucedido em seu objetivo. Até o final de junho – quase três meses após o início do programa – cerca de 10% do dinheiro havia sido liberado.

Outro programa desenhado foi o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte). O programa previa que o governo disponibilizasse R$ 15,9 bilhões como garantia de inadimplências em empréstimos de bancos a micro e pequenas empresas. Diferentemente do Pese, o dinheiro do Pronampe não é vinculado ao pagamento de salários, e pode ser usado para outros fins, como capital de giro e investimentos.

Foto: Adriano Machado/Reuters

Os dois usam máscaras. Paulo Guedes retira a dele brevemente para falar ao ouvido do presidente

Paulo Guedes (à esq.) e o presidente Jair Bolsonaro em coletiva sobre ações de combate ao novo coronavírus

FOTO: Amanda Perobelli/Reuters

Lojas fechadas na Ladeira Porto Geral, no centro de São Paulo. A rua está vazia, sem ninguém lá. As lojas estão todas fechadas.

Lojas fechadas na Ladeira Porto Geral, no centro de São Paulo

O Pronampe teve adesão maior dos bancos e empresas do que o Pese, mas demorou mais a sair. Os empréstimos começaram a ser liberados apenas em julho – mais de três meses e meio após o início da pandemia. Em apenas 20 dias, os recursos se esgotaram. Em agosto, o governo confirmou a ampliação dos recursos do programa e sua prorrogação por mais três meses.

Além do Pese e do Pronampe, o Banco Central anunciou em junho uma série de medidas para incentivar o crédito aos pequenos empresários. Mesmo assim, além das dificuldades de execução, o dinheiro disponibilizado para o crédito pelo governo não foi abundante na comparação internacional.

O papel dos bancos na crise se estendeu para além da questão do crédito. As instituições financeiras do país foram responsáveis por 30% de todas as doações feitas desde o início da pandemia, com protagonismo assumido pelo Itaú Unibanco. Até 16 de agosto, mais de R$ 6,1 bilhões foram doados no total no país.

O valor supera com larga distância doações de anos anteriores. No entanto, por maior que seja a mobilização, a filantropia não tem o mesmo alcance que políticas públicas de assistência social.

O aumento nos gastos do governo

Os recursos federais destinados ao crédito às empresas podem não ter sido muito volumosos, mas o mesmo não pode ser dito sobre os gastos da União na pandemia. Apesar da hesitação, o governo ampliou gastos, amparado no decreto de calamidade pública e no orçamento de guerra.

R$ 310,9 bilhões

foram gastos no combate à pandemia até 19 de agosto de 2020, segundo dados do Tesouro Nacional. Ao todo, estão previstos para esse fim gastos na ordem de R$ 512 bilhões

O aumento de gastos tem como protagonista o auxílio emergencial. O programa responde por metade dos recursos previstos para o combate à pandemia, e quase 60% do total executado até 19 de agosto.

O emprego do dinheiro

Gastos da União na pandemia até 19 de agosto

O aumento de gastos levou a uma elevação da dívida pública brasileira. A relação dívida/PIB – geralmente usada para avaliar a saúde das contas públicas de um país – estava em 75,8% ao final de 2019 e chegou a 85,5% em junho, podendo saltar para perto de 100% até o final de 2020.

O aumento de gastos do governo significou uma mudança de rumo para a política econômica da gestão de Bolsonaro. O discurso liberal de Paulo Guedes foi deixado de lado – temporariamente, a princípio.

Surgiu a defesa de que o governo abandone os princípios de austeridade e ceda à pressão para flexibilizar o teto de gastos. O teto é uma das principais normas fiscais do governo federal e, resumidamente, limita os gastos reais (ajustados pela inflação) a um nível pré-determinado. O presidente dá sinais mistos em relação à manutenção da regra. Bolsonaro ora defende a regra, ora dá a entender que está disposto a “furar” o teto.

Enquanto a pressão sobre Guedes aumenta, sua equipe passa por um momento de “debandada”, reconhecida pelo próprio ministro. De junho a agosto, cinco nomes importantes deixaram a pasta – todos alinhados à cartilha liberal.

A condução da economia brasileira sob análise

O Nexo conversou com economistas para ter uma avaliação da gestão da economia brasileira e entender o que esperar do futuro.

  • Esther Dweck, professora de economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

  • Naercio Menezes Filho, professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper

Diante do atual quadro, o que é possível fazer agora em termos de ação econômica do governo?

