Coluna

Giovana Xavier

“Faça a coisa certa”

04 de março de 2019

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Como trajetórias individuais podem contribuir para causas coletivas? Spike Lee e sua obra “Infiltrado na Klan” me deixaram feliz e fizeram pensar sobre os desafios de se fazer a coisa certa

Spike Lee e sua obra monumental têm todo meu amor e respeito. Fiquei muito feliz com a vitória do filme “Infiltrado na Klan” para o Oscar de melhor roteiro. Como historiadora atenta às conexões de tempos e espaços distintos, sua conquista remeteu-me à quantidade de personalidades negras contemporâneas homenageadas este ano por escolas de samba cariocas e paulistas. Assim, durante um Carnaval dedicado a celebrar o amor à minha família, reflito, inspirada pelo discurso do cineasta , sobre os desafios de se fazer a coisa certa.

Lição 1: “Somos todos conectados com nossos ancestrais”

Só mesmo um homem da categoria de Spike Lee para subir de terno roxo e anéis Hate e Love para receber o primeiro Oscar de sua carreira. É uma pena que muitas pessoas não tenham alcance para entender o quanto isso é inspirador e forte o suficiente para mudar a vida de milhões de crianças negras no mundo! Nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo, um dos primeiros itens comprados por meninos que entram para o tráfico (em média aos dez anos, por um salário de R$ 300) são os cobiçados pares de tênis. Lee, que foi o primeiro neto a cursar uma universidade com as economias que sua avó juntou por cinquenta anos, subiu ao palco calçando seu Nike Jordan personalizado. #façaacoisacerta

Lição 2: “Vamos reconquistar nossa humanidade”

Existe uma reflexão muito antiga, que acompanha minha própria trajetória: o sistema é eficaz e perverso em confinar o talento de pessoas negras à condição de único. Trinta e três anos até o brilho do cineasta ser reconhecido na forma da estatueta dourada do Oscar! Trinta e três anos! Mais ou menos o mesmo tempo que a escritora Conceição Evaristo levou para ter seu trabalho respeitado pelo grande mercado editorial. Considerando que estamos falando de apenas seis anos a menos que minha vida, lembrei que parte significativa do meu processo de letramento racial passou pela leitura do livro “Insubmissas lágrimas de mulheres negras” e também por me ver através das personagens de Spike.

Giovana Xavieré professora da Faculdade de Educação da UFRJ. Formada em história, tem mestrado, doutorado e pós-doutorado, por UFRJ, UFF, Unicamp e New York University. É idealizadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Intelectuais Negras. Em 2017, organizou o catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que elenca 181 profissionais mulheres negras de diversas áreas em todo o Brasil.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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