Coluna

Denis R. Burgierman

Doria e o erro de escolher com o fígado um político unidimensional

11 de abril de 2018

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A gestão do agora ex-prefeito de São Paulo poderia ter sido uma novidade boa para essa cidade tão precisada. Não foi

Quando João Doria assumiu o cargo de prefeito de São Paulo, 15 meses atrás, não era absurdo acreditar na possibilidade de uma boa gestão. Apesar da falta de consistência de várias de suas ideias, ele reuniu ao redor de si um time pontuado de gente incomum, escolhida não por suas conexões com a direção dos partidos mas por conhecerem os temas e demonstrarem vontade genuína de mudar a lógica das coisas. Não é corriqueiro ter Alexandre Schneider como secretário da Educação, nem Daniel Annenberg secretário da Inovação, para citar dois exemplos. Fosse mesmo Doria um bom gestor, desses que deixam a equipe voar, podia ter sido uma bela novidade para esta cidade tão precisada.

Infelizmente, não foi.

O governo Doria terminou semana passada, 33 meses antes da hora – o prefeito largou o emprego em busca de promoção, na eleição para governador, parada intermediária em seu hoje evidente plano de virar presidente. Difícil qualificar a gestão com uma palavra mais positiva que “fracasso”. Quase nenhuma de suas metas foi cumprida e sua aprovação , altíssima no início do mandato, hoje está abaixo da de todos os seus antecessores recentes.

Doria provou que não passa de um político comum quando justificou o mau resultado botando a culpa nos outros: jogou o mimimi de que seu antecessor, Fernando Haddad, deixou-lhe um rombo, e que por isso não conseguiu trabalhar. O expediente de não assumir a responsabilidade diante das metas não é atitude de gestor que se preze – entrega sua falta de comprometimento com elas.

Verdade que não é fácil governar sem dinheiro, e que os gestores públicos do Brasil todo estão com os cofres vazios, nestes tempos de crise econômica. Mas muito do impacto positivo que um prefeito pode fazer na vida de uma cidade independe de dinheiro, ou necessita de bem pouco: pensar diferente é grátis e pode ter efeito imenso. À esquerda e à direita, a história está cheia de prefeitos que foram capazes de compreender o caráter sistêmico de suas ações e ajudaram a fazer grandes transformações emergirem de intervenções muito sutis.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

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