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Cristina Pinotti

Como a desigualdade alavanca as crises

06 de novembro de 2020

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Há interligações entre as crises das democracias e da economia. Para superá-las, precisamos abandonar o individualismo egoísta e resgatar a ética na política, na cultura e nas instituições

Sérgio Abranches lembra, no seu excelente livro “O tempo dos governantes incidentais”, que as grandes transformações se manifestam, no início, como crises. Não são poucas as que temos vivido. Os sistemas políticos deixaram de representar os interesses da maioria, os frutos do crescimento econômico se concentram nas mãos de poucos, e o planeta está sendo dilapidado. A pandemia embaralha as peças do jogo, impondo a necessidade de que o interesse coletivo seja levado em conta, tanto pelos governos responsáveis como pela população. Resta a todos — especialmente aos economistas, sociólogos e cientistas políticos — o enorme desafio de denunciar as fraturas e a obsolescência dos paradigmas dominantes de análise e previsão, além de pensar de maneira crítica, abrangente e criativa o que podem vir a ser novos caminhos. Exploro, aqui, aspectos da interligação entre a crise das democracias e a da economia.

Há farta evidência de deterioração do quadro sociopolítico mundial. Depois de 30 anos em que a proporção de países democráticos dobrou no mundo, tendo chegado a 61% do total, entramos no que Larry Diamond chama de recessão democrática global . Desde meados da década passada, caiu a menos da metade a proporção de países democráticos, e pioraram os indicadores de liberdades civis, direitos políticos, transparência e Estado de direito (rule of law). Partindo dos níveis de igualdade econômica, de qualidade da representação política, de coesão na vida social e de altruísmo presente nos valores culturais, Robert Putnam e Shaylyn Garrett mostram que o ápice da qualidade da democracia norte-americana ocorreu entre as décadas de 1960 e 1970, e declinou desde então, voltando aos níveis observados no fim do século 19.

O cidadão comum, que não tem seus interesses defendidos, se sente desprotegido, obrigado a conviver com quedas constantes da qualidade dos serviços públicos, com o aumento da criminalidade e da corrupção e com a crescente desigualdade de renda e de riqueza. Além disso, mudanças tecnológicas e a globalização reduzem suas chances de encontrar trabalho e sustento. Nasce, assim, o ressentimento, o medo e a falta de esperança em um futuro melhor, caldo de cultura ideal para a proliferação de populistas de esquerda e de direita. Como esse quadro complexo não se resolve da maneira simplista prometida pelos populistas, uma vez eleitos, eles destroem as instituições democráticas para dificultar a alternância de poder. Cria-se, então, um círculo vicioso, piorando as condições de vida de todos. Sua superação depende da identificação adequada das causas do crescente descontentamento social.

Uma pista importante da origem desse mal-estar emerge da análise da distribuição dos frutos do ciclo de crescimento econômico provocado pela globalização e pela revolução das comunicações. Branko Milanovic mostrou com seu famoso gráfico do elefante , reproduzido abaixo, que, entre 1998 e 2008, houve um aumento da renda dos pobres e das classes médias da Ásia emergente (China, Índia, Tailândia, Vietnã e Indonésia), e daqueles situados no topo da pirâmide de distribuição mundial de renda, o 1% mais rico. No outro extremo, permaneceu praticamente estável, durante 20 anos, a renda da classe média baixa dos países mais ricos — membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), principalmente.

Gráfico de linha mostra ganho relativo na renda per capita, em termos reais, por nível de renda global entre 1988-2008

Cristina Pinottié graduada em administração pública pela EAESP-FGV e cursou o doutorado em economia na FEA-USP. É sócia da A.C. Pastore & Associados desde 1993. Antes trabalhou nos departamentos econômicos do BIB-Unibanco, Divesp e MB Associados. Concentra seus trabalhos na análise da macroeconomia brasileira, com ênfase em temas da política monetária, relações do país com a economia internacional, e planos de estabilização. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo da teoria da corrupção e da história da operação Mãos Limpas, na Itália. É autora de diversos artigos e livros. Escreve mensalmente às sextas-feiras.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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