Cientistas do Brasil
que você precisa
conhecer
Walter Neves
—Arqueólogo
19 de dez de 2020
“Ensinar a evolução humana é um ato de cidadania”
Walter Neves é arqueólogo, antropólogo e biólogo. Formou-se em biologia pela Universidade de São Paulo em 1981, onde também fez doutorado na área. Passou pelas universidades de Berkeley, Stanford e Northwestern, onde fez pesquisas de pós-doutorado no Centro de Arqueologia Americana. Foi responsável por estudar a Luzia, considerado o esqueleto humano mais antigo já encontrado no continente americano. Por isso, recebeu o apelido de “pai da Luzia”.
Como você explica sua área de pesquisa e atuação para quem não tem a menor ideia do que você faz?
É difícil, porque eu também não tenho a mais remota ideia do que eu faço. Eu passei por tantas áreas de conhecimento que é difícil encontrar um nome para me qualificar. Eu sou basicamente um antropólogo evolucionista que tem produção científica nas áreas de paleontologia humana, evolução humana, bioantropologia, arqueologia, um pouco de paleontologia e também na área de antropologia sociocultural. Nos últimos 20 anos eu tenho me concentrado mais na área de arqueologia, de paleontologia e de evolução humana.
Qual a importância de estudar os nossos ancestrais tanto pelo viés da biologia, quanto pelo viés da antropologia?
Eu sempre digo que estudar e ensinar a evolução humana é um ato de cidadania. Primeiro porque são esses estudos que nos localizam no universo. E segundo porque se as pessoas tiverem uma compreensão mais detida do processo evolutivo humano – dos últimos sete milhões de anos – elas podem desenvolver uma tolerância maior umas com as outras e com a diversidade humana no planeta.
Divulgação/Universidade de São Paulo
O arqueólogo faz apresentação na Universidade de São Paulo
Acervo de Antropologia Biológica do Museu Nacional/UFRJ
Walter Neves durante entrevista ao programa São Paulo Pesquisa
Em 2018, você tentou se lançar deputado federal numa candidatura que representava os cientistas. Como você avalia as políticas públicas do Brasil para a ciência?
O problema de fazer ciência no Brasil é que a gente vive de migalhas. A exceção é o estado de São Paulo. O resto do Brasil vive de migalhas. A primeira coisa é a falta de investimento pesado em ciência e tecnologia, principalmente ciência pura.
Mas, fazendo campanha para deputado, é claro que você tem que ir para a rua, conversar com as pessoas, e uma das coisas que me surpreendeu muito e que me deixou muito triste é que no geral as pessoas no Brasil não sabem que existem cientistas no país. Quando elas pensam em ciência, elas pensam na Nasa. Quando você se apresenta a elas e diz ‘eu sou um cientista’, eles dizem ‘ah, tem cientista no Brasil!’. Aí os olhinhos delas brilham, é uma coisa impressionante.
A grande culpa é da própria comunidade científica, que não desce do salto pra fazer divulgação científica para o grande público, então não tem como as pessoas saberem que existem cientistas no Brasil. Quando a gente tem uma ameaça à ciência brasileira, geralmente corte de verba, os meus colegas dizem ‘temos que ir pras ruas, temos que angariar o apoio da população’. E eu digo ‘você vai angariar o apoio de uma população que durante sua carreira você não gastou sequer cinco minutos pra fazer difusão científica?’. Não se pode esquecer que quem paga a nossa pesquisa é o povo. A comunidade científica brasileira precisa construir uma maior visibilidade, sobretudo nas classes mais populares.
A comunidade científica brasileira precisa construir uma maior visibilidade, sobretudo nas classes mais populares
Por que você acha que os cientistas brasileiros ‘não descem do salto’?
Medo. Para fazer divulgação científica, você tem que simplificar muito e usar uma linguagem popular, ou pelo menos uma linguagem acessível. E os meus colegas têm medo de que, ao fazer isso, a reputação deles seja questionada. Por um lado eu acho que eles têm muito medo de se transformarem em pessoas populares, e por outro muitos não acham que têm que fazer mesmo.
Qual foi o impacto da descoberta da Luzia e do estudo que você conduziu?
