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O lugar: um ponto alto da banda mineira da serra da Mantiqueira, a 1.350 metros do nível do mar, no meio de um jardim com grama aparada e altivas araucárias. Tem um riacho correndo sonoro nas imediações, passarada desenhando trinados na pauta do ar, um casal de jacus galinhando pelo gramado, uma araponga de gogó metálico reclamando ao longe – felizmente, bem ao longe -, siriemas pernaltas caçando lagartos ou alguma cobrinha desavisada, e eu, instalado na varanda dessa casinha de roça, piquininha, mas assaz confortável, que alugo em parceria com um amigo. Sempre venho pra cá com um monte de coisa pra escrever e ler. Escrevo e leio, dou uma caminhada e volto a escrever e ler. Tomo um vinho à noite, ao pé da lareira, se estiver muito frio. E escrevo mais um pouco tomando vinho. Aqui não pega celular nem sinal de internet.
Outra coisa que faço aqui, essa inevitável, em meio a tamanha solidão, é pensar, pois isto aqui é uma máquina de introspecção profunda. Claro que pra escrever, por exemplo, é preciso pensar, um pouco, pelo menos, muito embora, ao reler um texto meu no dia seguinte, muitas vezes vejo o quão pouco houve, de fato, de pensamento que preste envolvido ali. E é lógico que ler é sempre assimilar o pensamento verbalizado que alguém deitou no papel. Ou seja, é preciso pensar o pensamento do autor, seja ficcionista, ensaísta, o que for.
Estou falando, no entanto, de pensar por pensar. Pensar em si, não pra escrever ou entender texto de ninguém. Só pensar. Como agora, que me deu na soleníssima veneta a ideia de retroceder no tempo em busca das minhas identidades perdidas num passado que já vai lá roçando as barbas do imperador. Um terapeuta de vidas passadas de mim mesmo, eis no que comecei a me arvorar. Um arqueólogo das minhas antigas identidades.
Porque me parece intuitiva a noção de que não temos uma única identidade na vida, um temperamento só, um caráter imutável. Isso tudo, que eu entendo como sendo a alma de uma pessoa, isso vai mudando com as fases da vida de cada um, demarcadas tanto pelo simples correr da idade, quanto por eventos transicionais que te jogam em outro patamar existencial, como uma formatura, um casamento, um novo emprego, nascimento de filho, a sonhada aposentadoria, e por aí vai. (Sem falar nos infortúnios da vida, que los hay, los hay. Toc-toc-toc.)
Pra iniciar essa viagem de volta no tempo com o intuito de encontrar minhas almas anteriores, formulei a singela questão: quem era eu e o que estava fazendo há 15 minutos?
Reinaldo Moraesestreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz (ed. Brasiliense) Em 1985 publicou o romance Abacaxi (ed. L&PM). Depois de 17 anos sem publicar nada, voltou em 2003 com o romance de aventuras Órbita dos caracóis (Companhia das Letras). Seguiram-se: Estrangeiros em casa (narrativa de viagem pela cidade de São Paulo, National Geographic Abril, 2004, com fotos de Roberto Linsker); Umidade (contos , Companhia das Letras, 2005), Barata! (novela infantil , Companhia das Letras, 2007) , Pornopopéia (romance , Objetiva, 2009) e O Cheirinho do amor (crônicas, Alfaguara, 2014). É também tradutor e roteirista de cinema e TV.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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