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Muito se falou sobre a possível candidatura “outsider” de Luciano Huck. Mas pouco se falou que essa sondagem era resultado direto do fracasso da própria política tradicional. Essa é a mesma razão pela qual surgiram diferentes movimentos pela renovação política pelo país. Embora eles, inevitavelmente, não tenham respostas definitivas para tudo – porque ninguém as têm –, agregam quem está tentando furar o paredão da política oligárquica e mofada que ainda domina o Brasil.
Não faltaram analistas esbravejando porque um candidato à presidência, com chances reais de vitória, era alguém de fora do sistema tradicional. Outros críticos diziam que um apresentador de TV não seria um candidato preparado, nem saberia o que fazer após as eleições. Pois bem, já houve tempo que falavam isso de um torneiro mecânico também. Alguns outros analistas, ingênuos ou mal informados, dão a entender que muitos movimentos de renovação não conhecem os desafios eleitorais que têm a frente. Segundo alguns, parecem que todos ignoram a política.
Será mesmo o que vemos em Brasília a única forma de se fazer política? Não dá para melhorar? Não é possível converter conhecimento em inovação? Não há partidos dispostos a hospedar gente que pensa diferente? E por que há tanto analista apegado ao status quo? Por que alguns analistas que se dizem progressistas na política têm um comportamento flagrantemente conservador em relação ao tema da renovação? Até que ponto alguns analistas de plantão não naturalizaram os conhecidos problemas da política brasileira?
Tendo a concordar que, em condições normais de temperatura e pressão, um candidato à presidência deveria ter experiência política e administrativa na área pública. Mas não vivemos essa calmaria toda para defender esse ponto de forma teimosa. Além disso, é importante reconhecer, não há relação causal entre quilometragem na política e gestão exitosa de um governo. Ao mesmo tempo, é impossível imaginar que uma renovação de qualidade dos quadros do Congresso virá das juventudes partidárias. Até porque o maior problema da política brasileira é a percepção que a classe política ignora a própria sociedade. E a política serve para que mesmo? Não por acaso, a confiança da população no Congresso e nos partidos não chega a dois dígitos.
Lembro-me da pergunta pública que o movimento Onda Azul, do qual fui um cofundador, colocou ao PSDB em dezembro de 2014, logo após a derrota de Aécio Neves: não está na hora de o partido promover democracia interna, transparência e inteligência por meio do seu instituto de formação para preparar uma nova geração de lideranças? Três anos depois que o movimento desistiu da filiação coletiva ao PSDB e, posteriormente, diversos nomes do partido passaram a frequentar listas de investigados por corrupção, o presidente interino do partido, o senador Tasso Jereissati, lançou um propaganda na TV assumindo que o PSDB havia errado e que precisava se renovar para se conectar à sociedade. Não demorou muito para que Jereissati, um senador com a reputação incólume, fosse afastado da presidência interina do partido pelo então presidente Aécio Neves, quem enfrenta sérios problemas com a Justiça.
Humberto Laudaresé especialista em políticas públicas e desenvolvimento. É Ph.D em Economia pelo Graduate Institute, em Genebra (Suíça), e mestre pela Universidade Columbia (Estados Unidos). Fez Ciências Sociais na USP e Administração na FGV de São Paulo. Trabalhou com políticas públicas em governos, no parlamento e em organismos internacionais. Para acompanhar sua página no Facebook: www.facebook.com/laudares
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