Coluna

Reinaldo Moraes

Amores velozes

22 de julho de 2016

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O problema é que não há speed datings pra caras da minha idade. A solução, que eu chamaria de “alternativa Temer”, seria me filiar ao PMDB e correr para a próxima convenção do partido, de preferência no interior

O que fazer pra arranjar um corpo&alma pra chamar de seu? Um parceiro ou parceiro por uma noite, alguns meses, anos, ou mesmo pela vida inteira, com direito à procriação desses seres estranhos e complicados que chamamos de filhos e filhas? Numa cidade como São Paulo, com cerca de 12 milhões de habitantes, a tarefa não parece particularmente difícil, com essa enorme oferta virtual de c&a’s. Botando 12 milhões de seres humanos na sua peneira, ao menos uma mulher ou um homem deveriam cair na sua cama. Mas se você acha isso mesmo é porque não mora em São Paulo, território de guetos antagônicos e de solidões incomunicáveis. Na realidade, há por essas ruas e avenidas milhões de corpos & almas ansiando por um aquecedor biológico, do gênero sapiens, pra enfrentar esse inverno. E a grande maioria deles e delas ficará só na vontade. E no frio.

Os aplicativos de paquera on line, como o Tinder, estão aí pra tentar resolver a questão, e eu conheço várias pessoas, todas ainda jovens – entre 25 e 45 – que usam, abusam e se lambuzam apelando pra eles. Quando eu estava nessa faixa de idade, na era p.i. (pré-internet), as pessoas transáveis se encontravam em locais onde era possível o contato cara-a-cara, como trabalho, festas e reuniões, bares e, mais raramente, pelo menos em Sampa, ruas e logradouros públicos. Não era preciso ter smatphones. Você é que tinha de ser smart, além de projetar uma imagem física e comportamental atrativa o bastante pra se fazer interessante pra alguém.

Num passado ainda mais remoto do que esse que eu habitei, também havia formas indiretas de contato entre pessoas distantes que não se conheciam, sendo o correio o veículo por excelência desses contatos. Elas trocavam cartas e fotos, e até mechas de cabelo, antes de se verem frente a frente. Isso aconteceu, por exemplo, com D. Pedro 2 o, que, coroado imperador do Brasil, carecia de uma princesa pra posar de imperatriz. Um emissário foi enviado às cortes da Europa com a missão de garimpar uma princesinha disponível para o nosso Pedrocas Segundo. Mas as princesas que se encaixavam nesse perfil e, sobretudo, seus pais monarcas, olhavam com desconfiança praquele império longínquo e selvagem, onde, acreditavam, doenças tropicais terríveis, feras medonhas, revolucionários famigerados e canibais famintos grassavam em nossas plagas, no que não deixavam de ter certa razão.

O melhor que o emissário pôde arranjar foi uma princesa de 21 anos, Tereza Cristina, nascida em Nápoles, filha do rei Francisco I, titular do Reino das Duas Sicílias, do ramo italiano da Casa de Bourbon. Sua mãe era a infanta Maria Isabel, da Espanha. Os dois trocaram retratinhos pintados a óleo, e o dela teria provocado suspiros e eventuais ereções no jovem monarca brasileiro, boa pinta, loiro e de olhos azuis.

Mas quando a verdadeira Tereza Cristina desembarcou do navio no Rio de Janeiro, já casada por procuração com o imperador brasileiro, dizem que D. Pedro 2 o mal conteve as lágrimas diante da princesinha feiosa, gordota, sem graça e manca. Mesmo assim, viveu em boa paz com a Terezinha de Nápoles, que muitos descreviam como uma intelectual cativante — era versada em arqueologia –, com quem teve quatro filhos, prova de que, bem ou mal, sua imperial consorte acabou por lhe despertar a libido. Bem verdade que o imperador não deixou de compartilhar essa mesma libido com uma série de amantes, mas isso era de praxe na época. Pelo menos não eram empresas privadas com interesses junto ao estado que pagavam as contas de suas amiguinhas.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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