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Sexta-feira de carnaval: ignorei o samba. Tive um dia pesado de trabalho e não pretendia gastar minhas últimas reservas energéticas saracoteando num bloco, apesar de um deles, o “Me edita que eu gosto”, me interessar particularmente. Mas a concentração estava marcada pras 5 da tarde, horário em que eu ainda estava concentrado justamente num texto que deverá ser editado em breve por uma editora que — coincidência máxima! — fica bem na rua em que o bloco iria dar a partida, a rua Bandeira Paulista, no Itaim Bibi. O “Me edita que eu gosto” reúne editores, autores, ilustradores, funcionários de editoras, de um modo geral, e, claro, leitores, sem os quais a galera do mundo dos livros não teria como pagar o leitinho das crianças. A marchinha-tema do bloco, foi, a propósito, composta pelo editor e escritor Leandro Sarmatz, da Companhia das Letras, junto com Vico Piovani.
O Leandro eu conheço bem, pois foi colega da minha mulher, que trabalhou na Companhia como editora por duas décadas. Li também alguns contos dele, abordando histórias de judeus e seus descendentes no Brasil. O Leandro, que também é poeta, vive imerso em literatura e nesses dias de carnaval se deixa absorver até a última serpentina pela folia. A marchinha que ele compôs com seu parceiro tem o seguinte refrão:
“Palavra que eu sou apaixonado / Não viro a página dessa emoção / O meu amor já vem todo editado / A minha orelha vai ganhar seu coração.” Palavra, página, orelha (de livro) — estão aí os elementos básicos do ofício de editor. Com o auxílio luxuoso dum pandeiro, duma cuíca e de um tamborim, virou um sambinha sestroso.
No ano que vem, quem sabe eu dê as caras no bloco dos editores e escribas.
Mas naquela sexta o que fiz de fato, com minha mulher, foi marchar sem ritmo e sem lenço, mas com documento e cartão de crédito/débito, até a pizzaria mais próxima de casa. Brinquei ca patroa: “A gente é o bloco ‘Meia muzzarella, meia calabresa’. Você é a muzzarella, eu ‘o’ calabresa. Somos mais gostosos quando comidos juntos”. Madame riu. Ponto pra mim no primeiro dia do carnaval.
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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