Cientistas do Brasil
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Roberto Schaeffer
—Engenheiro
19 de mar de 2021
“O Brasil tem que ir para uma trajetória de baixo carbono”
Roberto Schaeffer é engenheiro elétrico que atua na área de planejamento energético e mudanças climáticas. Formou-se pela Universidade Federal do Paraná, fez mestrado em planejamento energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorado na mesma área pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
Como você explica a sua área de atuação para quem não sabe o que você faz?
Quando a gente pensa em mudança climática, pensa na emissão de gases de efeito estufa, onde o principal gás é o dióxido de carbono (CO₂), que tem origem principalmente na queima de combustíveis fósseis, seja carvão, seja gás natural, seja petróleo. Na minha trajetória de vida, foi natural vir da área de energia e migrar para a área de mudanças climáticas, em que hoje eu atuo principalmente. Sempre com essa ligação forte entre de que maneira o setor de energia impacta o clima e as consequências que esse impacto tem na vida das pessoas, nos ecossistemas, na economia.
Você sente que as pessoas, em geral, têm noção do tamanho do problema das mudanças climáticas?
Uma das dificuldades de lidar com a questão da mudança climática é que é um problema que já começa a nos acertar, mas suas maiores consequências se darão no médio e longo prazo. É diferente de uma doença, de uma pandemia como essa que estamos vivendo, que já afeta a vida das pessoas, e elas conseguem fazer uma conexão direta entre aquilo que elas estão vivendo e o problema que deu origem àquilo.
No caso da mudança climática essa conexão é mais complicada. Falamos, por exemplo, que queremos manter a elevação média da temperatura do planeta (em relação ao que era antes da era industrial) em um grau e meio, dois no máximo, porque isso pode ter impacto sobre o aumento no nível dos oceanos, alteração de padrão de chuvas, impacto na agricultura, aumento de problema de saúde pública. Mas infelizmente tudo isso é percebido como uma coisa distante, e com uma ligação não tão fácil entre o problema em si e aquilo que você quer evitar.
As gerações mais jovens talvez já tenham uma consciência um pouco maior desse problema e da gravidade dele justamente porque já estão há mais tempo nessa discussão do que vem a ser a ameaça das mudanças climáticas. Mas a população em geral de fato ainda vê essa questão como algo em que é muito difícil criar o elo entre o problema anunciado e as atitudes que seriam necessárias para lidar com ele. Há uma necessidade de criar uma atitude de convencimento para fazer com que os cientistas tenham mais credibilidade e para que aquilo que eles falam que pode acontecer – que já está acontecendo – seja melhor capturado pelas pessoas.
Matrizes energéticas como a brasileira são mais vulneráveis às mudanças climáticas porque dependem mais de vento, de chuva, de sol
Como você avalia o estado das pesquisas da área de planejamento energético e meio ambiente no Brasil? Quais são os principais desafios?
Nós temos uma matriz elétrica muito limpa na medida em que a gente depende muito ainda de hidroeletricidade, a gente tem o bagaço de cana como uma fonte importante para a geração elétrica no Brasil, e a energia eólica e a solar crescem muito no país. No lado dos combustíveis, o etanol já está há muito tempo na nossa matriz energética. Por várias razões a matriz energética brasileira já é, há muito tempo, fortemente dependente de fontes renováveis [a matriz elétrica leva em conta apenas a geração de energia elétrica, enquanto a energética considera outros usos de energia].
Por outro lado, matrizes energéticas como a brasileira são mais vulneráveis às mudanças climáticas porque dependem mais de vento, de chuva, de sol. Então a gente tem essa pequena contradição de ter uma matriz energética muito limpa, que ajuda a combater os problemas das mudanças climáticas, mas por outro lado nos torna vulnerável a esse próprio problema que a gente quer evitar.