Esther Dweck Era preciso que o governo assumisse a linha de frente na questão econômica. E, nesse sentido, precisaria abandonar claramente as políticas de austeridade e das reformas liberais que estavam em curso. Foram justamente elas que geraram essa situação de agravamento da desigualdade, de desemprego extremamente alto.

É preciso revogar o teto de gastos, barrar as propostas de desmonte das leis trabalhistas e barrar a tentativa de juntar todos os benefícios sociais em um só, que é, no fundo, uma redução dos benefícios sociais que a população recebe. O governo precisa liderar um processo de recuperação econômica, que passaria por uma frente ampla de investimentos públicos voltados para as necessidades da população. Não é investimento público qualquer; seriam aqueles que justamente atacam as grandes mazelas na área de habitação, de saúde, de educação. O governo poderia voltar seus investimentos para que pudéssemos, ao mesmo tempo, retomar a economia reduzindo as desigualdades.

Naercio Menezes Filho Até que o número de óbitos comece a declinar mais fortemente, as pessoas não se sentirão seguras para retomar as atividades normais de consumo e lazer. Assim, por conta da falta de atitudes mais firmes contra a propagação do vírus, que deveriam ter sido tomadas desde o início da pandemia, a atividade econômica deverá demorar para retornar à situação do início do ano, que já não andava muito boa.

Muitas empresas fecharam as portas, demitiram seus empregados e não deverão reabrir tão cedo. Desta forma, quando as pessoas recomeçarem a procurar emprego, a taxa de desemprego deverá aumentar muito. Assim, o governo deveria manter até o final do ano: o acesso a crédito subsidiado para as pequenas empresas; o auxílio para que as empresas não demitam seus trabalhadores; e o auxílio emergencial para as pessoas mais pobres, com valores menores e mais espaçados até que um novo programa de renda básica seja colocado em prática.

Quais as sequelas que essa pandemia pode deixar em termos econômicos e de desigualdade?

Esther Dweck As sequelas já estão muito claras. Vínhamos de baixo crescimento e aumento da desigualdade, e a crise afetou justamente aqueles trabalhadores informais, que têm total vulnerabilidade e que já estavam vulnerabilizados pelas reformas trabalhistas. No período anterior à pandemia, vimos o crescimento apenas do emprego informal, sem nenhum tipo de proteção. No momento em que chega a pandemia, essas pessoas perdem sua capacidade de geração de renda e dependem exclusivamente do auxílio emergencial que foi aprovado no Congresso.

Se continuarmos no ritmo das políticas que vinham desde antes da pandemia, essas pessoas vão ficar completamente à margem do processo e, portanto, com uma crescente desigualdade. E não só social, mas muito clara de gênero e de raça, onde as mulheres negras e indígenas são as que mais sofrem.

Naercio Menezes Filho As sequelas econômicas e em termos de desigualdade serão muito grandes. Em termos econômicos, a queda do PIB esse ano será substancial e o desemprego irá aumentar muito. A desigualdade deverá aumentar por vários motivos. Em primeiro lugar, as pessoas mais pobres estão sendo mais atingidas pelo vírus e morrendo mais, por terem mais doenças pré-existentes e não terem acesso a tratamento com a mesma qualidade das pessoas mais ricas. Além disso, parte das crianças das famílias mais pobres está tendo problemas no seu desenvolvimento infantil, e os jovens pobres não estão aprendendo com as escolas fechadas. Para os jovens em famílias ricas, as dificuldades são bem menores.

Por fim, os jovens que concluíram seus estudos no ano passado estão tendo dificuldades enormes para conseguir seu primeiro emprego. Estudos mostram que jovens que chegam no mercado de trabalho em períodos de recessão têm salários mais baixos e maior propensão para o crime pelo resto da vida. Esses impactos são bem maiores para os jovens pobres. O auxílio emergencial foi importante para atenuar os efeitos da pandemia sobre a pobreza e desigualdade, caso contrário teríamos uma tragédia social. Mas não será suficiente para eliminar os efeitos permanentes na desigualdade que acompanharão a “geração coronavírus”.

O que pode surgir em termos de proteção social para o futuro pós-pandemia?

Esther Dweck Em relação à proteção social no pós-pandemia, há duas questões. O Brasil infelizmente nunca conseguiu fechar o gap [hiato] de heterogeneidade estrutural que marca nosso mercado de trabalho. Temos uma grande parte da população que está fora do mercado formal. A política que vinha antes da pandemia, de mudança nas leis trabalhistas, estava tentando igualar o formal ao informal; ou seja, precarizando todos. O que precisamos é inverter isso; é garantir aos informais condições iguais ou próximas de uma proteção social como têm os trabalhadores formais no Brasil. Essa deveria ser a grande mudança na proteção social.

