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Marlucia Martins

—Zoóloga

13 de ago de 2021

“Não tem como separar a nossa vida da vida dos insetos”

Marlucia Martins é formada em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem mestrado em ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia e doutorado na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas. Fez pós-doutorado em ecologia na Universidade de Leeds, na Inglaterra. Atualmente é pesquisadora titular no Museu Emílio Goeldi, no Pará.

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Como você explica a sua área de atuação para quem não tem a menor ideia do que você faz?

Eu digo que sou pesquisadora de biodiversidade. Quando falamos de biodiversidade, as pessoas têm uma noção um pouco mais ampla. Quando falamos de biodiversidade – um conjunto de animais e plantas – eu localizo a minha área, os insetos, como um elemento importante dentro da biodiversidade.

Por que é importante estudar os insetos em relação ao meio ambiente como um todo e aos seres humanos em específico?

Se formos falar em biodiversidade, que é a quantidade da variedade de vida, os insetos vão representar uma porcentagem bem alta do conjunto dos animais. Mais de 40% dos animais que existem são insetos. Os insetos evoluíram muito próximo da evolução das plantas, e são responsáveis pela polinização de mais de 90% das plantas. As plantas não existiriam – principalmente as plantas com flores – se os insetos não existissem.

Acho que uma maneira das pessoas vislumbrarem a importância dos insetos é olhando para as plantas. Atrás de cada planta, ou de quase todas as plantas, tem um inseto que pousa na flor, que leva o pólen e que permite a produção de frutos e a reprodução das espécies de plantas. Acho que é uma maneira bem legal de a gente começar a olhar esses animaizinhos que muitas vezes são invisíveis para a maior parte das pessoas.

Além desse trabalho importante na polinização, os insetos também fazem parte do solo. Quando a gente fala de solo, a gente tem que pensar que é aquela parte que vai também alimentar e dar condições da produção, principalmente, da agricultura, da qual a gente depende, dos nossos alimentos.

Não conseguimos mensurar o tamanho do desastre que se aproxima com a redução drástica da diversidade

E sem os insetos, você também não tem solo porque boa parte deles vão trabalhar a matéria orgânica, a folha que cai, o excremento animal, ou a própria carcaça do animal que morre, isso vai ser trabalhado, consumido pelos insetos e vai ser incorporado no solo dando aquela impressão daquele solo escuro, que todo mundo, qualquer agricultor reconhece como solo fértil. Então a participação dos insetos no ciclo do solo é fundamental também.

Além disso, eles têm uma importância para nós. Muitos dos insetos são controladores de outros insetos, aqueles que a gente não gosta, aqueles que nos picam, transmitem doenças. Então, se não existissem vespas e alguns outros insetos que chamamos de predadores, nós teríamos um mundo infestado de mosquitos, e seria quase impossível de viver.

Os insetos estão em toda parte, em todas as atividades. Alguns mais próximos de nós, acompanham nossas vidas, ajudam a reduzir, por exemplo, a poluição do nosso lixo, também. O trabalho dos insetos na transformação do lixo orgânico também é muito importante, no próprio tratamento dos cadáveres no processo de deterioração. Enfim, eles nos acompanham, na nossa vida, no nosso cotidiano, ajudam a manter as florestas, os campos, os pântanos, as áreas verdes de que a gente também precisa. Não tem como separar a nossa vida da vida dos insetos.

Qual é o estado das pesquisas sobre insetos hoje? Quais são os principais desafios da área?

Hoje no mundo todo enfrentamos um desafio muito sério, que é a redução drástica da abundância da diversidade de insetos. A situação é tão dramática que a nossa percepção hoje é muito parcial. Nós humanos ainda não conseguimos catalogar o que existe de insetos na natureza ao redor do mundo, muito menos nas nossas regiões brasileiras e tampouco amazônicas. Algumas pesquisas têm sido feitas com acompanhamento de grupos de insetos, mostrando uma redução drástica no número.

Apesar de serem “invisíveis”, não tão facilmente localizados para nós, eles têm uma importância muito grande na manutenção de todos os ecossistemas da Terra. A ausência desses organismos, de um modo geral, pode levar a uma redução drástica de todas essas funções ecossistêmicas em que os insetos estão envolvidos.

Nós não conseguimos mensurar o tamanho do desastre que se aproxima com a redução drástica do número de insetos. Ainda não conseguimos documentar as extinções, justamente pelo fato de que são grupos pouco conhecidos. Muitas espécies estão sendo extintas e nós nem tomamos conhecimento que elas existiam.

