Cientistas do Brasil
que você precisa
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Mercedes Bustamante
—Bióloga
19 de dez de 2020
“As ciências ambientais são a área do presente e também do futuro”
Mercedes Bustamante é bióloga especializada no estudo de mudanças climáticas, pesquisando, especialmente, a região do Cerrado. Ela é mestre em ciências agrárias pela Universidade de Viçosa, em Minas Gerais, e doutora em geobotânica pela Universidade de Trier, na Alemanha. Atualmente trabalha como professora titular na Universidade de Brasília, coordenando o Laboratório de Ecossistemas da instituição.
Como você explica sua área de atuação para quem não tem ideia do que você faz?
A área em que eu trabalho é conhecida dentro da ecologia como ecologia de ecossistemas. É aquela parte em que a gente integra os seres vivos e o ambiente que eles ocupam, estuda quais são as relações entre os seres vivos e o ambiente e como essa relação é modificada por processos ocasionados pelo ser humano, como o desmatamento, a conversão dos ambientes, a poluição. Basicamente, dentro da ecologia, é a área que integra vários processos e nos ajuda a explicar como os ecossistemas funcionam, como eles se organizam, e como eles operam.
Como você avalia o estado das pesquisas relacionadas às mudanças climáticas no Brasil hoje?
A questão das mudanças climáticas é central para o Brasil hoje, por vários aspectos. É um desafio global, mas o Brasil tem alguns contornos muito particulares. Em primeiro lugar, o Brasil é um país mega diverso, ele tem biomas que concentram uma expressiva fração da biodiversidade global, e esses biomas também são grandes reservatórios de carbono.
Por outro lado, a economia brasileira é extremamente dependente da estabilidade climática dos recursos naturais. Quando a gente olha, por exemplo, a matriz energética brasileira, uma boa parte da eletricidade que a gente utiliza é vinda da hidroeletricidade. Nós estamos pagando uma tarifa energética mais cara porque os reservatórios estão mais baixos e você precisa acionar outras fontes de energia.
A economia brasileira é extremamente dependente da estabilidade climática dos recursos naturais
Quando a mudança climática altera o padrão de precipitação, isso traz um impacto direto para a produção de energia. Outro setor importante da economia brasileira é a agricultura, que também é dependente da estabilidade climática.
Se a gente for olhar a distribuição da população brasileira, boa parte da população está em zonas costeiras, onde se concentram as nossas grandes cidades, e que também são regiões extremamente vulneráveis aos impactos da mudanças climáticas, como subida do nível do mar, processo de erosão costeira.
O Brasil é afetado tanto pela questão econômica, quanto pela questão da proteção de seus recursos naturais, mas pode ser também uma parte importante da solução da mudança climática.
Como você avalia a política ambiental federal passados dois anos do início do governo de Jair Bolsonaro?
Infelizmente esses dois anos foram muito mais marcados por um processo de desconstrução do que por um processo de construção. Nós vimos aí uma série de políticas que vinham sendo conduzidas por diferentes governos, e nesses dois anos muitas dessas políticas foram ou completamente desconstruídas ou fragilizadas a ponto da gente ter uma situação de recrudescimento do desmatamento não só na Amazônia, mas também no Cerrado brasileiro, bem como o impacto das queimadas no Pantanal e o processo de contaminação das zonas costeiras.
Então são dois anos que sintetizam muito a falta de uma agenda pró-meio ambiente – que também é pró-economia, pró-saúde, pró-bem-estar – e a desconstrução de mecanismos que foram construídos com uma enorme participação social nos últimos 20, 30 anos. Então, infelizmente, é um retrocesso bastante acentuado e que vai custar muito a ser revertido.
Arquivo Pessoal
A bióloga Mercedes Bustamante em entrevista
Arquivo Pessoal
Mercedes Bustamante fala ao Senado Federal
Qual pode ser o legado da retração dessas políticas em quatro ou oito anos do exercício delas?
Nós sabemos hoje que os sistemas ecológicos têm uma capacidade limitada, um limite para a absorção de impacto, de transformações e de resposta a distúrbios. Quanto mais nós pressionamos esses ecossistemas, mais eles vão perdendo essa capacidade de resposta, até chegarem num ponto de não retorno.
