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Não há pandemia sem mortes assim como não há pandemia sem custos econômicos. O papel de um bom governo é reduzir tanto o número de mortes como o tamanho da recessão que acompanha a tragédia sanitária. Infelizmente, ao ignorar as recomendações da ciência e defenestrar dois ministros da Saúde em meio à pandemia, o governo brasileiro está caminhando para aumentar o número de mortes e a profundidade e a duração da recessão. É o pior dos dois mundos. A insistência em testar continuamente os limites das instituições democráticas, que levou à demissão de Sergio Moro, e a guinada em busca de apoio a qualquer preço nas figuras mais sombrias do Congresso indicam que o custo político de tamanha incompetência pode se tornar insuportável.
Primeiro, olhando a evolução das mortes provocadas pelo novo coronavírus no mundo é possível identificar alguns padrões. Em um extremo estão os Estados Unidos, onde o pico, com 2.100 mortes por dia, foi atingido em 40 dias a partir dos primeiros casos (os números citados no texto referem-se a médias móveis de 7 dias calculadas pelo jornal Financial Times). Depois de 25 dias em desaceleração, a média ainda está em torno de 1.400 mortes por dia.
Um segundo grupo é formado pela Itália, França, Espanha e Reino Unido, em que o pico de mortes variou entre 820 pessoas por dia na Itália e 940 no Reino Unido, atingidos em torno de 30 dias a contar dos primeiros registros. No momento, depois de dois meses, o número de mortes na Itália já caiu 80%, e no Reino Unido, passado pouco mais de um mês a partir do pico, a queda é de 40%. Até agora, todos os demais países, exceto o Brasil, tiveram picos de mortes diárias inferiores a 250 por dia, sendo que a Coreia do Sul, a Nova Zelândia e a Austrália despontam como os países com menor número de óbitos, fruto de medidas de isolamento social precoce.
Infelizmente, o caso brasileiro se destaca como uma anomalia entre mais de meia centena de países analisados. Em torno de 21 de abril, 30 dias depois dos primeiros óbitos, a curva parecia estar se estabilizando com cerca de 170 óbitos por dia — um desempenho melhor que o ocorrido na Bélgica ou na Alemanha, e próximo do observado na China, no Canadá e na Holanda. A partir de então o número de mortes por dia voltou a crescer, chegando a 816 no dia 19 de maio, sem sinais de estabilização. Há indícios de que o México, a Índia e a África do Sul estejam seguindo um padrão semelhante, embora com ritmos mais lentos de crescimento. É notável o desempenho da Argentina, que vem mantendo a média de 5 a 10 mortes por dia, e o do Chile, com mortes oscilando entre 10 e 20 por dia.
Cristina Pinottié graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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