Coluna

Januária Cristina Alves

Por que as narrativas importam no contexto em que vivemos

19 de agosto de 2021

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É imprescindível refletirmos sobre quais histórias queremos contar, porque, para que e, especialmente, como

No emaranhado de palavras e seus múltiplos significados a que temos acesso a todo minuto, especialmente no universo digital, está cada vez mais difícil perceber a importância da palavra. Só esse ano o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras inseriu mais de 1.000 novos termos. Dentre eles, muitos dos quais ouvimos, falamos, lemos, escrevemos e cancelamos em nossa comunicação cotidiana: ciberataque, pós-verdade, negacionismo, bullying, necropolítica, infodemia. O objetivo deste trabalho é, além de disponibilizar a grafia correta das novas palavras, refletir a evolução da nossa língua que, por sua vez, está indubitavelmente ligada às transformações da nossa sociedade. Não à toa, boa parte dessas novas palavras está conectada às nossas relações com o mundo on-line. E é bom lembrar que são as palavras que moldam o nosso modo de contar histórias, o que não é pouca coisa.

Há um ditado africano simples e objetivo que explica a importância de contarmos histórias: “até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”. As histórias que relatamos ou escrevemos (e postamos) importam porque falam de nós, das nossas verdades, do que somos, pensamos, sentimos. Por isso é imprescindível refletirmos sobre quais queremos contar, porque, para que e especialmente, como. A escritora inglesa A.S. Byat dá a exata medida de como contar histórias é uma experiência fundamental e fundante para o ser humano: “ contar histórias é algo intrínseco ao tempo biológico, do qual não podemos fugir. Sobre nós, como sobre Sherazade, paira uma sentença de morte e todos pensamos em nossas vidas como narrativas, histórias com começo, meio e fim”.

Aqui vamos nos deter em uma palavra usada pela escritora: narrativa. Ela a coloca no mesmo nível da palavra história e as analisa como sinônimos, algo fundamental no contexto em que vivemos. Trago agora a discussão para as histórias – ou narrativas – que circulam nas redes sociais, aquelas que lemos, curtimos, compartilhamos e produzimos. O termo desgastou-se a tal ponto que está sendo confundido com mentiras. Como se todas as narrativas fossem produto da imaginação, desvinculadas da realidade, uma espécie de delírio coletivo, daí que a expressão “guerra de narrativas” cabe como uma luva. Será mesmo que todas as histórias seriam apenas fruto da nossa imaginação? E que estaríamos guerreando com o invisível, uma vez que a imaginação de cada um é terreno impenetrável? A resposta não é simples, mas vale uma reflexão.

Umberto Eco trazia uma imagem poderosa quando falava do significado dos textos literários: para ele, tais textos eram como mensagens jogadas ao mar dentro de uma garrafa e cabia àqueles que as encontrassem decifrá-las. Há, portanto, mesmo nos textos não-ficcionais como as notícias, por exemplo, uma parte a decifrar sobre o que elas nos dizem, especialmente pelas palavras que são escolhidas e pela forma de relatar o que acontece. Contar uma história, produzir uma narrativa, tem a ver com a nossa experiência, com o que acontece – no caso os fatos, aquilo que é da realidade – e com o que nos acontece, com o que é da imaginação e da memória. Sendo assim, é possível compreender a confusão que se estabelece em torno do que são as narrativas.

O escritor Bernardo Carvalho, em sua coluna na Folha de S.Paulo ilumina com precisão essa dificuldade: “narrativa e ficção estão ligadas à possibilidade de imaginar, não como obliteração da memória, mas como garantia, projeção da memória para frente, para o futuro, para o desconhecido. Memória e imaginação (…) buscam a verdade como compreensão e alargamento dos sentidos do mundo, não o seu estreitamento”. Em suas considerações sobre a narrativa e a ficção como aquelas que buscam nos trazer para a realidade, ele acrescenta a memória, que é outro elemento preponderante para entendermos a tal da “guerra das narrativas”.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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