A ideia de renda básica passa por isso. No Brasil, já existe uma combinação de políticas de transferência de renda que precisa ser melhorada. Algo na linha de melhorar o Bolsa Família, estender ele a todos os trabalhadores que ficam na zona de vulnerabilidade muito forte, que estão muito próximos de migrar para a zona de pobreza ou de extrema pobreza. Temos que focar nesse ponto, mas sem perder o que havia no Brasil: um amplo estado de bem-estar social que estava sendo construído, que envolve não só transferências de renda, mas toda uma garantia de ofertas de serviços à população, como saúde, educação e cultura. É muito importante não fazer uma coisa em detrimento da outra.

Naercio Menezes Filho Após a pandemia será necessário reformular o nosso sistema de proteção social, incluindo as pessoas que podem ficar pobres em períodos de crise e que não estavam no radar das políticas sociais do governo. O ideal seria ampliar o programa Bolsa Família tanto em termos de cobertura como em termos do valor das transferências. Assim, é necessário melhorar a focalização do programa, usando o aplicativo que foi criado pelo governo federal e todas as informações disponíveis nas bases de dados do governo.

Além disso, é necessário aumentar o valor das transferências para as famílias que têm crianças. Essas crianças precisam de um ambiente de tranquilidade em casa para poderem ter um desenvolvimento infantil normal, da mesma forma que ocorre com as crianças das famílias mais ricas. É preciso começar a igualar as oportunidades no Brasil a partir dessa geração, aumentando o valor marginal dos recursos públicos, de forma que eles tenham o maior retorno no longo prazo. Para isso, o foco tem que estar nas crianças pobres. Os recursos para esse programa deveriam vir da tributação de lucros e dividendos, aumento da alíquota do imposto sobre herança, aumento da alíquota do Imposto de Renda pessoa física, e tributação na alíquota do Imposto de Renda para renda recebida de empresas nos regimes especiais.

O que mais preocupa em relação ao futuro? E o que mais dá esperança?

Esther Dweck Infelizmente não vejo em relação ao Brasil uma grande possibilidade de mudança a curto prazo. Vimos recentemente um grupo de economistas assinar um manifesto para manter o teto de gastos, que é algo que contribui para um retrocesso social muito grande no Brasil. Há a acentuação de uma combinação desse retrocesso social com o aumento da extrema direita no Brasil, justamente pela incapacidade das pessoas de enxergarem um futuro melhor. Acentuamos um mundo mais individualista, mais retrógrado e mais conservador.

O que dá esperança, por outro lado, é que esta crise parece ter aberto mais a cabeça de algumas pessoas e que temos que fazer uma mudança profunda na sociedade. Cresceu a crítica de como a economia e o mundo vinham caminhando, tanto do ponto de vista social e ambiental. E está aberto algum espaço para uma mudança. A dúvida é se isso vai de fato ocorrer ou se vamos caminhar ainda na direção de aprofundar os problemas, em vez de conseguir enxergar uma solução que seja mais harmônica e mais redutora de desigualdades – que beneficie a todos e não apenas a uma pequena parte.

Naercio Menezes Filho O que mais preocupa é a falta de perspectivas para aumento de produtividade, que está praticamente estagnada há quatro décadas no Brasil. Sem aumento de produtividade não haverá aumento de renda entre as gerações, nem de aumento sustentado de emprego para os mais jovens. A pandemia deverá agravar essa situação, incluindo aumento permanente da desigualdade. Assim, há grande possibilidade de termos mais uma década perdida, com o país se afastando cada vez mais dos países desenvolvidos e socialmente justos. Além disso, o nosso sistema político decepciona cada vez mais. 

A esperança vem de olhar para os mais jovens. As novas gerações estão cada vez mais conscientes da necessidade de justiça social, de acabar com todas as formas de discriminação, de dar voz às minorias e de acabar com a corrupção. Novas lideranças no Congresso e na sociedade estão dispostas a lutar por causas justas e para implementar políticas públicas baseadas em evidências. Apesar de seus problemas, as redes sociais estão dando voz a atores que antes não tinham acesso aos meios de comunicação e denunciando abusos. Quando pensamos em desistir do Brasil, basta olhar para os nossos jovens: para muitos deles não há tempo ruim, sempre é possível mudar o país e colocá-lo novamente numa rota de crescimento com justiça social.

Produzido por Marcelo Roubicek

Arte por Guilherme Falcão

Desenvolvimento por Thiago Quadros

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