Este artigo, publicado pelo pesquisador André Luis Leite e coautores, compara os diferentes sentidos das palavras ativismo e militância a partir da adoção de ambos em manifestações no Brasil desde junho de 2013.
Entre as conclusões, os autores destacam que o ambiente militante tende a valorizar a disciplina e a centralização, enquanto o ativista incentiva horizontalidade e autonomia. Eles apontam, também, que não é possível associar um ou outro termo a grupos com posicionamentos políticos de esquerda ou de direita.
Há diferenças entre militância e ativismo e entre militantes e ativistas? Em junho de 2013, integrantes do Movimento Passe Livre recusaram os termos militantes e militância e preferiram as palavras ativismo e ativistas para nomear a si mesmos e suas ações. Em 2015, o termo ativismo também foi escolhido por estudantes que ocuparam escolas de ensino médio no estado de São Paulo. Por que recusar um termo clássico e optar por uma palavra nova? Há alguma diferença entre militância e ativismo? Caso haja, como essa distinção influencia militantes e ativistas? Desde 2014, tenho pesquisado a disputa de sentidos entre essas palavras para entender melhor as mudanças nas formas de protesto no Brasil e também para ponderar sobre consequências dessa mudança sobre aqueles que se dizem militantes ou ativistas.
As interpretações de junho de 2013 e seus efeitos ainda seguem em discussão. Dali surgem algumas questões: foi lá onde renasceu a direita liberal na economia e conservadora nos costumes, representada naquela época pelo pelo MBL (Movimento Brasil Livre), e recentemente coroada pela eleição de Jair Bolsonaro? Veio de lá a força inspiradora dos secundaristas paulistas que se opuseram ao projeto do governo do Estado de restruturação do ensino médio em 2015? Junho foi fascista ou autonomista? Contudo, é fato que as Jornadas de Junho inseriram a palavra ativismo no vocabulário político brasileiro. Mesmo usado com frequência na literatura científica nacional sobre protestos, no cotidiano de partidos políticos, de sindicatos e em muitos movimentos sociais brasileiros, são escassas as definições do termo militância. Por meio da revisão dos artigos publicados entre 1980 e 2016, definimos o termo como uma metodologia para produzir ação coletiva com o objetivo de interferir nas normas sociais vigentes. Essa definição ressalta o que há de comum entre as palavras militância e ativismo mas, ao mesmo tempo, ela ajuda a entender no que nelas há de diferente. Militância e ativismo são metodologias usadas para o mesmo fim: agir em conjunto para interferir nas normas. Porém, tratam-se de metodologias diferentes e, portanto, produzem efeitos diferentes em quem as usa. Não precisa pensar muito para perceber a aproximação entre as palavras militância e militar. Militar requer disciplina. Isso envolve regras rígidas, controle, padronização, repetição, hierarquia e regularidade. Um exército é eficaz quando poucos pensam e muitos fazem, quando as diferenças são suprimidas e as tropas atendem prontamente a seus comandantes. A militância privilegia estruturas organizativas centralizadas funcionando segundo lógicas militares e produz, naqueles que fazem uso dela, uma moralidade rígida semelhante a demandada aos soldados durante as guerras. Integrantes do Movimento Passe Livre em 2013 e de outros coletivos diversos surgidos desde então têm preferido arranjos descentralizados, nos quais a liderança e as decisões são partilhadas entre muitos. Eles vêm usando as novas tecnologias de comunicação e informação para dar corpo a suas ações e têm na ideia de redes seu como modelo organizativo estratégico. Neles a importância da agência, da criatividade e das necessidades singulares imediatas são reconhecidas e valorizadas. O efeito de tais características sobre aqueles que se dizem ativistas é o desenvolvimento de um senso ético circunstancial. Este faz com que ativistas ‘recusem verdades inabaláveis e concepções fechadas sobre mudança social’ e leva parte dos militantes a considerarem os ativistas pouco comprometidos com as causas pelas quais lutam.
Diferentes metodologias criam distintos ambientes nos quais os sujeitos são socializados, sendo esse um elemento crucial para explicar por que militantes e ativistas pensam, agem e sentem de formas diferentes. O ambiente militante tende a valorizar disciplina, centralização e heteronomia, enquanto o ativista incentiva experimentação, horizontalidade e autonomia. As condições ambientais tendem a produzir em militantes uma moralidade severa, a qual, muitas vezes, produz comportamentos enrijecidos e até intolerantes, e em ativistas éticas relacionais, passíveis de mudança de acordo com os contextos locais e alinhada aos valores e modos de vida instáveis dos dias atuais. Os resultados obtidos até aqui contrariam a ideia de que a militância seria uma metodologia inferior ao ativismo. Associar a primeira com posições políticas exclusivamente à esquerda e última com posicionamentos à direita também não é uma conclusão possível. Cada uma dessas metodologias possui pontos fortes e fracos, não há superioridade absoluta de uma em relação a outra e ambas coexistem em diversas formas de ações coletivas no Brasil. Por exemplo, a campanha presidencial de 2018 explicitou tanto a força da militância de direita quanto a tentativa tardia da esquerda de familiarizar-se com as formas de ação típicas das redes sociais. Entender militância como uma metodologia para articular ação coletiva é um ponto de partida interessante para reconhecer semelhanças inconvenientes entre pessoas localizadas em polaridades opostas do espectro político.”
Participantes de movimentos sociais, pesquisadores das ações coletivas, integrantes de movimentos políticos em geral e demais interessados em entender um elemento importante do “fla-flu” generalizado que tomou parte da vida pública no país. Esse artigo é fruto de uma pesquisa cujos demais resultados podem interessar àqueles que procuram ideias sobre como resistir, e existir, em meio às mudanças que o presidente em exercício, e sua equipe, começaram a executar.
André Luis Leite de Figueirêdo Salesé psicólogo, mestre em psicologia, professor, especialista em educação em saúde, pesquisador visitante na Universidade da Cidade de Nova York e na Universidade de York, em Toronto, no Canadá, doutorando em psicologia na Universidade Estadual Paulista, Campus Assis.
Flávio Fernandes Fontesé professor adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, campus de Santa Cruz. Possui graduação, mestrado e doutorado em psicologia pela UFRN. Co-orientador da pesquisa de doutorado que originou o artigo.
Silvio Yasui é livre-docente em psicologia e atenção psicossocial pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. É professor adjunto da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Orientador da pesquisa de doutorado que originou o artigo
Um agradecimento à FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que vem financiando essa pesquisa por meio dos processos 2015/26241-0, 2017/00664-7, e 2018/01064-6.
Referências
- Movimento estudantil brasileiro: Práticas militantes na ótica dos novos movimentos sociais. Marcos Ribeiro Mesquita,Revista Crítica de Ciências Sociais (2003), 66,117-149.
- Militância e poder: Balizas para uma genealogia da militância.
- Monclar Eduardo Goes de Lima, 1986. Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História, Universidade Estadual de Campinas, SP, Brasil. Disponível em: https://goo.gl/k7pxY5
- Redes de Indignação e Esperança.Manuel Castells, 2013, Rio de Janeiro, RJ: Zahar.
- Cartografia sentimental – Transformações contemporâneas do desejo (2. ed.)Suely Rolnik, 2014, Porto Alegre, RS: Editora Sulina.
- Movimentos em movimento: Uma visão comparativa de dois movimentos sociais juvenis no Brasil e Estados Unidos. Adriana Coelho Saraiva, 2010. (Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados Sobre As Américas, Universidade de Brasília, DF, Brasil). Disponível em: https://goo.gl/XiF8Mm