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Muito tem se debatido e refletido no Brasil sobre o que é racismo estrutural. Contudo, na nossa longa formação enquanto nação, o racismo à brasileira encontra maneiras que deixam seus defensores muito à vontade de defender suas ideias com ar generalizador de neutralidade, como se aquilo que defendem tivesse impacto sobre todas as pessoas, e não sobre um grupo social específico. Falo sobre como uma política essencialmente racista, que tem como alvo pessoas negras e pobres, pode ser defendida abertamente, valendo-se da forma como as elites brasileiras insistem em nos afirmar o que é racismo: chamou-lhe de negro? Fez alguma referência direta à cor da pele? Proibiu a entrada da pessoa negra num estabelecimento por ser negra? Se nada disso aconteceu, não é racismo, é coisa da sua cabeça.
Embora o racismo no Brasil se dê também dessa forma, em geral, a forma mais comum é que o racismo se manifeste mascarado em políticas públicas para todes, da forma mais perigosa e ardilosa, sem nenhuma menção à palavra negro, raça ou menção à cor da pele. Como estamos atentes, vejamos como na semana passada, mais uma vez, isso ficou muito explícito através da fala do ministro da educação.
Desde a reforma do ensino médico, instituída no governo Temer, o ensino técnico tem sido colocado como alternativa ao ensino superior, como se fosse uma coisa ou outra. Contudo, sabemos que nada impede que uma/um estudante de ensino médio, após o ensino técnico, queira qualificar-se ainda mais entrando no ensino superior, seja na sua área ou migrando para uma área completamente nova. Isso aconteceu, por exemplo, comigo, quando terminei o ensino médio como técnica de informática no ano de 1996 (uma área que eu não tinha identificação ou habilidade alguma), e que após sucessivas experiências no mercado de trabalho sem carteira assinada e sem auxílio transporte ou alimentação, decidi fazer aquilo que eu realmente gostava. Depois de dois anos de tentativas, entrei no curso de graduação em história na Universidade Federal da Bahia. Foi com meu diploma de professora em história adquirido numa universidade pública que tive acesso ao emprego formal com carteira assinada, auxílio transporte, alimentação e direito às férias.
Diferente de mim, outras e outros colegas seguiram carreira na área de tecnologia. Todes entraram na universidade para ter mais qualificação e mais valorização no tal “mercado de trabalho”. A universidade nos formou para o emprego, mas também para a vida: a consciência de que as garantias trabalhistas eram um direito foi algo aprendido nos movimentos sociais, mas também na universidade, pois todas as pessoas sabem que o diploma de ensino superior garante melhores posições e valorização no trabalho. Mas o que tem sido dito pelos ministros da Educação que ocuparam a pasta desde 2017 tenta nos convencer de algo diferente.
No dia 10 de agosto, em entrevista à TV Brasil , o ministro Milton Ribeiro afirmou de uma só vez os principais pilares do seu projeto para a educação brasileira. Chama-nos a atenção a defesa de um projeto escancarado de elitização no acesso ao ensino, e portanto, de recuo democrático na área da educação. O primeiro desses pilares sugere que o acesso à educação universitária, no caso das pessoas pobres e que veem na educação uma forma de ascensão social e financeira, é uma perda de tempo. Esse pensamento revela uma tragédia em curso na pasta da educação quando uma fala como esta parte do ministro à frente no ministério. Usando a famosa analogia do “motorista de uber”, engatou no recorrente exemplo do suposto motorista de aplicativo que é engenheiro ou advogado, mas não consegue emprego na sua área de formação. Afirmando que “tenho muito engenheiro e advogado”, termo tão vago quanto “conheço várias pessoas”, sem citar dados, pesquisas ou evidências, culpou a formação de excelência, ou seja, o ensino superior, como razão do desemprego. A conta é a seguinte: ao invés de criar mais empregos qualificados, sugere-se que, estudando-se menos ou sem um diploma universitário, será mais fácil adquirir uma vaga no mercado de trabalho, ideia que não faz sentido algum.
Luciana Britoé historiadora, doutora em história pela USP e especialista nos estudos sobre escravidão, abolição e relações raciais no Brasil e EUA. É professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e autora dos livros “O avesso da raça: escravidão, racismo e abolicionismo entre os Estados Unidos e o Brasil” (Barzar do Tempo, 2023) e “Temores da África: segurança, legislação e população africana na Bahia oitocentista” (Edufba, 2016), ganhador do prêmio Thomas Skidmore em 2018. É também autora de vários artigos. Luciana mora em Salvador, tem os pés no Recôncavo baiano, mas sua cabeça está no mundo. Escreve mensalmente às terças-feiras.
Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.
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