‘O ceticismo é uma atitude saudável diante da vida’

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Natália Pasternak

—Microbiologista

10 de jul de 2021

“O ceticismo é uma atitude saudável diante da vida”

Natália Pasternak é microbiologista e divulgadora científica. Graduou-se em biologia pela USP (Universidade de São Paulo), onde fez seu doutorado e pós-doutorado em microbiologia. Ela é fundadora e presidente do Instituto Questão de Ciência, ONG dedicada à divulgação científica e à defesa do uso de evidências científicas na elaboração de políticas públicas.

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Como é respirar ciência de uma forma tão intensa e quase incessante?

É uma missão de vida. A partir do momento em que eu assumi essa missão, principalmente com a criação do Instituto Questão de Ciência [em 2018], eu sabia que seria uma dedicação muito intensa. Claro que eu não sabia que teríamos uma pandemia, e que esse trabalho ficaria muito mais intenso. Diante de uma emergência sanitária, onde o Brasil infelizmente se saiu muito mal, a necessidade de uma comunicação de ciência bem feita é muito mais urgente.

Não direi que é simples, é algo que toma uma grande parte do meu tempo, quando normalmente eu estaria com a minha família. Mas é um trabalho necessário, e não é nenhum sacrifício, nenhum sacerdócio. É o trabalho que eu escolhi, o mínimo que posso fazer pelo meu país. Nada do que eu faço se compara ao trabalho dos profissionais de saúde que estão na linha de frente.

Ter crescido com pais acadêmicos despertou seu interesse pela ciência desde cedo? Como foi o processo de se apaixonar pela ciência e pelo pensamento científico?

Certamente ter pais acadêmicos e viver em um ambiente acadêmico desde pequena contribuiu, mas não foi determinante, tanto que minha irmã não foi para a área acadêmica. Os meus pais são professores. Minha mãe [Suzana Pasternak] é professora titular aposentada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Meu pai [Mauro Taschner] é professor aposentado na FGV (Fundação Getulio Vargas).

Meu pai sempre foi fã de ficção científica e de divulgação científica. Por isso, cresci numa casa com livros de Carl Sagan [astrônomo e divulgador americano], Arthur C. Clarke [autor americano de ficção científica] e Isaac Asimov [autor russo-americano de ficção científica]. Fui lendo esses livros na minha infância e adolescência, e posso dizer com certeza que essas leituras e essas conversas em casa contribuíram muito para que eu desenvolvesse um apreço muito grande pelo pensamento crítico e racional.

Carl Sagan, principalmente com o livro “O mundo assombrado pelos demônios” (1995), mudou muito minha visão de mundo, minha visão de ciência e de como a ciência pode contribuir com as escolhas que fazemos no nosso dia a dia.

Eu tinha outros interesses quando estava crescendo. A biologia não foi minha primeira faculdade. Eu fiz três anos de direito antes. E tinha também uma carreira amadora no ballet clássico, que eu gostava muito. Posso dizer que minha formação em casa certamente contribuiu para que eu despertasse o interesse pela ciência, mas não foi o único fator.

Não podemos confundir o cético com o negacionista. O cético é a pessoa que quer ver as evidências, enquanto o negacionista recusa as evidências que estão diante do seu nariz

Como foi a transição da produção científica para uma atuação mais focada na divulgação científica?

Foi uma transição que aconteceu naturalmente, não foi tanto uma escolha. Quando eu comecei a carreira acadêmica, achei que faria como meus pais. Mestrado, doutorado, pós-doutorado, concurso público e professora.

Eu fiz meu doutorado em microbiologia e fiz meu pós-doutorado. Depois disso, resolvi tirar um tempo fora do laboratório, quando minha filha nasceu. Eu queria dedicar um tempo só a ela. E nesse período tive meu pós-doutorado mais difícil, mas também o mais bonito: a maternidade.

