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Ali estava o cabide, e pendurado nele meu casaco com meia capa de pura lã de carneiro escocês legítimo. Longo, o casaco me batia pelas botinas, o que me fazia parecer mais alto do que sou. Noutra haste do cabide, meu boné deerstalker, do mesmo tipo usado por Sherlock Holmes, com duas abas, uma na frente, outra atrás, essa descaída sobre a nuca.
Valendo-me dessa ambiguidade básica do boné de duas abas, ao sair à rua costumo colocar uma máscara do Guy Fawkes, o fracassado regicida inglês que quase explodiu com o rei James e todo o parlamento da Inglaterra no século 17, e agora virou símbolo dos anarquistas de rua do mundo todo, que usam aquela máscara para depredar bancos, lojas, lanchonetes do McDonald’s e instituições governamentais tidas como opressivas ou corruptas, contribuindo destarte com a causa dos pedreiros, vidraceiros, vitrinistas, serralheiros, eletricistas e vários outros profissionais envolvidos na restauração dos imóveis atingidos.
Meu interesse pela máscara de Guy Fawkes, porém, é de outra natureza. Eu a coloco, não a cobrir-me a cara, e sim voltada para a parte traseira da minha cabeça, de modo a confundir algum espião, inimigo ou mero bisbilhoteiro que porventura esteja a me seguir, levando-o a crer que eu esteja com a cabeça inteiramente voltada para trás, a encará-lo, embora andando para a frente, impressão sobremaneira pertubadora num dia ou noite de fog intenso. Para reforçar tal impressão, visto o casaco já totalmente abotoado, enfiando-o por cima da cabeça, qual fôra um pulôver, tomando a ardilosa precaução de deixar às minhas costas a frente do dito casaco, com seus botões a postos, reforçando a impressão de que o sósia do Guy Fawkes está, de fato, andando de costas.
E, last but not least, como diria o supracitado Sherlock, adaptei nas minhas botinas um longo bico a se projetar do calcanhar para trás, acentuando ainda mais a impressão de alguém que comete a extravagância de andar de costas pelas ruas. Devo confessar que botinas dotadas de longos bicos afixados nos calcanhares impõem não poucas dificuldades ao andar, forçando-me a alçar o joelho da perna que vai dar o próximo passo, como um militar em marcha de gala diante do palanque das autoridades.
São pequenos incômodos que, todavia, em muito contribuem para manter um detetive particular perfeitamente seguro e incógnito, duas condições fundamentais para o bom desempenho desse antigo métier. Pois foi de tal maneira ataviado que saí à rua num dia que parecia noite, tão encoberto estava o céu, mar de nuvens de fuligem e maus presságios a pairar sobre a cabeça das pessoas, em busca de pistas que me levassem a algum tipo de evidência de alguma espécie de crime que rendesse uma investigação complexa, de interesse científico e, quiçá, literário.
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
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