Esta pesquisa de mestrado, realizada na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), analisa a maneira como a construção da ídolo virtual Hatsune Miku evidencia a relação do otaku (fã) japonês com a fantasia, propondo uma reflexão sobre o cenário atual de consumo e cultura de fãs no Japão e seus modos de relação com os objetos de afeto.
Entre as conclusões, a autora destaca que as delimitações entre criação, produção e circulação são irrelevantes na cultura otaku — os fãs de Miku, além de consumidores, são responsáveis por grande parte da produção de conteúdo sobre a personagem, criando uma noção de autoria como algo compartilhado. Para ela, esses aspectos podem ser compreendidos como essenciais para a constituição de Hatsune Miku, vista como um coletivo de vozes, criações e compartilhamentos, em processo contínuo de construção.
De que maneira a construção da ídolo virtual Hatsune Miku evidencia a relação do otaku (fã) japonês com a fantasia? Nesta pesquisa, evidenciamos a constituição coletiva de Hatsune Miku a partir das práticas de seus fãs, responsáveis por grande parte da produção de seu conteúdo. Nesse contexto, buscamos compreender a constituição do ídolo virtual no cenário pop japonês, tendo como objetivos analisar o cenário no qual ele surge, discriminar sua construção e investigar com modos de relação com a fantasia nas práticas otaku.
Este estudo busca colocar em evidência a construção de Hatsune Miku, destacando não somente sua caracterização como personagem não humana, mas também a constituição que se dá por meio da relação com os fãs, sendo estes responsáveis por grande parte do conteúdo relacionado à artista, desde músicas até o visual, produtos e shows independentes. A relevância da pesquisa se dá ao propor uma reflexão sobre o cenário atual de consumo e cultura de fãs no Japão e seus modos de relação com os objetos de afeto. A importância da figura do otaku (fã) na construção do ídolo virtual no contexto japonês contempla desde esse modo ativo de consumo e produção até a própria relação com a ficção e a fantasia como modo de potencializar a realidade, sendo estas consideradas mais efetivas para suas formas de interação social, gerando maior identificação e facilitando suas práticas no ambiente em que está inserido. Os modos de relação com o ficcional não são recentes, mas, com o advento da tecnologia, passam a ser explorados, entre outros meios, por meio de jogos, softwares, cerimônias de casamento em realidade virtual e personagens-robôs de companhia.
O tema desta dissertação de mestrado é a ídolo virtual Hatsune Miku e a sua constituição coletiva a partir das práticas de seus fãs, responsáveis por grande parte da produção de seu conteúdo (como músicas e imagens). A pesquisa busca compreender como o ídolo virtual no cenário pop do Japão evidencia a relação do otaku japonês com a fantasia, tendo como hipótese principal que, para o fã, a fantasia é uma forma de realidade e a noção de autoria é compartilhada, sugerindo uma indistinção entre criação, produção e circulação. A metodologia baseia-se na análise conceitual dos processos construtivos do ídolo virtual, a partir da revisão bibliográfica que descreve a cultura otaku; os estudos da relação fã celebridade no âmbito específico japonês e na pesquisa documental e análise dos conteúdos produzidos em torno de nosso objeto de estudo. Como resultado, espera-se que a pesquisa contribua nas discussões acerca da cultura otaku e de seu entendimento de fantasia, especificamente no contexto japonês.
Entendemos, a partir dos autores levantados, que as delimitações entre criação, produção e circulação seriam, desde os primórdios da cultura otaku, borradas e irrelevantes, pensando na noção de autoria como algo compartilhado, e a discriminação entre original e cópia cada vez mais enfraquecida. Esses aspectos poderiam ser compreendidos, ainda, como essenciais para a constituição de Hatsune Miku, considerando que a maior parte do conteúdo relacionado é produzido e, ao mesmo tempo, consumido pelos fãs, implicando, dessa forma, em uma existência em rede: Miku seria um coletivo de vozes, criações e compartilhamentos, em processo contínuo de construção.
Pesquisadores e interessados em temas relacionados a consumo, cultura pop, estudos japoneses, cultura de fãs, tecnologia e produção de conteúdo.
Beatriz Yumi Aokié mestre e doutoranda em comunicação e semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e integrante do Centro de Estudos Orientais da mesma instituição. Graduada em publicidade e propaganda pela ESPM-SP, atua profissionalmente na área de relações institucionais no segmento cultural.
Referências
- AZUMA, Hiroki. Otaku: Japan’s database animals. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009.
- BLACK, Daniel. The Virtual Idol: Producing and Consuming Digital Femininity. In: GALBRAITH, Patrick W.; KARLIN, Jason G (eds.). Idols and celebrity in japanese media culture. New York: Palgrave Macmillan, 2012, p. 209-228.
- ITO, Mizuko. Introduction. In: ITO, Mizuko; OKABE, Daisuke; TSUJI, Izumi. Fandom Unbound: Otaku Culture in a Connected World. London: Yale University Press, 2012, p. xi-xxxi.
- ZABOROWSKI, Rafal. Hatsune Miku and Japanese Virtual Idols. In: WHITELEY, Sheila; RAMBARRAN, Shara (eds.). The Oxford Handbook of Music and Virtuality. New York: Oxford University Press, 2016, p. 151-171.