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A agenda moralista sobre os costumes tem bases estruturais. Sua grande força está justamente no fato de que jamais poderá ser reduzida a um mero chamariz para desviar a atenção da sociedade para longe dos supostos “problemas que realmente importam”. Embora muitas vezes seja manipulada de propósito para confundir e dispersar seus oponentes, o problema é que essa agenda realmente importa.
Alguns se apressaram em concluir que a bravata patética sobre meninas de rosa e meninos de azul é mais uma distração para encobrir o “problema real”: o governo Bolsonaro estaria ocupado mesmo é com a reforma da Previdência, as privatizações, a rendição do Brasil a interesses estrangeiros, a liberação geral para o agronegócio e a mineração e outras coisas “estruturais”. Como de costume, a política macroeconômica é entendida e invocada como um poder em si, que torna secundárias – praticamente inúteis – as reclamações relativas a gênero, raça, sexualidade, cultura e território.
O engano desse diagnóstico está na separação entre economia, de um lado, e modos de vida, valores e afetos, de outro. Há uma hierarquização com uma ideia fixa de economia no topo. No raciocínio macro, por exemplo, indígenas e quilombolas são vistos como estorvos no caminho de um projeto global de exploração e devastação sem limites. Essa verdade, entretanto, é parcial. Falta aí reconhecer como os saberes e as práticas de povos e comunidades tradicionais contrapõem a sanha predatória do latifúndio, cuidam do meio ambiente e criam possibilidades viáveis de bem viver para comunidades inteiras. Não são simples estorvos no caminho dos controladores do sistema financeiro, mas alternativas sistêmicas que ameaçam desconfigurar as programações mentais dos sujeitos dominantes e o jogo selvagem das corporações. Antes de mais nada, o projeto pressupõe aniquilar o valor simbólico dessas alternativas.
Áurea Carolina
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