Coluna
Denis R. Burgierman
Olha o golpe aí. E não estou nem falando do impeachment
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Esta semana foi decisiva no eletrizante enredo do drama político brasileiro, de fazer inveja aos roteiristas de “Game of Thrones” (nem vou mencionar “House of Cards”, que virou coisa de amador). Como acontece nas melhores séries gringas da TV, peças que pareciam tremendamente distantes no tabuleiro começaram subitamente a se mover de maneira sincronizada, rumo a um desfecho chocante, inesperado. E trágico.
De um lado, tudo indica que o novo juiz do Supremo será mesmo um político amante do poder, umbilicalmente ligado ao PSDB e ao PMDB, com reputação de ser um soldado, desses que fazem o que precisa ser feito. Alexandre de Moraes não é o primeiro ministro do Supremo com forte conexão a um partido político. Gilmar Mendes trabalhou no governo de FHC e é obviamente próximo do PSDB, Dias Toffoli foi advogado do PT antes de trabalhar no governo Lula. Ambos são frequentemente acusados de fazer jogo partidário dentro do principal tribunal da Justiça brasileira – em geral um em oposição ao outro. O interessante é que Moraes, segundo apurou o Radar, da Veja , parece ter chegado ao cargo graças à articulação de ambos nos bastidores – Gilmar e Toffoli trabalharam juntos para escolher o novo colega. Indício de que as cúpulas dos arquirrivais PT e PSDB, assim como o pivô da discórdia entre eles, o PMDB, parecem estar alinhados, pelo menos em alguma coisa.
Outro indício vem da Câmara dos Deputados, onde uma ampla articulação de praticamente todos os partidos – PT, PSDB e PMDB incluídos – prepara-se para usurpar o poder do Tribunal Superior Eleitoral. Nas palavras do colunista Josias de Sousa , o que os políticos estão prestes a conseguir é uma “licença para assaltar dinheiro público”. Simplesmente, os partidos ficariam blindados de punição, desobrigados de prestar contas dos bilhões de reais que recebem do Fundo Partidário, bancado pelo contribuinte. Enquanto isso, no Senado, um presidente com fortes suspeitas de corrupção é substituído por outro com fortes suspeitas de corrupção, numa clara demonstração de que nada está mudando e que Moraes não precisa se preocupar – vai ser mesmo confirmado como ministro.
Junte a esse cenário a continuidade da gastança dos políticos – que fica intocada diante de uma estratégia de enfrentar a crise econômica apenas com a redução dos gastos sociais – e o enfraquecimento dos órgãos de controladoria e das agências que defendem o interesse público. Acrescente ainda as tentativas de eliminar da Matrix todos os partidos que não fazem parte do esquema (que já são pouquíssimos), pela imposição da cláusula de barreira. Aí fica difícil negar que tem um golpe em curso: um golpe perpetrado pela elite da classe política e pelos seus financiadores, contra o resto de nós.
O golpe passa por um ataque brutal contra nossos recursos naturais, nossa diversidade cultural, nossos direitos humanos e o potencial de nossas crianças. Ao enfraquecer agências de controle, desprezar salvaguardas e direitos, relativizar a proteção da Constituição e sucatear saúde e educação, a classe política enche sua pança e a de seus aliados ao custo de devorar nosso futuro.
Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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