Coluna

Denis R. Burgierman

E agora?

13 de abril de 2017

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Não é que haja corrupção no Brasil. É mais profundo que isso: corrompeu-se a própria ideia de país. Que seja uma oportunidade

Acabou a ilusão.

Com as últimas revelações das delações da Odebrecht, não tem mais como negar. Corrupção no Brasil não é falha moral de uns ou de outros: é o jeito de funcionar da nossa democracia. É o modelo de negócios do nosso sistema político. É a forma pela qual o poder é exercido – quanto mais poder um partido tem, mais gente se enlameou, não importando a ideologia.

Não é que haja infiltrações de esgoto vazando por rachaduras e escorrendo pelas paredes de nossa representação, é muito maior e mais profundo do que isso: o Estado todo está submerso nesse líquido viscoso e fétido. Não é que haja corrupção no Brasil: corrompeu-se foi o Brasil, ele todo. Corromperam-se as próprias ideias de república, de democracia, de direitos, de política, de poder, de Justiça, de Estado, de país.

Tem um lado meu que sente alívio.

Afinal, já fazia muitos anos que algo não cheirava bem. Bastava levantar o capô de cada uma de nossas instituições – os partidos, o Congresso, a Justiça, a mídia, a polícia, o negócio – para sentir um desconforto. Por fora, elas seguiam funcionando: máquinas girando engrenagens todos os dias, milhões de pessoas trabalhando de manhã até de noite e voltando para casa satisfeitas, com ar de missão cumprida. Mas, no fundo do meu estômago, faz tempo que eu sentia que algo não estava certo. Que não deveria ser assim. Que nada justificava tanta destruição ambiental, tantos projetos ruins, tantas opções erradas. Quase nunca o que se decidia nos bastidores do poder atendia aos interesses do país. Atendia ao interesse de quem então? Agora, com as denúncias explodindo, finalmente estamos entendendo a resposta.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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