O Brasil descobriu recentemente grandes reservas de petróleo e gás natural, num momento em que essas reservas já não podem ser plenamente exploradas justamente porque queimar essas reservas significa ou significará emissões de CO₂. Então a gente tem esse desafio: como prover energia para a economia brasileira, que espera-se que cresça com o passar do tempo? Há abundância de sol, há abundância de vento, mas essas fontes de energia até recentemente eram mais caras do que as fontes fósseis. Como prover uma energia que seja barata, acessível, num momento em que as energias mais baratas não podem mais ser utilizadas como foram na história do desenvolvimento americano, na história do desenvolvimento europeu? Então o Brasil chega num momento de se desenvolver, de depender mais de energia, num momento em que talvez tenha que se lançar em favor de usar energias que em alguns casos ainda são mais caras que as energias tradicionais.
O que falta para o Brasil implementar um plano de ação climática? É mais uma questão de tecnologia e dinheiro ou é uma questão de disposição política?
É difícil separar as coisas. Falar de mudança climática é falar principalmente de energia, mas é também falar de desmatamento, de agricultura, de pecuária, porque essas outras atividades econômicas também levam às emissões de gases de efeito estufa.
Nos trabalhos que a gente tem feito, de olhar o futuro, a gente vê que seja o mundo, seja o Brasil, têm que ir para uma trajetória de baixo carbono. Ou seja, na área de energia, cada vez ir mais para fontes renováveis; na área de agricultura ir para um tipo de agricultura menos dependente de fertilizantes nitrogenados; na área de florestas reflorestar o que já foi desmatado e cessar o desmatamento daquilo que ainda não foi.
No Brasil, na área de energia, por exemplo, ter mais energia eólica ou energia renovável significa preparar o sistema elétrico brasileiro para lidar com a intermitência dessas fontes de energia, já que não venta ou há sol o tempo todo. Uma necessidade tecnológica importante é a gente desenvolver e investir mais em baterias. Há uma capacidade grande no Brasil nessa área, mas você precisa de investimento público e privado, você precisa formar técnicos e engenheiros para avançar nessa área.
O mesmo se aplica à área de biocombustíveis avançados. Um mundo que lide com mudança climática tentará eletrificar tudo que pode ser eletrificado. Mas há outras áreas dentro do setor de transporte que não são facilmente eletrificáveis, por exemplo a aviação e a navegação. No caso do Brasil há de se investir pesadamente na ciência e tecnologia da área de combustíveis avançados ou biocombustíveis avançados para navegação e para a aviação. Precisa haver vontade política, planejamento e interesse para que o Brasil avance e não continue eternamente dependente de ciência e tecnologia produzidas fora do Brasil.
Falar de mudança climática é falar principalmente de energia, mas é também falar de desmatamento, de agricultura, de pecuária
Como você avalia a atuação do poder público brasileiro na área climática historicamente? Como isso se compara ao governo de Jair Bolsonaro?
Lá atrás, nos anos 90, o Brasil não gostava de se envolver em discussões do que fazer para combater a mudança climática e o que fazer para reduzir emissões porque havia uma percepção de que isso poderia afetar a soberania brasileira. A questão da Amazônia sempre surgiria devido às altas taxas de desmatamento que o Brasil teve ao longo de todos os anos 80 e começo dos anos 90.
É no começo dos anos 2000, quando a questão do desmatamento no Brasil começou a ser um pouco melhor lidada que, por várias razões, o Brasil entendeu que podia se vender internacionalmente como um país com um aporte poderoso de energia hidrelétrica no seu setor elétrico, que tinha o etanol, que tinha o biodiesel como fontes importantes de energia. O Brasil entendeu que defender medidas ambiciosas para lidar com a mudança climática era uma vantagem competitiva em relação a outras economias justamente porque ele tinha uma matriz energética bastante verde.
Ao longo dos anos 2000 o Brasil começa a assumir protagonismo nas discussões climáticas em todo o mundo, com um papel importante em 1992, no Rio de Janeiro, quando foi criada a Convenção do Clima, muito incentivada pelo governo brasileiro, em 1998 com o Protocolo de Kyoto, até o Acordo de Paris, em 2015.
Recentemente, infelizmente, com o aumento do desmatamento e com uma série de problemas na questão ambiental, o Brasil passou a se sentir um pouco acuado e a ser um pouco mal visto. Hoje a questão das mudanças climáticas ainda está bem avançada em centros de pesquisa e universidades do Brasil, mas a posição oficial brasileira é tentar não trazer essa questão à tona porque a nossa vulnerabilidade em relação ao aumento recente do desmatamento faz com que o Brasil não esteja em uma posição confortável para discutir o que fazer para lidar com mudança climática.
