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Denis R. Burgierman

A gente é pobre do quê

26 de setembro de 2018

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Os problemas educacionais brasileiros e a liderança de Jair Bolsonaro nas pesquisas entre os que têm mais educação formal

Suponho que a maioria de nós tenha passado as últimas semanas numa espera aflita pelos números da próxima pesquisa eleitoral. Mas, para quem quer realmente entender para qual direção este Brasil está indo, talvez faça mais sentido olhar os números de uma outra pesquisa , divulgada na última quarta-feira pelo jornal científico inglês “The Lancet”. Trata-se de um ranking mundial de valor do capital humano – uma comparação entre 195 países do quanto cada um cuida do seu recurso mais valioso: gente.

O ranking tem a aparência aproximada de qualquer um desses rankings que medem coisas boas. Começa como todos costumam começar: Finlândiaislândiadinamarcaholanda. A seguir, o pelotão das nações ricas, os europeus todos, muitos asiáticos, os Estados Unidos, aqueles loiros felizes do meio do Pacífico. Depois, ainda no top 50, Cuba. Rússia. Chile. Argentina. O Brasil fica em 71º, entre a Líbia e a Palestina.

Mede-se o capital humano a partir de uma combinação de indicadores de saúde e educação, de maneira a quantificar o valor investido nas pessoas de um país. Dizer que pessoas são o recurso mais valioso que existe não é coisa de hippie ou de poeta: é um fato econômico incontestável. Embora haja algumas raras exceções (Cuba, por exemplo), a correlação entre riqueza de um país e alto capital humano é evidente. Países onde saúde e educação são excelentes têm população capaz de gerar riqueza, mesmo quando são pobres em recursos naturais (como bem demonstra o exemplo da Finlândiaislândiadinamarcaholanda). Países riquíssimos em tudo – petróleo, minérios, commodities –, mas pobres em capital humano, patinam. Não crescem. Esse é o caso evidente do Brasil.

Em outras palavras, e me perdoem se elas soam brutais: o Brasil é pobre e a Dinamarca é rica porque um dinamarquês vale muito mais que um brasileiro. Num brasileiro médio há bem menos investimento e, portanto, ele possui menos capacidade de gerar valor.

Justiça seja feita, melhoramos. Embora essa história de medir capital humano seja novidade – o indicador foi recém-criado pelo Banco Mundial e a partir de agora será divulgado todo ano –, os pesquisadores calcularam também o resultado de 1990, para comparação. Vinte e oito anos atrás, o Brasil estava bem pior, 20 posições abaixo, em 91º, atrás da Jamaica e da Venezuela. A melhora se deu porque os indicadores de saúde progrediram a olhos vistos – puxados pela expectativa média de vida, que cresceu quase uma década, de 65 para quase 75 anos. E conseguimos colocar todas as crianças na escola, um sucesso inegável.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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