A Luzia só me trouxe coisas boas, mas eu acho que a maior importância dela é que a pré-história brasileira não tinha um ícone. Por exemplo, na França tem o Cro-Magnon, na Alemanha tem o Neanderthal, na Etiópia tem a Lucy, e esses personagens, esses ícones, foram muito importantes justamente para intermediar a relação entre o científico e as pessoas. Nós não tínhamos isso no Brasil.
A Luzia se tornou esse ícone. Todo mundo que pensa hoje na pré-história brasileira, provavelmente a primeira coisa que vem à cabeça é a Luzia. Mais que o aspecto científico, o que a Luzia trouxe de melhor foi isso, uma cara para a pré-história brasileira. E isso veio a facilitar muito [a relação] entre nós especialistas da arqueologia e a população geral.
Acervo de Antropologia Biológica do Museu Nacional/UFRJ
Reconstituição de indivíduo humano de sexo feminino (Luzia) com base nos remanescentes do crânio achado em Lapa Vermelha IV, Lagoa Santa, Minas Gerais.
O crânio de Luzia é considerado o fóssil humano mais antigo das Américas. Estima-se que o objeto, escavado em Minas Gerais na década de 1970, tenha até 13 mil anos de idade. A descoberta contribuiu para mudar as teorias sobre a ocupação das Américas por humanos, após a publicação de um artigo assinado por Neves e pelo argentino Hector Pucciarelli, então da Universidade Nacional de La Plata, em 1989. Nele os autores propuseram a teoria de que uma migração de caçadores-coletores com traços africanos teria acontecido há 14 mil anos, num período anterior às hipóteses mais difundidas na época. Descobertas posteriores reforçaram a tese. O crânio de Luzia foi atingido pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018. Fragmentos foram recuperados nos escombros.
Qual foi o maior presente que a biologia, a arqueologia, a antropologia e a paleontologia evolutiva te deram?
O trabalho para mim é uma diversão, então nunca tem um dia igual ao outro. Isso tornou a minha vida muito divertida e muito iluminada. Mas eu acho que tudo isso também trouxe para mim uma imensa compreensão do ser humano. O antropólogo sociocultural tem uma ideia da diversidade atual da humanidade. O paleoantropólogo e o arqueólogo têm uma ideia da humanidade no passado. E eu tive a dádiva de conhecer as duas coisas.
Eu não só conheço a diversidade cultural e comportamental humana do planeta hoje, mas eu também entendi como isso veio a ser do jeito que é. Isso me dá uma visão muito privilegiada do humano. Dessa visão o que mais me toca é que isso me levou a ter uma maior tolerância com o outro e a sempre tentar entender as razões do outro. É o que a minha profissão me trouxe de melhor.
Se as pessoas tiverem uma compreensão mais detida do processo evolutivo humano, elas podem desenvolver uma tolerância maior umas com as outras
Que conselho você daria para alguém que quer seguir carreira numa área parecida com a sua?
O maior conselho que eu dou para os jovens que me procuram é que ciência tem que ser feita por pessoas para quais o ato de fazer ciência é fundamental para a felicidade delas. Quando você for decidir entre ser um cientista ou ser uma outra coisa, você tem que fazer a seguinte pergunta: eu sou feliz fazendo ciência? Sou. Eu sou feliz sendo engenheiro industrial? Ah, também sou. Eu sou feliz sendo bailarino? Também sou. Então não faça ciência. Porque a dedicação pessoal, a entrega pessoal é tão grande que só é suportável por causa da felicidade que aquilo te traz.
O que é um dia perfeito para você?
Já foi um dia enlouquecido em que eu acordo de manhã, tenho trocentos mil assuntos para tratar, tenho milhões de problemas para resolver. Eu gosto de terminar o dia exausto. Esse para mim é um bom dia de trabalho.
3 livros que inspiraram Walter Neves
O Nexo pediu para que o cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
Branca de Neve e os Sete Anões
Jacob e Wilhelm Grimm
Parte da coleção de histórias populares publicada pelos irmãos Grimm na Alemanha, no início do século 19. Para Neves, contos de fada avivam a imaginação.
Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Livro infantil lançado pelo autor britânico em 1865, conta a história de uma menina que cai numa toca de coelho e adentra um mundo fantástico, repleto de absurdos e enigmas.
A Bíblia Sagrada
Coleção de textos religiosos com valor sagrado para o cristianismo. Um livro, para Neves, determinante para o desenvolvimento humano, e um importante registro da sociedade e da cultura de uma época.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Thiago Quadros
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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