Coluna

Denis R. Burgierman

O fim do PSDB (ou, no mínimo, o das ilusões)

16 de junho de 2017

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A não ser que se feche os olhos com muita força, ficou impossível defender o partido

Não faz nem um ano, a mídia e a internet estavam cheias de gente anunciando o fim do PT. Naquela época – parece que foi séculos atrás –, o partido de Lula estava no centro da crise política (aliás, muitos sustentavam que ele era a crise política). Sua imagem havia sido devastada pelas delações do senador Delcídio do Amaral, detido em novembro de 2015, e a Operação Lava Jato ia fazendo o teto desabar sobre o partido. Junte a esse quadro de descalabro a decepção do seu próprio eleitorado, que lhe havia dado a vitória em 2014, na eleição para presidente, apenas para ser traído em seguida, quando Dilma montou um ministério que significava o exato oposto de tudo que foi prometido em campanha. Com seus inimigos furiosos e seus amigos desapontados, o PT perdeu mais do que votos: perdeu a narrativa que justificava sua existência. Ficou basicamente impossível defender o Partido dos Trabalhadores, a não ser fechando os olhos para a realidade com muita força.

Pois, para mim, parece bem claro que hoje é o PSDB que está nesse mesmíssimo lugar. E que, se um ano atrás a conversa era sobre “o fim do PT”, faz sentido discutir agora “o fim do PSDB”. Após o presidente do partido ter sido flagrado falando como um mafioso ao telefone, conversando com naturalidade sobre matar delatores e apanhar malas de dinheiro, o discurso anticorrupção que havia feito tanto sucesso com candidatos tucanos na eleição de 2016, na qual o PT foi o maior perdedor, ficou meio prejudicado. Com as novas delações, como a da Odebrecht e da JBS, ficou claro que a corrupção está tão entranhada no PSDB quanto está no PT. Aí, nesta semana, o partido traiu praticamente todo o seu eleitorado e resolveu continuar apoiando o “inapoiável” governo Temer. Ficou impossível defender o PSDB, a não ser fechando os olhos com muita força.

Não que falte gente por aí fechando os olhos com muita força, insistindo em defender tanto um quanto o outro. O clima polarizado favorece a autoilusão: defende-se um só porque é o único jeito de derrotar o outro, que é o mal absoluto. Mas é preciso reconhecer que esses dois partidos que balizaram a política brasileira nas últimas três décadas vivem as maiores crises existenciais de sua história.

Não é exclusividade deles. Muito longe disso, aliás. A lama se espalhou por praticamente todo o sistema partidário. Nem menciono aqui PMDB, DEM, PP ou os micropartidos de aluguel, porque faz tempo que ninguém espera muito deles. Mas o fato é que as delações da Lava Jato pintam um quadro bem mais complexo do que muita gente supunha um ano atrás. A distribuição de propina pelo sistema político claramente não se concentra em partido algum: ela se dá de maneira bastante equânime, com a quantidade de dinheiro ilegal recebido variando na mesma proporção que a quantidade de poder que cada partido tem.

A desmoralização, aliás, não se limita aos partidos. O Poder Judiciário, que vinha passando mais ou menos incólume diante da opinião pública, também está na berlinda agora. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que é o órgão responsável por fiscalizar eleições, saiu humilhado daquele que pode ter sido o caso mais importante de sua história, encerrado na semana passada. Ao escolher fechar os olhos para provas que não interessavam, o tribunal, distorcido por juízes indicados pelo próprio réu, tentou normalizar a situação do país, governado pelo presidente mais manchado de corrupção de toda a história. Se o TSE não é capaz de cassar um presidente tão obviamente culpado de ter favorecido financiadores de campanha em troca de dinheiro, para que ele serve então?

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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