Coluna

Reinaldo Moraes

Ouvindo coisas

11 de agosto de 2016

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‘Eu sei o quanto é difícil encaixar na sua percepção humana que você se encontra agora falando com Deus’, dizia a voz. ‘Difícil de engolir, reconheço. Mas é exatamente o que está acontecendo neste exatíssimo momento: você está em contato direto com o supremo ser divino que rege essa bagunça cósmica chamada de universo.’

Todo andarilho costuma falar sozinho. Pode até tomar cuidado pra não labializar as palavras e passar por louco nas ruas. Mas batendo calçadas, trilhando picadas, se embrenhando pelo mato, ou deixando suas pegadas fugazes na areia de uma extensa praia, há sempre um intenso diálogo rolando na cabeça do andarilho, também chamado de flâneur quando a andança é meramente lúdica, aleatória e sem destino preciso.

A mente humana, em certas circunstâncias, pode se multiplicar em muitas, talvez infinitas vozes, todas defendendo pontos de vista diferentes e, não raro, antagônicos. Na minha cabeça, pelo menos, esse fenômeno chegou a tal ponto que eu já não sei mais dizer se todas essas vozes são desdobramentos da minha própria voz original, ou se uma ou outra voz que se faz ouvir nessa assembléia mental não está vindo de fora, de longe, de outra dimensão, quem sabe.

Tento aqui reproduzir mais ou menos uma dessas vozes que se fez ouvir na minha cachola viajandona enquanto eu caminhava pela avenida Paulista dia desses. Ao passar em frente à Fiesp, bastião do conservadorismo burguês da nação e epicentro das manifestações antidilmistas desde meados de 2013, a voz, masculina, pediu licença e me disse:

“Com licença, cavalheiro. Gostaria de me apresentar. Sou Deus.”

Olhei praquela pirâmide Maia onde instalaram a Fiesp e achei que a voz de Deus poderia estar sendo emitida de algum gabinte importante da poderosa federação dos industriais paulistas. Um daqueles magnatas podia estar tendo um surto psicótico de megalomania divina tão intenso que suas ondas mentais logravam se sobrepor ao carfanaum de emissões das dúzias de antenas instaladas nos prédios da avenida e penetrar no meu cérebro.

Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.

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