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Denis R. Burgierman

Bolsonaro não é um fascista

07 de novembro de 2018

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Ainda não, pelo menos. Esperemos que não se torne (pelo nosso bem, e pelo dele)

“Enxergo o fascismo e as políticas fascistas como ameaças mais violentas à liberdade, à prosperidade e à paz internacionais do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial”. Quem escreveu esse alerta, num livro lançado neste fatídico 2018, sabe bem do que está falando: conhece o fascismo de perto. Trata-se de Madeleine Albright, 81 anos, duas vezes fugida de sua Tchecoslováquia natal – primeiro do nazismo, depois do comunismo –, primeira mulher secretária de Estado do país que a recebeu como refugiada, os Estados Unidos, cargo que a levou a visitar ditadores rotineiramente. A Secretaria de Estado é o Itamaraty dos americanos.

No livro “Fascismo – Um Alerta”, Albright, professora de diplomacia e especialista em democracia, compara dirigentes autoritários dos anos 1920 e 30 com uns bem mais recentes, deste complicado século 21, e encontra muitas semelhanças. Depois de décadas acumulando avanços democráticos, o mundo hoje está cheio desses novos tipos de tiranos – Maduro na Venezuela, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia, Orbán na Hungria, Duterte nas Filipinas, Trump nos Estados Unidos, Kim Jong-un na Coreia do Norte (o único deles todos a quem a autora não tem dúvidas de dedicar o adjetivo que tão bem caía a Mussolini e a Hitler: “fascista”). Todos com discurso virulento, o hábito de desumanizar adversários e uma máquina de violência e desinformação ao seu serviço.

Bolsonaro não aparece no livro, lançado antes de sua vitória eleitoral. Ele não ganhou um capítulo porque, pelo critério de Albright, não existe fascista sem poder (ela considera que fascismo não é uma ideologia: é uma forma de tomar e exercer o poder, criando uma realidade paralela, alimentando-se de ódio e gradualmente concentrando poder). Portanto, Bolsonaro não é fascista: não teria como ser, já que nunca teve muita influência. Como deputado de segunda categoria de partidos fisiológicos e corruptos como o PP e o PTB, passou décadas no baixo clero, sem tomar parte de comissões importantes, sem influência nas principais votações, sem quase nunca aprovar uma lei – numa posição que provavelmente não lhe rendia nem sequer boas oportunidades de ser corrupto. Mas estava sempre na mídia, por causa das declarações truculentas e absurdas, que a imprensa por muito tempo tratou em tom de chacota.

A princípio, talvez não pareça a descrição de um facínora. A não ser que você conheça a história dos verdadeiros facínoras – e Albright conhece. Apesar da aura de gênios do mal que tiranos como Mussolini e Hitler ostentam hoje, antes de conquistarem o poder eles também foram tidos como piadas pelo establishment de seus países. Seus discursos fantasiosos e cheios de ódio, inicialmente proferidos em porões ou calçadas, tinham um quê de nonsense – e o grotesco deles tirava um pouco do senso de realidade daquelas palavras violentas.

Se não tivessem chegado ao poder, essas figuras não teriam tido muita consequência – Albright inclui em seu livro a história de vários líderes simpatizantes do fascismo que nunca conquistaram grande influência e portanto tiveram seus nomes esquecidos. Mas há momentos da história e lugares no mundo em que figuras assim tornam-se populares. “Em especial se estivermos assustados, com raiva ou confusos, podemos nos sentir tentados a abrir mão de bocados da nossa liberdade – ou, o que dói menos, da liberdade de outros – na busca por rumo e ordem.” Nessas horas, homens autoritários, sem papas na língua para colocar a culpa de todos os problemas em alguém que não é ele nem eu eleitor, começam a ter mais facilidade de ganhar a confiança na população, “e isso quase sempre se dá pela percepção de que são mais decididos e seguros em seus julgamentos”, segundo Albright.

Denis R. Burgiermané jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. É roteirista do “Greg News”, foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, e comandou a curadoria do TEDxAmazônia, em 2010.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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