Coluna

Reinaldo Moraes

A cama do grão-fantasma

09 de junho de 2016

Compartilhe

A principal lembrança que Baby Pignatari me desperta está relacionada não às atrizes glamurosas que ele namorou, mas ao teco-teco que motivou a abertura de centenas de aeroclubes por todo o país

O homem na motocicleta parece embrulhado em muitas malhas e casacos, além do gorro de estilo andino com protetor pras orelhas, tudo muito adequado aos 5º C que está fazendo na cidade-fantasma nesta manhã. O bagageiro da moto é ocupado por um engradado que acondiciona garrafas PET cheias de leite recém-saído do úbere de alguma vaca pródiga. Tico, como é conhecido o motoqueiro, se explica:

— Sou eu que alimento as criancinhas de Minas de Camaquã. Mas só alimento. Não faço elas, não.

E ri, gostoso, da tirada que já deve ter repetido centenas, talvez milhares de vezes ao cruzar com visitantes da localidade, sede da Companhia Brasileira de Cobre, fundada em 1942 por Baby Pignatari, o lendário magnata-galã, conquistador emérito de corações ilustres. Minas do Camaquã, no sudoeste do Rio Grande do Sul, situada num pequeno vale rochoso, tem a injustificada fama de ser uma cidade-fantasma por ter sido semi-abandonada a partir dos anos 1980, quando a mineração do cobre, iniciada por numa companhia belga em 1865, tornou-se economicamente inviável na região. No seu ápice chegou a abrigar 5 mil almas. Conta hoje com cerca de 450 habitantes fixos, a maioria envolvida com as pousadas que se instalaram nas edificações abandonadas, pois o lugar, ao lado das minas de cobre subterrâneas e a céu aberto exploradas pela CBC, virou uma florescente atração turística.

Fui parar ali por culpa da Carol Bensimon, escritora portoalegrense que tem uma excelente road novel intitulada “Nós que adorávamos caubóis”, ambientada, num de seus trechos, em Minas do Camaquã. Nesse romance, uma narradora e sua amiga-amante, ambas gaúchas, saem de carro meio à esmo por estradas vicinais que vão dar em localidades do interior de seu estado à margem de roteiros turísticos, inspiradas pelo filme “Thelma & Louise”, road movie de 1991 estrelado por  Susan Sarandon e Geena Davis, com direção de Ridley Scott.

Ao contrário do filme, porém, o livro da Carol não comporta peripécias sangrentas nem acaba num espetacular suicídio automobilístico. Trata-se do registro delicado de um relacionamento amoroso entre duas garotas, amigas e antigas namoradas secretas, que estudam fora do Brasil, uma no Canadá, outra na França, e voltam à terra natal nas férias para visitar as respectivas famílias, aproveitando o reencontro para pôr em prática o antigo projeto dessa viagem romanesca.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

Navegue por temas