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A bióloga e botânica Rosy Isaias.

Rosy Isaias

—Bióloga e botânica

26 de jan de 2021

“O nosso ritmo de conhecimento compete com o da destruição”

Rosy Isaias é bióloga e botânica. Formou-se em biologia pela Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Fez mestrado em botânica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado na mesma área pela Universidade de São Paulo. É professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

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Como você explica a sua área de atuação para quem não sabe o que você faz?

Eu costumo explicar que as plantas são seres aparentemente inertes, aparentemente sem movimento, mas quando nós olhamos pelo microscópio, a minha principal ferramenta de trabalho, podemos ver muitos processos acontecendo.

Esses processos me fascinam. Como que uma planta aparentemente tão calma, tão tranquila, pode ter tantas reações às interações com o meio? Se ela está exposta a uma temperatura muito alta, ela murcha, perde água. Se está exposta a uma luz muito forte, seus pigmentos, suas cores se alteram.

A área específica com que eu trabalho é a interação da planta com outros organismos, insetos na maioria das vezes, estudando como elas reagem a essa relação de parasitismo, tentando se manter vivas.

Além disso, toda a nossa vida, a vida animal, é extremamente dependente das plantas. Você já imaginou um dia sem plantas? O que faltaria na sua vida em um dia, 24 horas, sem plantas? Para começar, faltaria o nosso elemento principal, o oxigênio. Olhe ao seu redor e tente tirar tudo que seja de origem vegetal e vamos ver o que sobra. É um exercício muito interessante.

Eu costumo citar uma professora minha da USP, a Nanuza Luiza de Menezes. Tem uma frase que ela repete sempre: ‘Nós não respeitamos aquilo que não conhecemos’. O respeito pelo reino vegetal e a preservação das áreas verdes vêm de termos mais conhecimento botânico e um convívio melhor com esses seres.

O respeito pelo reino vegetal e a preservação das áreas verdes vêm de termos mais conhecimento botânico e um convívio melhor com esses seres.

Como você avalia o estado da pesquisa em botânica hoje? Quais são os principais desafios da área?

Eu acredito que a pesquisa em biodiversidade, de um modo geral, está enfrentando as demandas por conservação. Nós estamos vendo uma destruição muito rápida do meio ambiente, muito acelerada, e isso tem causado grande angústia nos botânicos. Na velocidade em que estamos estudando, não conseguimos conhecer todo o potencial da nossa flora. O ritmo do nosso conhecimento da flora está competindo com o ritmo da destruição.

Em uma perspectiva meramente utilitária, estamos perdendo muitas moléculas que podem salvar vidas, perdendo matérias-primas interessantes antes que possamos conhecê-las. Nós temos um número imenso de plantas conhecidas e um outro número imenso de plantas desconhecidas.

O desafio é fazer com que a sociedade perceba que todos perdemos com a destruição desses habitats naturais, que vai ter um momento que o ambiente não vai se estruturar de forma a manter esses ambientes cultiváveis de forma produtiva.

Você tem uma produção bem ampla no estudo das galhas. O que é uma galha?

Galha é um tumor vegetal. As galhas induzidas por bactérias, vírus, fungos são verdadeiros tumores. Eles alteram o genoma das células vegetais, que vão crescendo e multiplicando de forma desordenada.

Eu trabalho com as galhas induzidas por outros organismos, insetos na maioria das vezes, mas nematódeos, que são vermes, também. Nesses casos, se eu retirar o verme, a galha para de se desenvolver. É uma relação de parasitismo.

WIKIMEDIA COMMONS

A foto mostra duas folhas de árvore com protuberâncias, as galhas.

Galha causada por inseto.

Por que você quis estudar as galhas?

A ciência acontece meio ao acaso. Me interessei por anatomia vegetal quando fui procurar a professora Léia Neves, que foi minha orientadora de mestrado no Museu Nacional da UFRJ.

Ela trabalhava com anatomia foliar para ajudar na identificação de espécies de figos. Um dia ela me mostrou uma galha e perguntou se eu queria estudá-la. E o jovem quer tudo. Comecei a preparar as lâminas e confesso que não entendi nada. Sem entender nada, eu senti que havia coisas interessantes ali para estudar e esse desafio me instigou. Fui estudando mais e já na USP herdei da minha orientadora de doutorado, a professora Jane Kraus, uma linha de estudo de anatomia e histoquímica.

Histoquímica é a localização de alguns metabólitos, de alguns compostos químicos, nos tecidos vegetais. Fui percebendo que esse universo de estudo me permitiria trabalhar não só com anatomia vegetal, não só com histoquímica, mas também com entomologia, taxonomia, ecologia, perfis químicos, citologia. O universo se abriu, um prato cheio para cientistas.

