Cientistas do Brasil
que você precisa
conhecer
Virgílio Almeida
—Cientista da computação
12 de nov de 2021
“As ciências humanas são importantes dentro da tecnologia”
Virgílio Almeida é cientista da computação. Ele é formado em engenharia elétrica pela Universidade Federal de Minas Gerais, mestre em informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio e doutor em ciências da computação pela Universidade Vanderbilt, nos Estados Unidos. Ele é grão-mestre da Ordem Nacional do Mérito Científico, membro titular da Academia Brasileira de Ciências, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais e professor associado da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Como você explica a sua área de atuação para quem não tem a menor ideia do que você faz?
Nós interagimos, várias vezes ao dia, com um dispositivo computacional. Ele pode ser o celular, o [computador] desktop ou o tablet. Dois pontos são importantes: esse dispositivo físico é um hardware capaz de processar as instruções dos programas que são utilizados e fazer essa interação entre você e o dispositivo. O segundo é que esses dispositivos são operados por software, programas que executam as instruções definidas pelos algoritmos.
Os algoritmos são um conjunto de regras que indica ao computador o que fazer para chegar a determinado resultado. A área da computação está ligada a esses dois fatores, há a área dos projetos de hardware, que dialogam com a engenharia elétrica e eletrônica, e a área dos softwares, que é o desenvolvimento e estudo dos algoritmos.
Ao mesmo tempo, há a necessidade de uma nova gama de áreas de especialidades para entender as questões digitais. As ciências humanas, sociais, todas são importantes dentro da tecnologia. Em várias instituições e laboratórios já vemos grupos interdisciplinares formados por cientistas sociais, cientistas das áreas biológicas, atuando em conjunto com os cientistas da computação.
Unsplash
Foto de uma placa mãe de um eletrônico e da tela de computador que mostra um código de programação
Hardware são os componentes físicos do dispositivo. Software são os programas executados por ele. Uma piada recorrente no mundo da informática é que "hardware é o que você chuta, software é o que você xinga"
Qual será a próxima grande fronteira de desenvolvimento tecnológico?
Temos que olhar para essas questões com um pé atrás. Grandes empresas sempre difundem novas ideias com um componente comercial de marketing muito grande, como é o caso do metaverso, de Mark Zuckerberg [fundador do Facebook, que mudou o nome da empresa para Meta].
Esses avanços podem ser extremamente positivos, ajudando a tornar a economia mais competitiva ou no ataque às mudanças climáticas. Mas também podem trazer problemas, como o reconhecimento facial que pode reproduzir preconceitos e ter mais acerto com rostos brancos do que com rostos negros.
Essas questões devem ser olhadas pela sociedade, e é aí que entra a importância de se ter grupos multidisciplinares com cientistas da computação, cientistas sociais, cientistas políticos, etc. São questões muito mais amplas e seu impacto na sociedade é grande.
Como você avalia o estado das pesquisas em inteligência artificial no Brasil hoje?
O Brasil tem um sistema de pós-graduação bem organizado, com grande eficiência em diversas universidades. Em algumas delas há grupos de pesquisa trabalhando com inteligência artificial.
Quando falamos em inteligência artificial, estamos usando um termo amplo. Há os algoritmos de aprendizado de máquina, que são a parte concreta da computação. Isso vem sendo pesquisado no Brasil, com bons alunos que publicam em periódicos internacionais renomados.
No entanto, não temos a quantidade necessária de especialistas que o país – a sociedade, o governo e as empresas – vai precisar. E talvez aí podemos falar de um outro ponto importante, que talvez não possamos formar mão de obra capacitada para esse futuro cada vez mais digital. Há ainda um caminho a percorrer.
Não temos a quantidade necessária de especialistas na área de computação que o país – a sociedade, o governo e as empresas – vai precisar
No livro “Outliers”, o jornalista americano Malcolm Gladwell fala que nomes como Steve Jobs (da Apple) e Bill Gates (da Microsoft) surgiram por estarem no lugar certo, próximos de universidades importantes, na hora certa, em um momento em que a computação ainda engatinhava. No contexto brasileiro atual, estamos fornecendo aos jovens interessados na computação um “lugar certo, na hora certa”?
Os EUA atraem os melhores cérebros do mundo inteiro. O Brasil precisa favorecer um ambiente competitivo com uma quantidade grande de jovens trabalhando, tanto no empreendedorismo tecnológico, quanto na pesquisa.
