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Na semana passada , o bravo e diligente leitor desta coluna, com saco pra ler textos longos na internet, deparou-se com um expediente algo raro entre cronistas, que é o de subdividir uma crônica em dois “capítulos,” como num folhetim. A crônica desta semana, portanto, é continuação da anterior, perpetrada ainda em 2015, um ano pra se esquecer, na opinião de muitos.
A minha bizarrice, contudo, tem pelo menos um precedente ilustre: a crônica “A Borboleta Amarela,” do grande Rubem Braga, que é, um dos dois maiores escritores brasileiros de todos os tempos, notabilizado na crônica de jornal e revista como modalidade de alto rendimento literário. O célebre texto da borboleta amarela foi publicado em nada menos que três etapas, em 1952, no extinto jornal cariocaCorreio da Manhã. Eu, de minha parte, me darei por satisfeito com apenas duas etapas, sendo esta, portanto, a segunda e última.
Só pra lembrar, naquelas três crônicas, o velho Braga, a pretexto de seguir o voo errático de uma borboleta, fazia um inventário poético da paisagem física e humana da região central do Rio, com seus edifícios clássicos, como o da Biblioteca Nacional, seus logradouros públicos com namorados e solitários nos bancos de jardim, e suas movimentadas ruas e avenidas. Rubem Braga até acha espaço, na segunda crônica, pra contar uma divertida história protagonizada pelo escritor Lúcio Cardoso, que não vou reproduzir aqui, pois tenho pra mim que, ao terminar de ler este parágrafo, ou mesmo antes disso, você correrá pros braços de mr. Google pra achar as crônicas da borboleta amarela do genial cronista capixaba.
Enfim, na minha modesta croniqueta da semana passada , a locação é uma elegante praia do litoral norte de São Paulo, sendo que por “elegante” estou querendo dizer, evidentemente, praia de gente rica, com belas e descoladas casas a poucos passos da rebentação, e gente “bem” folgando na areia e no mar. Duas típicas madames paulistanas, Mári e Lili, debaixo de uma tendinha chique, conversam entre si e com a empregada de uma delas que lhes veio servir caipirinhas. O tema da conversa é sexo e relacionamentos amorosos. Mári, depois de contar às outras duas como foi que, um belo dia, desistiu do nobre esporte, passa a bola pra empregada, a Zoca, que ia justamente contar à patroa e à amiga dela a mais caliente história de amor que vivenciou em seus bem ajambrados 36 anos de idade, quando o espaço da coluna acabou.
Depondo no chão de areia a bandeja com copos sujos e latas de cerveja vazias que ia levar pra casa, Zoca começa mencionando o estopim da sua história, um irmão dela que andou se metendo com tráfico de drogas e acabou matando um cara, em Porto Alegre, onde a família morava. Preso e condenado, foi parar no deprimente e superlotado Presídio Central, na capital gaúcha.
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
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