UM UNIVERSO DE ESTUDOS

  • Entomologia: área que estuda os insetos

  • Taxonomia: área que classifica e dá nome aos seres vivos

  • Ecologia: área que estuda as relações dos seres vivos com o ambiente em que vivem

  • Perfil químico: análise química de um determinado material

  • Citologia: área que estuda as células

  • Histoquímica: ramo da histologia (área que estuda tecidos biológicos) que foca na constituição química desses elementos

A botânica parece algo meio distante da vida urbana, mas temos visto pessoas dizendo até que são “mães de plantas”. Como as plantas domésticas podem fazer a gente entender de botânica de forma mais ampla?

Quem gosta e está sendo seduzido por essa ideia de cultivar plantas em casa seguramente vai começar a entender melhor o funcionamento desses seres, vai entender o regime de água dessas plantas, as necessidades dela. Cada planta é um ser único, cada uma tem uma demanda.

Cada planta é um ser único, cada uma tem uma demanda.

Enquanto pessoa, qual foi o maior presente que a botânica deu a você?

A botânica me deu uma profissão que eu considero fundamental e fantástica: sou uma bióloga professora. Uma professora que faz ciência, uma professora que estuda as plantas, as galhas, os insetos, que conhece pessoas incríveis. Eu não consigo separar trabalho de lazer. Eu trabalho me divertindo, eu me divirto trabalhando, e isso não tem preço.

Qual a maior pergunta que você sonha ver respondida pela botânica?

Extrapolando os limites, seria: quem compõe a nossa flora? Eu gostaria de ter uma noção desse universo todo. Não terei, é impossível. No meu universo das galhas, eu queria conseguir encaixar todas as peças do quebra-cabeça e poder publicar como uma galha se desenvolve.

Nós temos partes desse enigma, e a cada momento avançamos um pouquinho, mas não sabemos. Brincamos que essa é a pergunta de um milhão de dólares. Quando uma pessoa leiga pergunta como uma galha se desenvolve dizemos “se você conseguir essa resposta, ganha o Nobel”.

Kayke Quadros/UFMG

Fotografía da bióloga e botânica Rosy Isaias na abertura da exposição Docência Negra, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Rosy Isaias na abertura da exposição Docência Negra, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Divulgação UFMG

A professora Rosy Isaias em sala de aula.

A professora Rosy Isaias em sala de aula.

Que conselho você daria para alguém que quer seguir carreira acadêmica na botânica?

Minha vó dizia que se conselho fosse bom, a gente montava um banquinho e vendia. Mas, quem sonhar com isso, deve primeiramente gostar muito de estudar.

Se você gosta de estudar e tem curiosidade, o conselho seria: estude bastante, procure conversar com outros profissionais da área para saber como vai ser a sua rotina do dia a dia. Tem coisas que você vai gostar mais, outras vai gostar menos.

Faça um mestrado. Ele é muito interessante para quem quer experimentar trabalhar com a ciência, viver o método científico. Se de fato for o que te agrada, aí você parte para um doutorado, que são mais quatro anos de dedicação. Feito isso, se for realmente a sua área, você tem muitas chances de ser feliz, como eu sou.

O que é um dia perfeito para você?

É um dia ensolarado. Gosto muito de dias com sol. Gosto de dias em que estou tranquila, que consigo pensar nos meus enigmas com os materiais que estou estudando. Dias que leio coisas que mexem com a minha cabeça.

O dia perfeito é um dia ensolarado em que eu consigo ter ideias para escrever, para colocar no papel, que consigo ler coisas interessantes, que consigo ouvir boas músicas. E que ele termine com uma boa música, uma boa taça de vinho e uma caneca de chá.

3 livros que inspiraram Rosy Isaias

O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.

Admirável mundo novo

Aldous Huxley

Publicada em 1932, a ficção científica distópica conta a história de um mundo onde as pessoas são programadas em laboratório e adestradas a cumprir seus papéis na sociedade, definidos já no nascimento.

Como as democracias morrem

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt

Neste ensaio publicado em 2018, os pesquisadores americanos falam sobre a ascensão da extrema direita nos EUA e na Europa durante a segunda metade da década de 2010.

Os pilares da Terra

Ken Follett

Romance histórico publicado em 1989 sobre a construção de uma catedral na Inglaterra medieval. O livro traz a perspectiva de diversos personagens, de dramas familiares aos jogos de poder na Igreja.

Produzido por Cesar Gaglioni

Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández

Desenvolvimento por Thiago Quadros e Sariana Fernández

Edição por Letícia Arcoverde

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A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.