É importante a gente lembrar que a situação do meio ambiente tem uma característica que é local: são todas essas transformações que a gente vem observando nos últimos dois anos, mas também responde a mudanças regionais e globais. É como se você tivesse pressões em diferentes frentes reduzindo essa resiliência dos sistemas naturais.
É bastante crítico porque não adianta a gente pensar que eu consigo hoje degradar e depois o sistema vai ser capaz de responder. Nós vamos atingir um ponto limite que o sistema não vai ser capaz de retornar, e aí a recuperação, se for possível, é muito mais lenta e com um custo muito maior.
O Cerrado é o coração do Brasil, é o bioma que está no centro do país
O seu doutorado foi uma tese sobre a biomonitoração de metais pesados em antigos pontos de mineração usando plantas. O que é esse processo?
Esse tipo de conhecimento já existe desde a Antiguidade, para a localização de veios importantes para a exploração de minérios. As comunidades vegetais respondem às características do solo, e a deposição desses elementos contaminantes nos ajudam a acompanhar o que está acontecendo, em termos de contaminação ambiental.
Desde o mestrado eu já tinha um pouco o interesse de entender como as comunidades, sobretudo as comunidades de plantas, respondem a esses distúrbios ambientais. É muito interessante quando a gente fala da contaminação por metais pesados, o foco da minha tese.
Infelizmente você não tem como limpar essas áreas. O que você pode fazer é impedir que esses metais atinjam a cadeia trófica [alimentar], contamine cursos de água. É uma detecção precoce, o monitoramento é muito importante para que você contenha o processo de contaminação.
A sua maior área de especialidade é o Cerrado. Nós ouvimos falar muito sobre a Amazônia e sobre a Mata Atlântica, mas não tanto sobre o Cerrado. Qual é o papel desse bioma na ecologia brasileira?
O Cerrado desempenha um papel fundamental. A gente tem que lembrar que ele ocupa quase um quarto do território brasileiro. Eu sempre uso essa expressão ou essa imagem de que ele é o coração do Brasil, aquele bioma que está no centro do Brasil. Ele tem interfaces com todos os outros biomas brasileiros.
A gente tem o Cerrado que faz transição com a Caatinga, com a Mata Atlântica, com o Pantanal, com a Amazônia e até um pedacinho ali em que o Cerrado chegava uma pontinha no Paraná, com os Pampas no sul do Brasil.
ARTE / NEXO JORNAL
Mapa dos biomas do Brasil
O Cerrado tem essa característica de interface com os outros biomas. E ele tende a ser menos visível, menos valorizado por não ter aquela característica florestal. Acho que isso é um pouco da nossa herança de colonização europeia, a valorização dos recursos florestais, e o Cerrado é uma vegetação, é um mosaico de formações mais abertas.
Ele sempre foi considerado ecologicamente um recurso menor, mas na verdade é uma vegetação que abriga uma enorme diversidade de plantas, é a savana mais diversa do mundo. Associada a essa diversidade de plantas, a gente tem uma fauna bastante rica também.
Associado a isso ele tem um papel fundamental na provisão e na conservação dos recursos hídricos. Ele é representado principalmente por essa porção mais alta no Planalto Central e ele distribui água para importantes bacias hidrográficas do país como, por exemplo, a bacia do São Francisco. Uma boa parte da água do [rio] São Francisco é gerada aqui no Cerrado.
Qual é o estado do Cerrado hoje?
Hoje, infelizmente, o Cerrado está numa posição crítica em termos de conservação juntamente com a Mata Atlântica. Ele é considerado um hotspot global para a conservação da biodiversidade, por ter uma grande diversidade de espécies, mas vem perdendo muito rapidamente a cobertura vegetal.
Então, em 40, 50 anos a gente teve um processo de conversão da cobertura natural do Cerrado. Os fragmentos que temos remanescentes do Cerrado se encontram em algum estado de degradação ou sofrendo esse processo de fragmentação, de redução da sua área, que dificulta também a manutenção de suas funções ecológicas.
