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Dedico minha coluna da semana a um debate já antigo: a imposição da educação infantil como responsabilidade exclusiva das mulheres, fato que caminha junto com a hostilidade com a qual mães e crianças são tratadas em espaços públicos, especialmente em ambientes de trabalho.
Essa ideia surgiu depois que eu perguntei à comissão organizadora de um evento acadêmico de que vou participar se havia um espaço para cuidados infantis. Em resposta, ouvi — de novo —, que “infelizmente o seminário não dispõe dessa estrutura” e que os adultos “precisarão aprender a lidar com as crianças que estiverem presentes”. Essa fala é problemática em vários sentidos.
O primeiro é por já começar tratando criança e a convivência com ela como um problema inevitável que precisará ser administrado, quando na verdade estar com ela é uma grande oportunidade de aprender a descolonizar o pensamento, para usarmos um conceito que está em voga nos círculos mais progressistas de pesquisadores. Quem é mãe e já passou pela experiência de ter de levar as e os filhos para atividades profissionais sabe bem do que estou falando. Os olhares de incômodo, os psius, a ausência de utensílios básicos como trocadores de fralda e brinquedos assim como de salas e de profissionais especializados nesse tipo de cuidado são algumas das questões com as quais temos de lidar. Ainda que promovamos eventos com programação sofisticada e conhecimentos altamente qualificados, inclusive com pesquisas de ponta sobre gênero e trabalho, sem nos dar conta, passamos a mensagem que produzir ciência é um assunto de homens e que, no máximo, mulheres devem participar como plateia, mostrando a habilidade em manter as crias quietinhas. Isso porque, como disse acima, o cuidado e a educação das crianças são vistos como um trabalho compulsório da alçada feminina. É inimaginável visualizar grupinhos masculinos conversando sobre “culpa paterna”, por exemplo.
Em geral, os homens com filhos “escolhem” se querem e como irão significar a condição de pai. Mesmo quando existe uma divisão do trabalho, esse imaginário de “você tem de levantar as mãos para o céu porque fulano é um excelente pai” acaba fazendo com que a mulher sempre fique com a maior parte da responsabilidade. Isso inclui “ensinar”, com toda paciência e generosidade, aos superpais sobre a necessidade de realizar tarefas óbvias. Ler e escrever diariamente na agenda, arrumar mochilas, providenciar lanches, peças de roupa extra, escovar dentes até levar a médicos, dentistas e o que mais for necessário em termos de proteção e cuidado. Os contratos familiares, assentados em tratar de forma elogiosa as obrigações executadas por homens no universo doméstico, são a cultura do patriarcado na veia.
Insere-se também nesse contexto de falta de políticas e infraestrutura específicas que viabilizem a conciliação entre as necessidades da família e as atividades profissionais o fato de o Brasil ser construído sobre as bases de uma cultura escravocrata e patriarcal. No país, a terceirização dos cuidados, um privilégio das classes alta e média, é naturalizada como uma atividade menor. Isso justifica tanto a exploração, a remuneração precária e o não cumprimento dos direitos trabalhistas básicos quanto a difícil separação entre profissional e pessoal nos vínculos que se estabelecem. Ainda que a PEC n. 72/2015 , conhecida como PEC das Domésticas, tenha trazido avanços significativos, todo esse cenário promove uma lógica de desacolhimento à maternidade e às suas praticantes, pressionadas e desgastadas diante das negligências e incompreensões.
Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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