Coluna
Luciana Brito
Desigualdade extrema: as mães solo e os bilionários da pandemia
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Nesta semana, provavelmente, chegaremos ao número de 100 mil pessoas mortas pela covid-19 no Brasil. Também nesta semana, mais homens brancos ficarão bilionários, assim como mais mulheres, sobretudo negras e pobres, nutrirão a esperança de que finalmente poderão receber o auxílio emergencial. Além disso, muitos homens e mulheres que compõem a precarizada mão de obra nacional perderão seus empregos.
Como historiadora, fazer projeções sobre o futuro é sempre um risco e um desafio, mas uma coisa que podíamos imaginar desde o início da pandemia é que as nossas desigualdades ficariam ainda mais escancaradas e profundas. Quem não sabe, mas quer entender como funciona aquilo que a intelectual, escritora, ativista, feminista negra e professora bell hooks chama de “supremacia branca capitalista patriarcal” , basta olhar para alguns números e desdobramentos da pandemia presentes em notícias da semana passada. A disparidade dos números não se dá por uma coincidência: a sua profunda diferença é nutrida pela própria desigualdade de gênero, de regionalidade, de classe e racial. Trocando em miúdos, para que o rico exista, é preciso que o pobre — melhor, que a mulher pobre fique ainda mais pobre.
Entre as medidas de auxílio emergencial adotadas no Brasil no final do mês de março, uma delas previa que a mãe provedora, ou mãe solo, recebesse o dobro do valor pago a trabalhadoras e trabalhadores informais. Contudo, a incompreensão das desigualdades de gênero presentes em todas as esferas sociais tentou igualar os desiguais, estabelecendo um critério supostamente “neutro”, tratando as exceções como regra: no dia 22 de abril, parlamentares aprovaram um novo texto , estendendo o auxílio a pais e mães solteiros, independentemente do sexo. Este trecho da lei foi posteriormente vetado pelo governo federal.
O que se via, mesmo sem a lei entrar em vigor, erauma avalanche de denúncias de mães solo cujos ex-parceiros, pais de seus filhos, haviam se cadastrado para receber o auxílio como se tivessem a guarda das crianças, tirando assim o direito das mulheres àquele benefício de R$ 1.200, que no projeto original era destinado às mães.
Alguém pode argumentar que existem pais solo e não somente mães. Contudo, não precisamos fazer um grande esforço para constatar que, no final de uma relação, ou mesmo quando o pai nunca esteve presente, a criança quase que sempre fica sob os cuidados da mãe. Mesmo assim, vamos aos números: de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 80% das crianças brasileiras têm uma mulher como primeiro responsável, e 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro de nascimento. Ainda tem mais: na maioria dos lares onde as mulheres são provedoras (56%), a situação é de pobreza, e quando essa mulher/mãe provedora é negra, a incidência de pobreza ainda é maior (64,4%).
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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