Saí da bolha da universidade e de repente comecei a interagir com pessoas que tinham formações diferentes, com estilos de vida diferentes, e que não pensavam ciência o tempo todo. Nesse universo, comecei a perceber que as pessoas tinham muitas dúvidas e questões sobre a ciência, e poucos lugares onde poderiam esclarecer essas dúvidas de forma didática e acessível.

E aí eu percebi que o trabalho de comunicação da ciência era extremamente necessário e muito incipiente no Brasil. Trabalhos que Carl Sagan já fazia há 50 anos nos Estados Unidos ainda quase não existiam aqui. Me dei conta de como era necessário ter esse conteúdo no Brasil, escrito em português e de forma acessível. Esse foi o estopim da minha mudança.

Reprodução

Fotografia do astrofísico Carl Sagan

CARL SAGAN virou personalidade na TV americana na década de 1980 com a série "Cosmos", na qual explicava conceitos de astronomia e de ciência de uma forma simples e clara.

Um campo em que você se destacou muito é na divulgação do pensamento cético. Por que é importante ser cético?

Uma atitude cética é uma atitude científica, uma atitude questionadora. Não podemos confundir o cético com o negacionista. Às vezes o cético é visto como uma pessoa chata que não acredita em nada. O cético não é a pessoa que não acredita, é uma pessoa que questiona. É a pessoa que quer ver as evidências, algo completamente diferente dos negacionistas, que recusam as evidências que estão diante do seu nariz.

O ceticismo é uma atitude muito saudável diante da vida. É dizer, “ok, você fez essa alegação. Mas o que você tem para embasá-la? Quais são as evidências?”. O ceticismo nos dá essa visão de mundo questionadora, inquisitiva, mas aberta também. Praticando essa atitude, a gente se acostuma a ter um filtro para as informações que chegam para nós. Nos tempos das redes sociais, com uma quantidade avassaladora de afirmações, se não tivermos esse filtro, vamos acreditar em qualquer bobagem que chega no grupo de WhatsApp.

A ciência é um processo investigativo, um pensamento, uma maneira de enxergar o mundo, e não estamos ensinando isso nas escolas

Durante a pandemia, vimos a importância de divulgar ciência e falar sobre ciência. Ainda sim, há informações que não chegam a uma parcela considerável da população. O que está faltando?

Acho que são dois fatores. O primeiro é uma falta de tradição no Brasil do ensino de ciências voltado para ensinar o pensamento científico e não o conteúdo da ciência.

Esse problema não é só brasileiro, mas no Brasil é algo muito preocupante. Ensinamos ciência de uma maneira conteudista, como se a ciência fosse um grande corpo de conhecimento que você precisa decorar para passar no vestibular. A ciência é um processo investigativo, um pensamento, uma maneira de enxergar o mundo, e não estamos ensinando isso nas escolas. É algo que precisamos mudar.

O segundo fator é que é difícil promover o pensamento crítico e racional quando existe uma máquina de desinformação institucionalizada dentro do governo federal. Isso torna o trabalho muito mais difícil.

Um dos principais tópicos debatidos pela revista do Instituto Questão de Ciência são as pseudociências. A astrologia e o terraplanismo são pseudociências, por exemplo, mas uma delas é aceita socialmente. Como lidar com esse tema?

Grande parte da aceitação da astrologia vem de pessoas que na verdade não acreditam naquilo, elas só acham engraçado ou divertido. São pessoas que não vão mudar suas vidas ou condutas por causa do horóscopo que está no jornal, e não veem grande problema em usar isso como uma forma de entretenimento. O problema é que há uma parcela das pessoas que não vai usar a astrologia como entretenimento, pessoas que vão mudar suas condutas por causa do horóscopo do jornal.

Mas há casos estapafúrdios de empresas que colocam o mapa astral em seu processo seletivo e querem saber o signo, ascendente e o raio que o parta dos candidatos. Essas pseudociências que são consideradas inócuas, bobinhas ou até divertidas têm um potencial de causar dano muito grande. Primeiro porque vai ter gente que leva a sério. Segundo porque sempre vai ter alguém que tira dinheiro dos outros.

