‘O futuro depende da ciência e da física’

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Retrato da física Sônia Guimarães.

Sônia Guimarães

—Física

14 de out de 2020

“O futuro depende da ciência e da física”

Sônia Guimarães é licenciada em ciências e especializada em química e tecnologia dos componentes pelo Conselho Nacional de Pesquisa da Itália. É mestre em física aplicada pela USP (Universidade de São Paulo) e doutora em materiais eletrônicos pela Universidade de Manchester, na Inglaterra. Foi a primeira mulher negra a receber o título de doutora em física no país, em 1989. Ela trabalha como professora do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica).

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Qual é o principal exemplo de como a pesquisa de materiais e componentes eletrônicos impacta nossa vida?

Se você tiver um celular, uma TV inteligente ou uma dessas geladeiras maravilhosas que conversam com a gente, tudo isso tem material eletrônico. Os celulares têm zilhões de dispositivos muito pequenos com semicondutores, feitos com uma série de materiais que permitem que você fale; mande e receba e-mail; ouça músicas e assista ao teu jogo. Tem um montão de materiais eletrônicos lá dentro fazendo esse serviço para você.

Hoje [os cientistas] estão desenvolvendo outros materiais. Se você vai para a gandaia com uma bolsinha bem lindinha e pequenininha, você vai poder enrolar seu celular num rolinho, guardar nessa bolsinha, desenrolar e fazer o que você faz com o seu celular normal. Depois enrolar de novo e botar na bolsinha, e cair na gandaia de novo.

Esses materiais são diodos orgânicos que emitem luz. A gente vai poder dobrar uma televisão de 40, 50, 100 polegadas e levar para a praia. Então é outra coisa, o futuro. Com os materiais eletrônicos o futuro é algo que nós nem ousamos sonhar.

Muito do que pesquisamos não desperta o interesse de empresas. Você tem que ter recurso do governo

Como você avalia o estado da pesquisa tecnológica no Brasil hoje? Quais são os principais avanços e as maiores dificuldades dessa área?

Esse tipo de diodo que eu acabei de falar já tem gente pesquisando no Brasil. O problema é que a gente precisa de recurso. Muito do que pesquisamos não desperta o interesse de empresas. Você tem que ter recurso do governo. [O governo] está cortando bolsa de iniciação científica, de R$ 400 por mês. Ele está cortando bolsa de doutorado. Existem centros de pesquisa que não têm recurso por exemplo para pagar a energia elétrica.

Da outra parte existe uma série de órgãos não governamentais que incentivam mais as pesquisas exatas, mas não tanto as outras áreas. Só que eles só dão recursos para quem sempre teve recurso. Então esse é o problema, tem gente nova, tem coisa maravilhosa, mas precisamos de recursos que não existem.

Você fez suas pesquisas de mestrado e doutorado na década de 1980. De lá pra cá, a tecnologia mudou muito. Qual inovação mais te surpreendeu?

Teve uma que não surpreendeu, me deu raiva! [risos] Na minha carreira toda, eu trabalhei como silício, titânio e boro, combinando eles e desenvolvendo meus dispositivos microeletrônicos. No começo de 2020, eu fui participar da banca de uma tese sobre o grafeno.

O grafeno é 453 vezes mais condutor que o silício. Isso é legal: o grafeno ligado ao diodo emissor de luz vai tornar possível que o seu celular tenha células solares orgânicas nele e carregue a própria bateria quando exposto à luz. Você desenrola, ele recebe luz e ele mesmo se carrega, entendeu?

As novidades estão me irritando muito, parece que eu não fiz nada nesses anos todos. Mas o futuro é maravilhoso. Quanto esse celular vai custar é outra coisa, porque o grafeno é extremamente caro de se produzir no momento. Quando tiverem produzido bastante grafeno, o preço pode diminuir.

Wikimedia Commons

Representação gráfica do grafeno em uma retícula hexagonal

Representação gráfica do grafeno, um retículo hexagonal feito inteiramente de átomos de carbono.

O grafeno é o material mais forte, mais leve e mais fino que existe. Se você empilhar três milhões de camadas de grafeno, a espessura não vai chegar a um milímetro. Em 2010, o prêmio Nobel de Física foi concedido a cientistas que estudam o material.

A sua tese de doutorado foi sobre o recozimento do boro implantado no silício. O que é esse processo?

O que é o implante? É você jogar o boro no silício com uma força terrivelmente grande em um ou dois segundos. Isso é feito para termos uma junção e deixarmos o componente com uma espessura fininha, fininha, de um fio de cabelo, para que a sua TV e o seu celular sejam os mais finos possível.

Na hora que você implanta, essa força gigante gera zilhões de defeitos que fazem com que nada seja condutor. Toda a propriedade que esse componente tinha é perdida. Então eu tenho que fazer um tratamento térmico, de altíssimas temperaturas, entre 1.000 e 2.000º C, muito rapidamente. Se esse tratamento for longo, a junção alarga e deixa de ser fininha.