A espécie humana está perante um desafio como nunca houve outro igual, mas é um desafio para o qual ainda há saída
Como é estudar as mudanças climáticas e estar tão por dentro desse assunto sem perder o sono pensando no tamanho do problema?
De fato a espécie humana está perante um desafio como nunca houve outro igual, mas é um desafio para o qual ainda há saída. Então se há saída, a melhor maneira de tentar viabilizar essa saída de maneira honrosa é tratar aquilo como possível e ser otimista para a maneira de resolver.
Eu sou um eterno otimista no sentido de que é um problema que dá pra resolver, tecnologicamente a gente já sabe o que fazer, a gente sabe quais tecnologias têm que ser feitas, eventualmente a gente sabe quais mudanças de hábito terão que ser feitas (por exemplo, mudança de dieta, uso menor de transporte privado, uso menor de avião para atividades não necessárias). O problema é que isso significa mexer com a maneira com que as pessoas vivem.
Aí volta aquela questão lá atrás: a gente estaria mexendo em hábitos, em coisas que as pessoas estão acostumadas a fazer no seu dia a dia para ver o benefício não hoje, mas ao longo das próximas décadas. É um desafio tentar convencer o ser humano de que aquilo que ele está fazendo hoje terá um impacto positivo para as gerações futuras. É uma questão de educação, de informação.
Mas eu sou professor universitário há 30 anos e a cada nova geração com que eu tenho contato, cada aluno que chega, eu fico mais otimista no sentido que as pessoas chegam hoje à universidade mais conscientes, mais bem informadas. O que eu noto é que é mais fácil hoje, principalmente para as novas gerações, entenderem a gravidade do problema e entenderem que há um caminho – caminho esse que elas estão dispostas a percorrer.
Eneraldo Carneiro/Forum-UFRJ
Roberto Schaeffer durante o curso "Desastres e Mudanças Climáticas: Construindo uma agenda" do CBAE (Colégio Brasileiro de Altos Estudos) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Vamos supor que um dia você acordou num mundo ideal e que todos os jornais têm na manchete uma notícia muito boa sobre o meio ambiente. Qual seria essa notícia?
No caso brasileiro a verdadeira notícia boa é cessar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado e começar a recompor aquilo que foi destruído. A importância das florestas em pé, dos rios fluindo, vai muito além da preocupação ambiental ou ecológica apenas. A agricultura brasileira depende da chuva que vem lá da Amazônia para a região sudeste brasileira. Toda a produção agrícola brasileira depende de uma chuva que depende da Amazônia.
Dada a importância que essa floresta tem para o clima do planeta, isso serviria como exemplo não só para o Brasil, mas também para a Indonésia, para outras regiões que têm grandes florestas, e também serviria como exemplo para Europa, para os Estados Unidos.
O que é um dia perfeito para você?
Atualmente, um dia perfeito seria um dia em que eu não tenho cinco ou seis reuniões, e as que eu tenho são dentro do meu fuso horário. Boa parte do meu financiamento é internacional, então eu tenho que funcionar às vezes em horários que não são os meus. Então o meu dia perfeito é um dia com pouca reunião, um dia com reuniões dentro do fuso, e um dia em que eu possa dar um pulinho na praia de manhã pra dar uma corridinha ou uma nadadinha.
3 livros que inspiraram Roberto Schaeffer
O Nexo pediu para que o cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
Três garotos em férias no rio Tietê,
Três escoteiros em férias no rio Paraná,
Três escoteiros em férias no rio Paraguai
Francisco de Barros Júnior
Três obras infanto-juvenis do professor e escritor brasileiro Francisco de Barros Júnior, vencedor do Prêmio Jabuti em 1961. Observador amador da natureza, o autor escreveu vários livros sobre o assunto durante suas viagens pelo Brasil.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Sariana Fernández
Gráfico por Lucas Gomes e Gabriel Zanlorenssi
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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