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“Até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final”, declarou o presidente em momentoso destempero, não por acaso desencadeado com hora e câmera planejadas. Também não foi por acaso que a declaração foi feita após o envio da proposta orçamentária de 2021 ao Congresso, na qual o Ministério da Economia já se antecipava à vontade presidencial, sequer mencionando o Renda Brasil.
Após a declaração, o ministro da Economia Paulo Guedes teria corrido ao Planalto para mostrar que o “cartão vermelho”’ não seria para ele. De concreto, que se saiba, a despeito da “ceninha”, com ares de descompostura, nenhum membro da equipe econômica foi expulso do campo.
A cena teatral foi interpretada pelos analistas como sinal de enfraquecimento do ministro, já desgastado por sua incapacidade de entregar pouco mais que promessas grandiloquentes. Bolsonaro estaria encurralado entre o teto de gastos, o desejo de ganhar popularidade e a decisão de não elevar impostos e não cortar outros gastos. Teria escolhido a estratégia na qual se sai melhor: não governar e transferir para o Congresso a tarefa de resolver o problema. Teria cometido o suicídio político de enterrar o próprio programa antes mesmo que ele nascesse. Já estamos habituados: coisas de Bolsonaro e dos impasses em que a covid-19 nos colocou, concluíram os analistas.
Arrisco interpretação alternativa. Bolsonaro já tomou sua decisão. Não há desacordo com a equipe de Guedes neste quesito. Quem tomou cartão vermelho foi a esperança de uma estratégia de combate à pobreza para 2021. Me explico.
Bolsonaro não é um político que quer votos para fazer políticas. Diferentemente, quer políticas para ganhar votos. Corresponde ao tipo ideal, descrito no seminal “Uma teoria econômica da democracia”, do economista Anthony Downs. É certo que se interessa por algumas políticas. Mas também já se demonstrou disposto a silenciar sobre elas, se sua sobrevivência política estiver sob risco. Certamente, não está entre suas prioridades combater a pobreza.
Marta Arretcheé professora titular do Departamento de Ciência Política da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da Brazilian Political Science Review (2012 a 2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016 a 2017). É graduada em ciências sociais pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do MIT (Massachussets Institute of Technology), nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.
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