Não quero que alargue, mas ao mesmo tempo tenho que sumir com os defeitos. Então é uma briga, com o material, com energia de implante, com a temperatura do tratamento térmico. [risos] Ó, ciência é complicada.

Você foi a primeira mulher negra a dar aula no ITA. Em uma entrevista sua de 2018, você disse que precisa reafirmar sua autoridade diariamente na sala de aula. Como é lidar com esse desgaste?

É horrível. Nós trabalhamos com ensino baseado em problemas – ou seja, apresentamos para os alunos um problema e eles precisam apresentar soluções teóricas e experimentais. Eu dou aula de física experimental. Certa vez, um aluno chegou com uma pergunta, e eu respondi com outra pergunta. “E se você fizer assim?”. Ele então me disse “por que? Você não sabe responder?”. É extremamente desagradável.

Mais do que isso: o coordenador do meu curso diz para eles que não é preciso fazer o que eu mando. E eles não fazem. E aí o coordenador diz que não é para dar nota baixa para aqueles que não fazem. Eles são muito bons, mas com essa malcriação que fazem comigo eu não vou dar nota baixa? Me poupe.

Na minha avaliação discente do semestre passado, fui avaliada até em curso que eu não dei, e a avaliação, claro, foi péssima. [O Nexo tentou contato com o ITA sobre os relatos, mas não obteve resposta.] O desrespeito é total, é horrível. Mas é meu emprego. O que eu vou fazer? O pessoal diz que eu sou corajosa. Não. Eu não tenho escolha. Ou eu faço isso, ou eu faço isso. E se eu desisto e vou embora, vão dizer “tá vendo como ela não ia conseguir?”. Não. Eu não desisto.

Arquivo Pessoal

Retrato da física Sônia Guimarães em uma sala de aula, na frente da lousa.

A FÍSICA SÔNIA GUIMARÃES EM SALA DE AULA

Divulgação

Sônia Guimarães em entrevista no Conversa com o Bial

Sônia Guimarães em entrevista no Conversa com o Bial

Qual inovação você mais quer ver desenvolvida pela física aplicada e pela eletrônica?

Nesse momento, eu quero que a gente consiga bolsas para esses diodos orgânicos emissores de luz. Eu dei uma palestra no Instituto Federal de Volta Redonda, e uma aluna de lá me convidou para orientá-la nessa área. Eu amei. Andamos apresentando em palestras e o pessoal amou. Tem mais gente ficando interessada nisso. A coisa que eu mais quero é ter bons resultados nessa área. É física, é aplicada, é novo, é inovador.

Para além dos aspectos de desenvolvimento de carreira em si, qual foi o maior presente que a física aplicada te deu?

As viagens todas! Eu e minha mãe fomos para Paris mais de seis vezes, conhecemos Miami e Utah, nos Estados Unidos, Espanha e Portugal. As viagens foram todas maravilhosas, e todo o conhecimento que eu obtive! Quando eu estava no ginásio, atual Ensino Fundamental, minha professora de física disse que eu nunca aprenderia física. Eu gostaria que ela me visse hoje.

A física é a ciência mais explicativa que existe

Que conselho você daria para alguém que quer seguir carreira na sua área?

Não desista. Meus queridos, a física é maravilhosa. Explica tudo. Meus amigos químicos e matemáticos que me perdoem, mas é a ciência mais explicativa que existe.

É uma delícia, mas venha fazer se é isso que você quer, e não porque seu pai quer ou porque eu estou mandando. Tem que ser algo que você realmente queira. Nas dificuldades, não desista, insista. Você não vai se arrepender. É maravilhoso. O futuro depende da ciência e da física.

O que é um dia perfeito para você?

Com um sol lindo, um calor mesmo de 40º C. Sair da academia e poder ficar até umas 10h na piscina, sair do sol e vir fazer as minhas coisas todas.

Eu já poderia ter me aposentado em agosto de 2019, mas eu ainda não decidi o que eu vou ser quando crescer. Mas seja lá o que eu for fazer, o mar tem que estar bem pertinho. E tem que ser lá para cima, no Nordeste, porque eu quero calor o tempo todo. Detesto frio!

Um dia perfeito é um dia de sol, de frente para o mar, com alguma outra atividade depois, podendo ver o pôr-do-sol no fim da tarde. Seria um dia para lá de perfeito.

3 livros que inspiraram Sônia Guimarães

O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.

Raízes

Alex Haley

Publicado em 1976, o livro ficcionaliza a história das gerações da família do autor, começando com Kunta Kinte, um homem gambiano que é sequestrado e levado para os Estados Unidos para ser escravizado.

Americanah

Chimamanda Ngozi Adichie

Lançado em 2013, o livro conta a história de amor de um casal nigeriano, e faz também um retrato sociopolítico da Nigéria da década de 1990.

Na minha pele

Lázaro Ramos

No livro, publicado em 2017, o ator baiano Lázaro Ramos relembra a própria vida e propõe uma série de discussões e reflexões sobre a questão racial no Brasil.

Produzido por Cesar Gaglioni

Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández

Desenvolvimento por Thiago Quadros e Sariana Fernández

Edição por Letícia Arcoverde

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A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.