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Denis R. Burgierman

Aí a sociedade vai lá e resolve

16 de fevereiro de 2017

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O que está acontecendo agora no Brasil em relação às regras para o uso da maconha é impressionante. Governo e autoridades, como de hábito, só atrapalham

“O que eu aprendi é que o fato político, o fato judicial, tudo isso é um teatro”, diz o advogado Emílio Nabas. “A única verdade que existe é o fato social – é o que me dedico a produzir.” Emílio é um entre muitos brasileiros – advogados, médicos, farmacêuticos, pais, mães, pacientes, cultivadores – que decidiram recusar as regras burras do Estado brasileiro em relação aos usos da maconha e mudar a realidade com suas próprias mãos.

O mais incrível é que, apesar do desenho kafkiano de nossas instituições e das autoridades patéticas que as dominam, eles estão conseguindo. Três famílias brasileiras já mantêm cultivos de maconha absolutamente legalizados dentro de suas casas, para medicar suas crianças, todas portadoras de síndromes raras e difíceis que causam grande quantidade de convulsões, levando a risco de vida e sérios obstáculos ao desenvolvimento. Emílio ajudou as três a obter o habeas corpus que lhes permite cuidar da saúde de seus filhos.

Nas próximas semanas, ele e mais de uma dezena de colegas vão fundar a Reforma, uma associação de advogados, sem fins lucrativos, para defender pacientes e cultivadores de maconha do absurdo da lei. “Nossa prioridade agora é conquistar uma vitória como essa para um adulto”, diz Emílio, que defende vários pacientes com câncer, esclerose múltipla e outras doenças complicadas que respondem bem ao tratamento com maconha. “Em 2017, queremos ver uma avalanche de habeas corpus”, diz.

O Estado falhou miseravelmente com milhares de pacientes, adultos e crianças, que sofrem desnecessariamente com tratamentos caríssimos, ineficazes e cheios de efeitos colaterais quando podiam se tratar com melhores resultados com uma planta barata, bastante segura e fartamente disponível. O primeiro estudo brasileiro mostrando o tremendo potencial da maconha para tratar convulsões é de 1980 – mais de 30 anos se passaram sem que a agência que aprova tratamentos no país avançasse 1 centímetro para testar e regular o uso do remédio.

“Quando a molécula é natural, é assim mesmo: nada acontece”, diz a farmacêutica Virgínia Carvalho, da UFRJ. “Mas, quando a indústria farmacêutica criou em 2000 uma versão sintética do THC, um dos princípios ativos da maconha, a Anvisa levou apenas alguns meses para colocar na lista A, das substâncias permitidas”, compara Virgínia. Fácil entender por quê: moléculas sintéticas podem ser patenteadas, substâncias da natureza não, e portanto não enchem o cofre de nenhuma farmacêutica. O problema é que, além de custar muito mais caro, o THC sintético funciona bem pior e oferece mais riscos do que a planta em estado natural. Se as autoridades estivessem mesmo preocupadas com o interesse público, já teriam aprovado essa alternativa há muito tempo.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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