Coluna

Denis R. Burgierman

Algo de podre no reino da agroindústria

23 de março de 2017

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Tem algo cheirando mal no sistema – e não me refiro só à carne

Minha maior surpresa com o escândalo da carne, na semana passada, foi a surpresa de tanta gente. Sério mesmo que o pessoal não esperava que a indústria mascarasse o cheiro e o gosto da carne vencida, para economizar na matéria-prima e não perder receita das vendas? Cara, desculpa se sou eu a lhe abrir isso, mas é assim mesmo que as coisas têm funcionado.  Especialmente no Brasil.

O país é uma megapotência agropecuária. Somos os maiores exportadores do mundo de frango, soja, suco de laranja, açúcar, café, suco de frutas, estamos no rumo para nos tornarmos na próxima década os maiores produtores do mundo de todo o setor. Orgulho. Vai, Brasil.

Mas é engraçado que esse meu orgulho pátrio nem sempre encontra eco nas reações dos amigos que faço pelo mundo. Este mês entrevistei uma sul-africana aqui em São Paulo – almoçamos juntos. Ela ficou aliviada quando viu que o cardápio do evento era massa. “Comemos muito frango brasileiro na África do Sul. Tenho que confessar que eu odeio.” Tenho uma amiga colombiana que sempre que me encontrava fazia questão de me relembrar que o café brasileiro de má qualidade e preço baixo que inundou o mercado internacional quebrou um monte de fazendeiros que faziam cafés incríveis nas montanhas da região onde ela nasceu, nos Andes.

Engraçado também que uma potência agropecuária, responsável por uma porcentagem considerável de toda a produção mundial de alimentos, abençoada com uma quantidade surreal de recursos naturais, coma tão mal. Em nenhum outro lugar do planeta usa-se tantos agrotóxicos quanto aqui, com consequências imprevisíveis, a longuíssimo prazo. “Eu recebo os melhores chefs do mundo – e não consigo encontrar no mercado um ingrediente realmente bom para mostrar a eles”, me disse certa vez o cozinheiro Alex Atala, que ao mesmo tempo fica encantado com a riqueza alucinante de sabores que a fauna e flora brasileiras oferecem. Não são só os chefs que se incomodam: a comida que se encontra no supermercado em boa parte do país é padronizada demais, sem a diversidade alucinante dos verdadeiros paraísos gastronômicos do mundo, como Peru, Espanha e Vietnã, e não vou nem começar a falar sobre Itália, França e Japão. É assim que é. É assim que tem sido.

Há muito tempo, o sistema político brasileiro fez uma escolha, consciente ou não: o país iria se especializar em produzir em grandíssima escala, para competir apenas no preço. E a esquerda que não me venha culpar a direita – e nem a direita venha culpar a esquerda. Essa escolha foi conjunta, do sistema político inteiro, de Kátia Abreu a Blairo Maggi, do PT ao PSDB, passando pelo sempre fluido PMDB.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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