Meu marido, o jornalista científico Carlos Orsi, brinca que a astrologia é a droga de entrada para as pseudociências. Nós esquecemos que a astrologia deseduca, que ensina as pessoas a pensar de forma irracional. Ela ensina que pseudociências são aceitáveis. A partir do momento em que as pessoas abraçam a astrologia, é um passo para elas irem para coisas mais perigosas, como medicinas alternativas sem comprovação ou movimentos antivacina.

Jefferson Rudy / Agência Senado

Natália Pasternak em depoimento na CPI da Covid no Senado

Natália Pasternak em depoimento na CPI da Covid no Senado

Reprodução / TV Cultura

Natália Pasternak no programa Roda Viva, da TV Cultura

Natália Pasternak no programa "Roda Viva", da TV Cultura

Como é lidar com a responsabilidade de virar uma figura pop de repente, durante a pandemia?

A palavra chave é responsabilidade, e é algo que sempre levei muito a sério. Eu sei qual é a minha responsabilidade como comunicadora. Eu sei que o que eu falo tem o poder de mudar o comportamento das pessoas. E é por isso que não estou sozinha.

Tenho o respaldo do Instituto Questão de Ciência, que eu presido, e que tem um conselho editorial, uma mesa de diretores, um conselho consultivo e um conselho fiscal. Se eu falar alguma bobagem, eles vão me repreender e podem até me destituir.

Ter essa estrutura é importante para garantir que o trabalho que eu faço e as informações que eu passo sejam respaldadas por um grupo de pessoas. O que eu falo na mídia são informações científicas, que passam por um crivo do meu conselho, que também me treina para eu comunicar isso da forma mais clara e acessível possível. É claro que eu erro, e quando eu erro faço questão de admitir o erro publicamente.

Saber o que ainda temos por descobrir na ciência é o mais fascinante de tudo

Nos livros “O mundo assombrado pelos demônios” e "Desvendando o arco-íris”, Carl Sagan e Richard Dawkins tentam afastar a ideia de que a ciência deixa o mundo mais chato e triste, já que muitas vezes descartam afirmações extraordinárias. Ficando na metáfora, entender o que é o arco-íris deixou ele menos belo para você?

De jeito nenhum! Muito pelo contrário. Compreender a ciência faz com que o mundo fique muito mais interessante, e que a gente busque muito mais a compreensão das coisas. Saber o que ainda temos por descobrir é o mais fascinante de tudo.

A ciência mostra a beleza do mundo de uma maneira que eu não conseguiria ver com outras lentes. A beleza da ciência é ver como os mecanismos do método científico permitiram descobertas tanto sobre a nossa origem, quanto sobre a origem do planeta. Isso é mais fascinante do que qualquer outra coisa.

O que é um dia perfeito para você?

Um dia perfeito – e ele está longe – é um dia em que eu não tenho que amanhecer desmentindo maluquices que apareceram na internet, como uma suposta nova análise sobre a eficácia da ivermectina contra a covid-19 ou a afirmação de que a vacina contra a covid te deixa magnético. Esse seria o dia perfeito.

3 livros que inspiraram Natália Pasternak

O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.

O mundo assombrado pelos demônios

Carl Sagan

No livro de 1995, Sagan elenca os princípios básicos do ceticismo e do pensamento científico, dando um caminho para os leitores questionarem afirmações extraordinárias e sem embasamento que são feitas no dia a dia.

O relojoeiro cego

Richard Dawkins

Publicado em 1986, o livro traz uma explicação sobre o processo evolutivo e a seleção natural, e rejeita ideias religiosas de que há um criador por trás do surgimento da vida.

Ciência no cotidiano

Carlos Orsi e Natália Pasternak

No livro lançado em 2020, os autores apresentam conceitos básicos da ciência e do pensamento científico para mostrar como eles são ou podem ser aplicados no cotidiano das pessoas.

Produzido por Cesar Gaglioni

Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández

Desenvolvimento por Sariana Fernández

Edição por Letícia Arcoverde

©2020 Nexo Jornal

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A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.