Arquivo Pessoal

Marlucia Martins no Fórum Mundial de Ciência, em 2013

No Fórum Mundial de Ciência, em 2013

Divulgação

A bióloga Marlucia Martins apresentando na Reunião Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em 2014

O seu mestrado e o seu doutorado foram sobre as drosófilas, que conhecemos como mosca da fruta. O que te levou a querer estudá-las?

A ecologia quer entender como os organismos se estabelecem no ambiente, e como eles se relacionam entre si. Para entender os processos ecológicos, muitas vezes temos que escolher um modelo. É impossível estudar tudo.

A drosófila foi escolhida desde os anos 50 como um modelo muito importante para o estudo da genética e do desenvolvimento celular dos tecidos. Muitas coisas que conhecemos hoje sobre o câncer, sobre o desenvolvimento embrionário foram baseadas em estudos de drosófilas.

A vantagem das drosófilas é que elas são fáceis de criar em laboratório. É possível criar em larga escala para fazer esses estudos. Eu comecei a minha vida acadêmica no Departamento de Genética no Rio de Janeiro. Todo mundo estudava drosófila.

Só que eu sempre me interessei por ecologia. Resolvi sair dos muros do laboratório, dos grupos experimentais, para um local onde eu pudesse experimentar a natureza. Me dediquei a entender como as drosófilas interagiam entre si. Fui descobrindo essas moscas como um modelo experimental muito interessante.

Os insetos têm formas, cores e estruturas interessantíssimas. São obras de arte da natureza

Muita gente tem nojo ou medo de insetos. Você já teve algum sentimento desses?

Não. Não tenho problema nenhum, nem com barata. Posso te dizer que o bicho que eu tenho um pouquinho mais de problema é com a formiga, porque realmente é incômodo você estar no mato trabalhando e pisar em um formigueiro. Mesmo os mosquitos, que não são companhia agradável quando estamos no campo, não me causam nenhum tipo de aversão. Sempre fui muito amigável com os insetos.

Os insetos são muito lindos. Eles têm formas, cores e estruturas interessantíssimas. São obras de arte da natureza. No medo ou nojo, digo o seguinte: os cineastas têm muita culpa disso. Toda vez que eles querem colocar um monstro ou uma figura assustadora em um filme, eles usam a morfologia dos insetos. Criam essa situação aversiva da população aos insetos, que eu acho que é um desserviço que a cultura, nesse caso específico, presta para a humanidade.

Mais de 95% dos insetos só beneficiam a humanidade, e você tem meia dúzia, uma quantidade muito pequena, que causam incômodo ou problemas mais sérios como doenças. Isso é algo que me entristece muito.

Qual foi o maior presente que a zoologia te deu enquanto pessoa?

Eu acho que foi a oportunidade de trabalhar na Amazônia. Eu sou muito grata, eu venho do Rio de Janeiro, e eu nunca imaginei que seria tão bom vir pra Amazônia. Foi um desafio na minha juventude, mas foi um presente. Acho que não tem biólogo que não se sinta grato por ter oportunidade de estar na Amazônia.

Qual a maior pergunta que você quer ver respondia pela zoologia?

O quanto a biodiversidade pode resistir às pressões humanas.

O que é um dia perfeito para você?

Um dia de campo. Quando vamos para o meio do mato, a 200 mil km da civilização, acordamos na beira do igarapé. Eu sou muito apaixonada pelo campo. Realmente considero esse um dia perfeito.

3 livros que inspiraram Marlucia Martins

O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.

O colapso

Jared Diamond

Publicado em 2004, o livro analisa como grandes sociedades do passado entraram em colapso. Nele, o biólogo Jared Diamond tenta extrair lições importantes desses eventos para a humanidade atual.

A primavera silenciosa

Rachel Carson

Publicado em 1962, o livro é considerado um dos estopins para o aumento das discussões sobre o meio ambiente. Nele, a autora analisa como o uso de pesticidas impactou a estrutura ambiental dos EUA.

A vida secreta das abelhas

Sue Monk Kidd

Lançado em 2001, o romance de Sue Monk Kidd gira em torno de uma jovem que tenta entender sua própria identidade e encontrar seu lugar no mundo. O livro foi adaptado para o cinema em 2008.

Produzido por Cesar Gaglioni

Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández

Desenvolvimento por Sariana Fernández

Edição por Letícia Arcoverde

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A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.