Todos os biomas brasileiros hoje demandam atenção, mas a situação do Cerrado é particularmente crítica porque a gente já perdeu uma fração específica da cobertura vegetal e o desmatamento continua avançando na região. A gente vê hoje a fronteira do desmatamento nessa região que a gente conhece como MaToPiBa — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que conserva ainda os últimos grandes remanescentes de vegetação do Cerrado. A gente já perdeu muito e o desmatamento continua num ritmo acelerado, entrando nos nossos últimos grandes remanescentes.
Existem hoje grandes questões globais que demandam o olhar integrado que as ciências ambientais têm
O que te levou a querer estudar o Cerrado?
Eu me formei no Rio de Janeiro, então o Cerrado não estava muito no meu radar. Eu passei a conhecer um pouquinho mais quando fiz o mestrado em Minas Gerais, na Universidade de Viçosa. Quando eu retornei do doutorado eu entrei na UnB como professora visitante. Isso me abriu as portas, o olhar, a cabeça e o coração pra esse bioma tão rico.
O Cerrado tem solos ricos em alumínio, em ferro, ao mesmo tempo pobres em outros nutrientes. Essa interação entre características de solo, da vegetação entre diferentes estratégias, foi um ponto que me fascinou no estudo do Cerrado. Num primeiro momento, ele parece destituído de muita variabilidade, mas quando você olha atentamente ele é extremamente rico, e essa riqueza também é riqueza de história evolutiva.
Que conselho você daria para alguém que quer seguir carreira na área dos estudos ambientais?
A resolução das mudanças ambientais globais é o maior desafio da humanidade. Temos algumas décadas para tentar resolver a questão da mudança climática, no sentido de reduzir as emissões e de tentar conviver com o aumento da temperatura.
Associado a esse processo da mudança climática, nós temos vários outros processos, como a erosão da biodiversidade e o funcionamento dos sistemas frente a invasões biológicas. Existem hoje grandes questões ambientais globais que demandam esse olhar integrado que as ciências ambientais têm. É a área do presente, mas também fortemente a área do futuro.
Não há nenhuma área da economia hoje que possa prescindir do entendimento do meio ambiente. Hoje a gente vê, com a questão da pandemia de covid-19, toda essa discussão de como o processo de retomada econômica vai se dar, grandes fundos de investimento, bancos, grandes empresas estão falando da necessidade de ser uma retomada verde. Como a gente pode fazer uma discussão do meio ambiente não só pra Academia, não só para fazer pesquisas e entender a natureza, mas trazer a questão ambiental pro dia a dia dos negócios, pras empresas, pras cidades?
Não vejo nenhum setor hoje da sociedade e da economia que venha a prescindir da discussão da pauta ambiental, e para isso a gente vai precisar de profissionais que abracem essa carreira.
O que é um dia perfeito para você?
Eu acho que hoje um dia perfeito seria aquele dia que estaríamos todos vacinados. Saber que se pode contar com uma vacina segura, acessível a todos os setores da população e que isso nos permita não voltar ao normal, porque o normal precisava de muitas reformas, mas que nos permita caminhar na direção de uma sociedade mais sustentável e equitativa.
No âmbito profissional, eu gostaria muito de ter um dia em que a gente pudesse chegar nas nossas instituições sem estar preocupado se o recurso vai dar e se as condições vão estar dadas, porque a sociedade entende e apoia a atividade científica.
3 livros que inspiraram Mercedes Bustamante
O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
A invenção da natureza
Andrea Wulf
Biografia do explorador e geógrafo alemão Alexander von Humboldt, um dos pioneiros nos estudos do meio ambiente e uma das inspirações do biólogo Charles Darwin, responsável pela Teoria da Evolução.
Cem anos de solidão
Gabriel García-Marquez
Obra máxima do escritor colombiano. No romance, o autor conta a história da família Buendía, moradores do pequeno vilarejo de Macondo, durante um século inteiro.
Vidas secas
Graciliano Ramos
Clássico da literatura brasileira, acompanha uma família de retirantes nordestinos que se veem obrigados a se deslocar por todo o sertão por conta de uma forte seca.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Thiago Quadros e Sariana Fernández
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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