Cientistas do Brasil
que você precisa
conhecer
Celina Turchi
—Epidemiologista
29 de out de 2021
“Falta consolidar a ideia de que a área de saúde gera segurança”
Celina Turchi é médica formada pela Universidade Federal de Goiás, mestre em epidemiologia pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e doutora em medicina preventiva pela Universidade de São Paulo. Ela também é comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico e membro titular da Academia Brasileira de Ciências. Atualmente ela trabalha como pesquisadora no Instituto de Pesquisa Aggeu Magalhães, parte do braço pernambucano da Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz.
Como você explica a sua área de atuação para quem não tem a menor ideia do que você faz?
Eu começaria dizendo que sou formada em medicina. Sempre me interessei por doenças infecciosas. Durante a minha atuação, ficava interessada em entender por que algumas doenças tinham maior transmissão em determinados lugares, por que as epidemias existiam, como que um vírus se transmite nas diferentes populações, etc.
Isso tudo me interessava muito, tanto pelo ponto de vista biológico, quanto pelo ponto de vista histórico. Com essa formação, descobri na epidemiologia a ciência que estuda as infecções nas populações, um caminho muito interessante. Nós buscamos entender qual é o padrão de ocorrência de doenças infecciosas transmissíveis, trabalhamos modelos matemáticos para a transmissão, estudamos as causas das doenças. Esse é o nosso trabalho.
Assim como você precisa ter bombeiros para apagar incêndios, você precisa ter muitos profissionais bem informados na saúde
Com a pandemia da covid-19, a população tem uma noção maior da importância da epidemiologia?
Imagino que sim. Tenho visto que parâmetros que para nós, epidemiologistas, são muito simples, passaram a fazer parte do vocabulário comum. Hoje em dia taxa de transmissão, média móvel são coisas discutidas no bar, em círculos de amigos. Isso é muito interessante.
O que talvez ainda não esteja muito consolidado é como essas áreas de atuação geram segurança para o país. Assim como você precisa ter bombeiros para apagar incêndios, você precisa ter muitos profissionais bem informados na saúde que tenham a compreensão da dinâmica de transmissão de uma doença, para que possam tomar decisões rapidamente com o maior conhecimento possível.
Acredito que estamos em um momento em que todos entendem a importância da ciência, mas sem entender que esse é um grupo de profissionais que deve ser muito bem treinado, com um treinamento contínuo, com investimento público contínuo.
Como você avalia a área de pesquisa epidemiológica no Brasil hoje? O que está faltando?
Podemos dizer que o Brasil tem tido uma atuação muito expressiva dos profissionais e dos pesquisadores que trabalham na área da saúde básica. O que falta é que está cada vez mais precário o investimento.
É quase um estrangulamento, em um momento em que as pessoas estão se esforçando ao máximo para entender a dinâmica dessa pandemia, que é uma das mais prolongadas que a gente tem. O Brasil foi muito reconhecido na pandemia do vírus zika. Foi uma nova doença, que teve grande parte da sua produção científica feita por pesquisadores brasileiros. Isso foi mundialmente reconhecido.
Ascom/MCTIC
A epidemiologista Celina Turchi participou do 1º Simpósio Cabbio de Termas Atuais em Biotecnologia, no MCTIC
Divulgação/Ipea
Celina Turchi em evento no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em 2017
Você ficou muito conhecida por sua atuação com o vírus zika. Qual foi o momento em que você parou e disse ‘ok, preciso estudar isso que está acontecendo’?
Eu fui contratada pelo Ministério da Saúde. O que eles disseram é que tinham sido notificados de um aumento de casos graves de microcefalia e que gostariam que eu fizesse uma investigação de campo. Anualmente, a gente tinha de 8 a 10 casos de crianças com esse tipo de malformação. Em 15 dias, eu vi que já havia o dobro do número de casos, então alguma coisa ali era realmente diferente.
