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Ele se chama Roberto. Ninguém o chamava de Beto. Nem de Bob. É Roberto pros familiares e amigos e doutor Roberto pro resto da humanidade. A história do Roberto começa há mais de 30 anos quando ele ingressou na administração pública estadual pela porta de uma Fundação ligada ao gabinete do governador. De que Estado, não vou dizer. Nem há necessidade, você verá. No primeiro ano trabalhando na Fundação, Roberto, dono de um diploma de administração expedido por uma faculdade particular mequetrefe, mas homem do mais refinado senso de oportunidade, fez bons amigos e ganhou a confiança da diretoria, que o incumbiu de uma primeira missão importante: montar um departamento de audiovisual. O diretor geral queria gravar palestras e cursos de treinamento e precisava de um equipamento completo de vídeo e edição, operado por técnicos competentes que o próprio Roberto contrataria. Os equipamentos, ainda dos tempos da betacam, eram todos importados e caríssimos, mas a Fundação iria disponibilizar toda a verba necessária. Roberto fez uma tomada de preços na praça e optou por uma importadora que ninguém conhecia, mas que apresentava o melhor pacote entre todos os concorrentes.
O equipamento, coisa de mais de US$ 100 mil, chegou direitinho na Fundação, com todas as devidas notas fiscais. O que ninguém ficou sabendo é que o material era todo contrabandeado e tinha saído pela metade do preço. Roberto embolsou algo como 50 mil doletas na operação. 45 mil, na verdade, pois US$ 5 mil ele deu prum despachante alfandegário que forjou toda a documentação legal apresentada à controladoria da Fundação.
Foi uma bela transação que deu início a uma longa e profícua carreira do doutor Roberto na administração pública, onde viria a participar de leilões de empresas públicas, licitações para grandes obras, envolvendo as maiores empreiteiras do Brasil, administração de fundos de pensão de órgãos estatais, além de integrar importantes assessorias financeiras de bancos estatais. O doutor Roberto circulava com desenvoltura, como se diz, por ministérios e gabinetes de deputados, senadores, prefeitos de capitais e governadores. Chegou até mesmo a bater bola com um presidente da República num domingo “endolarado”, ops, ensolarado na Granja do Torto, em Brasília, com direito a churrasco, chope e caipirinha. Também dividiu com ele mesa em alguns dos melhores restaurantes do Brasil e do exterior, erguendo brindes com vinhos de mil euros a garrafa, enquanto se discutia as polpudas “taxas de administração” a serem embolsadas pelos intermediários envolvidos nas tenebrosas transações de que fala um certo samba do Chico Buarque. Tenebrosas, mas rotineiras, graças a homens de faro fino para bons negócios, como o doutor Roberto.
Quando, dois anos atrás, um doleiro safardana mencionou seu nome numa delação premiada, no contexto da Operação Lava Jato, ligando o versátil doutor Roberto a empresas “offshores” plantadas em paraísos fiscais, contas na Suiça, lavagem de dinheiro “propinático”, superfaturamentos de obras públicas e outros instrumentos e modalidades de corrupção, envolvendo de dezenas a centenas de milhões de dólares, o doutor Roberto acionou o melhor escritório de advocacia de São Paulo. Por via das dúvidas, tomou também a iniciativa de ensacar cerca de US$ 30 milhões que ele mantinha estocado no quarto do pânico de sua mansão em Alphaville. Botou os sacos no amplo bagageiro de seu Range Rover Holland & Holland de R$ 1,2 milhão, único exemplar do exclusivíssimo SUV a rodar no país, e avisou a esposa que iria sumir por uns tempos, e sem celular, de modo a não ser rastreado. Nem a ela revelou seu paradeiro, por segurança, ele asseverava. Na paralela, convocou a Francineide, uma antiga secretária sua e, desde sempre, amante em tempo integral, e se mandou com ela e a grana pro sítio discreto que mantinha na Mantiqueira, registrado em nome de um laranja. Se aqueles putos daqueles promotores da Lava Jato o indiciassem e seus advogados não conseguissem livrá-lo de uma temporada na gaiola curitibana, pelo menos aquelas 30 milhões de verdinhas estariam a salvo, garantindo um tranquilo recomeço de vida em algum canto aprazível do planeta.
O doutor Roberto e a bela Francineide, morena de cabelos pintados de loiro e enxutos 30 aninhos, dona de um corpão voluptuoso, chegaram no refúgio do sul de Minas no meio da madrugada. Era inverno e o termômetro despencara pra -2ºC. O diligente executivo encarregou Fracineide de acender a lareira e preparar o fondue que eles iriam romanticamente degustar logo mais, nus, em cima do tapete de pele de carneiro australiano diante do fogo, com o réchaud da massa de queijo em cima de uma coffee table. Francineide sabia exatamente como proceder, pois já havia participado algumas vezes daquelas saborosas e gozosas cerimônias secretas com doutor Roberto nos altos da Mantiqueira, a cavaleiro de um vale sempre verdejante, eriçado de altivas araucárias.
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
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