O pátio escolar é um dos ambientes mais vivos e animados de uma escola, muitas vezes o mais barulhento também. Mas esse é um barulho muito bem-vindo, pois é sinônimo de diversão, bate-papo, jogos e crianças correndo. Algumas escolas vêm percebendo com preocupação o silêncio dominando esses espaços, com crianças e adolescentes trocando interações reais por telas, transitando entre redes sociais e jogos online.
Aparelhos eletrônicos são fonte de dopamina por meio de estímulos rápidos, oferecendo riscos aos cérebros em formação, ainda muito maleáveis a influências externas. O uso crescente do celular e outros dispositivos eletrônicos pelas crianças e jovens é um problema mundialmente disseminado, e não seria diferente no Brasil.
A tendência preocupa por várias razões. Na perspectiva da psicologia, o desenvolvimento infantil depende em grande medida das experiências a que essas crianças e adolescentes, cujo cérebro ainda está em fase de formação, estão expostos. A escola é um microcosmos da vida social do futuro e onde as crianças começam a exercitar habilidades fundamentais para a vida adulta. É um ambiente único e primordial para o desenvolvimento, em um momento em que começam a se afastar do núcleo familiar para explorar o mundo.
Assim, as experiências vividas, relacionadas especificamente ao contato humano presencial e “olho no olho” são fundamentais. Elas influenciam a estruturação da plasticidade cerebral e permitem que uma variedade de emoções, tão necessárias a todos nós humanos, sejam mais intensamente vivenciadas em um cenário real.
Para o cérebro, os riscos do abuso do uso de telas ainda não foram totalmente mapeados. Sabemos, no entanto, que as grandes empresas contam com uma tecnologia de alto impacto e muito investimento para tornar os aparelhos mais completos e essenciais às nossas atividades cotidianas. Nos dias de hoje, ficou muito difícil organizar nossas vidas sem os inúmeros “apps” que existem e monitoram cada um de nossos passos. Junte-se a isso o fato de que as corporações responsáveis pelas plataformas digitais, por onde todos navegamos, investem em recursos cada vez mais sofisticados que procuram ler cada pessoa por trás das telas, exibindo conteúdos cada vez mais atrativos e viciantes. O resultado é que passamos horas grudados nas telas, sem nos apercebemos disso.
tecnologia pode ser aliada do aprendizado em um mundo digital, mas o estímulo fornecido pelas telas não pode substituir a importância das experiências sensoriais e exploratórias
Pesquisas indicam que o uso frequente de telas na infância prejudica a neuroplasticidade, com alterações no córtex pré-frontal e nos lobos cerebrais responsáveis pelo raciocínio, memória e linguagem. Isso significa que crianças e adolescentes, com o cérebro em formação, se expostos a mais de duas horas por dia às telas recreativas podem ter prejuízo de suas capacidades cognitivas. Esse deve ser, por si só, um fator importante para repensarmos a presença em excesso de telas na vida das nossas crianças e adolescentes.
A tecnologia nesses aparelhos vai muito além do sinal de internet e das telas touchscreen e envolve grande gasto de energia e recursos para desenvolver produtos mais viciantes. O tamanho do aparelho, as cores da tela e até mesmo as bordas arredondadas exercem efeitos de condicionamento sobre nossos cérebros, incentivando o uso por mais tempo. Imagine então o que acontece com as crianças, com seus cérebros ainda em formação e facilmente moldáveis.
São, portanto, inúmeras as evidências de que telas em excesso interferem negativamente no desenvolvimento das crianças, inclusive na capacidade de aprendizagem, qualidade do sono e níveis de ansiedade. No entanto, seria uma ilusão pensar em extinguir o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos na vida de crianças e adolescentes. É preciso, urgentemente, que encontremos o meio do caminho para melhorarmos a relação de todos nós com as telas. Algumas medidas podem ajudar, como limite do tempo de uso, monitoramento do conteúdo consumido e priorização de outras atividades. Como adultos precisamos – acima de tudo – dar o exemplo.
Uma relação saudável com as telas se constrói em casa com regras acordadas entre todos, de forma que o uso seja recreativo e não prioritário. Sabemos que exercitar o cérebro durante toda a vida é fundamental e devemos proporcionar esta oportunidade para nossas crianças. Como a família não está sozinha na educação das crianças, instituições como a escola têm um papel nesse debate. Esse é um tema de interesse de todos!
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Está em discussão na Assembleia Legislativa de São Paulo o projeto de lei das telas, que propõe a redução da presença de aparelhos eletrônicos nas escolas, inclusive no horário do recreio, com exceção de atividades educativas. Acreditamos que a tecnologia pode ser aliada do aprendizado em um mundo digital, mas o estímulo fornecido pelas telas não pode substituir a importância das experiências sensoriais e exploratórias oferecidas por uma praça naturalizada, um parque ou outras áreas de lazer. Esse é o debate mais urgente. Precisamos garantir um futuro saudável, física e mentalmente para as crianças e adolescentes, alcançando uma sociedade melhor.
Dra. Ana Escobar é médica com doutorado e livre docência pela FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e autora dos livros: “Meu filho tá online demais” e “Boas-vindas-bebê” 1 e 2.
Marina Helou é mãe do Martin e da Lara e deputada estadual por São Paulo em seu segundo mandato pela Rede Sustentabilidade.