Coluna

Denis R. Burgierman

Sem o Facebook, o MBL não existiria

01 de agosto de 2018

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Assim como muita gente no mundo todo, dos agentes hackers de Putin aos marqueteiros da Cambridge Analytica, o suposto movimento cresceu explorando vulnerabilidades da rede social mais influente que existe

Semana passada, o Facebook deletou 196 páginas e 87 perfis de sua rede, muitos deles ligados ao MBL (Movimento Brasil Livre), uma operação que foi muito influente na política brasileira nos últimos quatro anos, ajudando a derrubar uma presidente e a proteger outro, elegendo políticos, atacando artistas, jornalistas, ativistas e professores e incendiando o debate político e cultural no país. A ação da empresa americana gerou polêmica e fez com que o MBL a acusasse de censura, viés esquerdista e de perseguir o pensamento de direita. Trata-se de uma simplificação, como aliás costumam ser as polêmicas que bombam no Facebook.

A verdade é que o MBL só existe por causa do Facebook. A operação, criada em 2014 pelo enrolado advogado Renan Santos para derrubar Dilma Rousseff, só pôde nascer porque se apoiou na infraestrutura em rede criada pela empresa de Mark Zuckerberg. E essa infraestrutura tinha brechas. Renan e sua turma, assim como muita gente no mundo todo, dos agentes hackers de Vladimir Putin aos marqueteiros da Cambridge Analytica, cresceram explorando vulnerabilidades da rede social mais influente que existe.

A principal dessas vulnerabilidades surgiu em 2009, quando o algoritmo do Facebook passou a usar critérios sociais para decidir o que é relevante e o que não é. Se um monte de gente ao mesmo tempo compartilha algo, o Facebook conclui que aquilo deve ser importante, e aí leva esse conteúdo para mais gente ainda. O conteúdo é mais favorecido se for compartilhado por um grande número de páginas, cada uma delas com muitos seguidores: isso leva o Facebook a acreditar que um número grande de organizações influentes deram valor para aquilo.

Delegar a decisão sobre a importância das coisas às massas foi uma sacada genial da empresa de Zuckerberg, e graças a ela a rede social transformou-se na principal arena do debate público do mundo. Só que essa estratégia é imperfeita porque o algoritmo pode ser enganado: com dinheiro, movimentos sociais podem ser falsificados.

Uma maneira de fraudar o Facebook é criar um ecossistema falso: centenas de páginas e perfis que na verdade estão todos sob um mesmo comando, e que compartilham conteúdos ao mesmo tempo, para se fingir de multidão. Isso é um jeito de ludibriar o algoritmo, fabricando a sensação de que algo interessa a muita gente. Outro jeito de dar um drible no algoritmo é mobilizar as emoções das pessoas, principalmente medo e indignação. Tudo o que nos deixa apavorados ou furiosos é lido pelo Facebook como se fosse relevante.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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