O que me chamou a atenção era que os pediatras me diziam que os exames não apontavam nenhuma doença conhecida. Então tivemos que levantar uma hipótese. Fizemos uma força-tarefa com epidemiologistas e imunologistas, ficamos concentrados nesse problema. Nós abandonamos temporariamente os outros estudos e ficamos concentrados só nisso.
Então desenhamos um estudo de caso para ver a origem daquele surto. Sabendo a origem, a causa, é possível então tomar as medidas de controle imediatas. Naquele caso foi recomendar à população do Nordeste que, se houvesse uma gravidez planejada, era melhor adiar o plano por algum tempo.
O Brasil foi mundialmente reconhecido na pandemia do vírus zika. Foi uma nova doença, que teve grande parte da sua produção científica feita por pesquisadores brasileiros
O Nobel de Química em 2020 foi dado a pesquisadoras que desenvolveram a técnica Crispr de edição genética. Um dos experimentos feitos foi o de diminuir a fertilidade do mosquito que transmite a malária. Isso poderia ser feito com o zika e o vírus da dengue?
Essa técnica foi realmente uma verdadeira revolução. É uma metodologia que permite você fazer modificação genômica precisa e eficiente. Pode ser usada em qualquer área do conhecimento. Por isso que ela foi muito merecidamente colocada como um divisor de águas dentro da ciência. Ela tem sido usada na modificação de vetores de transmissão de vírus, incluindo o Aedes (gênero de mosquitos que transmite dengue e zika).
Ascom/MCTIC
Homenagem recebida por Celina Turchi em 2020, na iniciativa "Donas da Rua" da Mauricio de Sousa Produções
Na biografia de Albert Einstein escrita pelo jornalista Walter Isaacson, o autor conta que Einstein teve a peça que faltava para a teoria da relatividade ao imaginar um trem sendo atingido por dois raios. Esse tipo de momento “Eureca!” existe ou é um mito?
Na minha área, o trabalho é muito coletivo. Acho que às vezes existe um momento de clareza. Vou tentar exemplificar: quando pensávamos na microcefalia causada pelo zika, apareceram hipóteses de um inseticida sendo jogado na água, ou então uma questão genética.
E então houve um momento em que alguém falou que houve uma epidemia de zika meses antes. E isso fez mais sentido. Essa visão de uma “grande ideia do momento” talvez seja romantizada. Mas há sim momentos em que você diz “Essa pode ser a direção certa.”
Enquanto pessoa, qual foi o maior presente que a ciência te deu?
Acho que a convivência com meus colegas de trabalho. O grande presente é a convivência com os pares e com as redes de pesquisa. Isso me permitiu conhecer grande parte do mundo e encontrar pessoas interessantes. Não posso ter presente maior.
Qual é a maior pergunta que você quer ver respondida pela ciência?
Hoje em dia é “qual é a duração da proteção vacinal contra o Sars-CoV-2 [vírus da covid-19]”.
O que é um dia perfeito para você?
O dia em que tivermos a notícia da redução da desigualdade social no Brasil e no mundo.
3 livros que inspiraram Celina Turchi
O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
Torto arado
Itamar Vieira Júnior
Passado no sertão baiano, esse romance de 2019 conta a história de duas irmãs, descendentes de pessoas escravizadas, que, intrigadas com uma mala encontrada na cama da avó, mudam seus destinos para sempre.
Nêmesis
Philip Roth
Publicado em 2010, o livro conta a história de um professor de educação física que se vê em meio a um surto de casos de poliomielite entre seus alunos. A trama se passa na década de 1950, antes do desenvolvimento de uma vacina contra a doença.
O oráculo da noite
Sidarta Ribeiro
No livro, o neurocientista mergulha no aspecto neurológico e biológico dos sonhos, mostrando também como, ao longo dos séculos, o sonho foi usado como ferramenta de interpretação pessoal e coletiva.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Sariana Fernández
Edição por Letícia Arcoverde
©2020 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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