Coluna
Lilia Schwarcz
O sol e a sombra. Ou como inventar uma história pela metade
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A matéria-prima da história são os documentos, escritos e visuais, encontrados em arquivos públicos ou em coleções privadas, além da memória individual ou coletiva presente em livros e diversas fontes. Se há quem inclua outras fontes privilegiadas, o certo é que, independentemente da pesquisa, a profissão do historiador ficou logo associada ao ato de lembrar: lembrar de um evento, de uma data, de uma celebração, de um costume, de um nascimento ou de uma morte.
E se essa é uma espécie de convenção que se gruda aos profissionais de história como se eles fossem talhados e tivessem o dom natural da memória, cada vez mais distinguimos essas duas operações. Ou seja, muitas vezes, história e memória andam às turras e não contradançam um belo “viveram felizes para sempre”.
Isso porque ninguém apenas lembra; muitas vezes esquecemos de maneira proposital ou não. Muitas vezes, também, se conta uma história pela metade, omitindo-se elementos fundamentais dela.
Seja lá como for, a história foi sempre uma narrativa privilegiada. Tanto que hoje ela anda muito em voga, empreendendo-se em torno dela verdadeiras batalhas de sentido. Batalhas não pela melhor narrativa, mas pela verdade que alcance e convença melhor o leitor que se quer agradar.
Vivemos num momento de muito diversionismo e da produção de histórias que não se pautam em documentos ou fontes, pois preferem seguir uma conclusão prévia que prescinde de comprovação.
Lilia Schwarczé professora da USP e global scholar em Princeton. É autora, entre outros, de “O espetáculo das raças”, “As barbas do imperador”, “Brasil: uma biografia”, "Lima Barreto, triste visionário”, “Dicionário da escravidão e liberdade”, com Flavio Gomes, e “Sobre o autoritarismo brasileiro”. Foi curadora de uma série de exposições dentre as quais: “Um olhar sobre o Brasil”, “Histórias Mestiças”, “Histórias da sexualidade” e “Histórias afro-atlânticas". Atualmente é curadora adjunta do Masp para histórias.
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