O que nós estamos vendo hoje é o contrário disso. Na Universidade Federal de Minas Gerais, o curso de ciências da computação é extremamente bem avaliado, e dos alunos que se formam ali, grande parte é contratada diretamente por empresas americanas e europeias, mas especialmente as americanas do Vale do Silício.
Isso é bom porque estamos formando gente de qualidade. Por outro lado, isso é ruim porque o país perde recursos altamente qualificados que poderiam levar a situações excepcionais feito os “Outliers” mencionados no livro do Gladwell.
Para isso acontecer, precisamos de uma massa crítica de jovens interessados, de apoio dos laboratórios e das universidades. E nós estamos vivendo um momento em que esse apoio foi praticamente anulado. Se a sociedade e o governo dão esse apoio à ciência e tecnologia, certamente há a possibilidade de termos esses casos excepcionais. Basta lembrar que um dos criadores do Facebook é brasileiro [Eduardo Saverin, paulista].
Em 2019, você escreveu um artigo sobre cyber estabilidade. O que é esse conceito?
O ciberespaço é hoje uma infraestrutura crítica para a sociedade. Se o Brasil perder a conexão com a internet, isso paralisa diversos setores da economia, como o setor financeiro, os aeroportos, e sistemas de saúde. A ideia de cyber estabilidade é criar um conjunto de regras para garantir que esse acesso não vai ser comprometido, seja por crises elétricas, ataques de hackers ou outros fatores.
Divulgação/Congresso Nacional
Virgílio Almeida em evento no Congresso em 2018
Divulgação/UFMG
O cientista da computação Virgílio Almeida no seu escritório da UFMG em 2017
Em 2018, você escreveu um artigo sobre cidades conectadas. Quais são os benefícios de termos os espaços urbanos integrados na rede?
Serviços como transporte, sistemas de segurança e sistemas de saúde podem ser automatizados no futuro. Do ponto de vista tecnológico, as possibilidades estão próximas.
No entanto, é necessário que a sociedade estabeleça quais são os limites disso. À medida em que tudo é controlado, há a possibilidade das ações das pessoas serem mais monitoradas, com mais invasões na privacidade. A tecnologia oferece enormes ganhos, mas ela precisa de um processo de governança para que o bem-estar comum seja o objetivo maior. Esses avanços tecnológicos não podem e não devem ser usados para consolidar a desigualdade ou, eventualmente, até aumentar a desigualdade.
A tecnologia oferece enormes ganhos, mas ela precisa de um processo de governança para que o bem-estar comum seja o objetivo maior
Qual seria a maior inovação tecnológica que você gostaria de ver em vida?
Eu gostaria muito de ver os avanços tecnológicos do país acoplados com preocupações sociais e com uma ideia de tornar o Brasil uma sociedade menos injusta.
Enquanto ser humano, qual foi o maior presente que a tecnologia te deu?
Trabalhar em uma área cujos resultados são importantes para a sociedade é uma realização como pesquisador e como pessoa.
O que é um dia perfeito para você?
Os dias são diferentes uns dos outros. Terminar o dia com saúde, tendo realizado os trabalhos e contribuindo para um mundo melhor é um dia ótimo.
3 livros que inspiraram Virgílio Almeida
O Nexo pediu para que o cientista indicasse três livros que marcaram sua trajetória pessoal e profissional.
A Montanha mágica
Thomas Mann
Publicado em 1924, o livro conta a história de Hans Carstop, um jovem estudante de engenharia naval que é internado num hospital para tuberculosos e lá discute angústias que refletem a ansiedade alemã no começo do século 20. O livro foi fundamental para que Mann ganhasse o Nobel de Literatura.
Ficções
Jorge Luis Borges
Publicado em 1940, o livro reúne 17 contos do escritor argentino apontado como um dos grandes expoentes do realismo fantástico, gênero que consagrou a literatura latino-americana.
Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Publicado em 1881, o livro, um dos mais célebres do autor, traz Brás Cubas, o protagonista do título, relembrando sua vida em primeira pessoa, depois de morto. Dessa forma Machado expõe e critica a classe média do Rio de Janeiro do final do século 19.
Produzido por Cesar Gaglioni
Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández
Desenvolvimento por Sariana Fernández
Edição por Letícia Arcoverde
©2021 Nexo Jornal
A série ‘Cientistas do Brasil que você precisa conhecer’ contou com o apoio do programa de divulgação científica do Instituto Serrapilheira, uma instituição privada sem fins lucrativos, criada em março de 2017, com o objetivo de financiar pesquisas de excelência com foco em produção de conhecimento e iniciativas de divulgação científica.
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