Coluna

Januária Cristina Alves

‘Meninos, eu vi…!’ Como funcionam as urnas eletrônicas 

18 de agosto de 2022

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A confiança no processo que elege o chefe da nação é um pilar fundamental para a estabilidade política, social e econômica do país

Quando, há alguns dias, entrei no prédio do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em Brasília, a frase que me veio à cabeça foi a que é, talvez, uma das mais famosas do nosso grande poeta Gonçalves Dias, escrita em seu poema épico “I-Juca Pirama”: “Meninos, eu vi!”. Eu e mais 28 influenciadores digitais, jornalistas e comunicadores de todo país realizamos uma visita extremamente didática e inspiradora a essa instituição, que está no centro de uma das maiores polêmicas dessas eleições por conta da segurança das urnas eletrônicas. Quando adentrei o prédio me senti uma cidadã brasileira privilegiada, pois teria a oportunidade de ver, “ao vivo e a cores”, como funcionam as urnas eletrônicas e assim, poder dar o meu testemunho porque, literalmente, “eu vi!”.

A referência do poema épico de Gonçalves Dias não me veio à mente por acaso. Para quem não sabe ou não se lembra, trata-se de uma obra indianista composta por 484 versos protagonizados pelos índios Tupis e Timbiras. Quem conta a história é um velho Timbira que foi testemunha da superação do medo da morte do índígena Tupi Juca, que foi aprisionado e chamado de covarde por seu pai. Juca, porém, demonstra sua coragem e torna-se um herói, e vê sua história ser contada nas rodas de fogueira, como um exemplo para a tribo. No início do décimo canto, diz o poema:

“Um velho Timbira, coberto de glória,

Guardou a memória

Do moço guerreiro, do velho Tupi!

E à noite, nas tabas, se alguém duvidava

Do que ele contava,

Dizia prudente: – ‘Meninos, eu vi!’”

Tal como o velho Timbira, também me vi testemunha de uma história que certamente será contada por meus filhos e netos, de quando todos os brasileiros, tal como heróis que precisam provar sua coragem e resiliência, tiveram de enfrentar ameaças graves à democracia e aos direitos fundamentais de todos nós, como o acesso à informação de qualidade e à liberdade de expressão em seu verdadeiro sentido: aquele que promove a verdade como bandeira. Tal como diz o poema, se alguém duvidar do processo eleitoral poderei dizer, prudente: “Meninos, eu vi!”.

O evento “Influenciadores no TSE” foi promovido pela organização Redes Cordiais , que trabalha a educação midiática com foco nos chamados “influencers”. A instituição, em parceria com o TSE, proporcionou um dia de visita ao tribunal para 29 profissionais, oferecendo-nos, além da oportunidade de conhecer mais sobre todo o processo eleitoral brasileiro, suporte para a criação de conteúdo para as nossas redes sociais. Essa iniciativa ocorreu no âmbito do Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação do tribunal, e faz parte do programa “Jogo Limpo”, do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, na sigla em inglês), com apoio do YouTube Brasil, que objetiva fomentar o desenvolvimento de tecnologias e estratégias para combater a desinformação eleitoral no Brasil.

Deixei Brasília convencida de que para vermos ‘o homem ser feliz’ é preciso escolher com consciência e muita atenção

Com um alcance de 9,9 milhões de seguidores, os influenciadores ali presentes, de idades diversas, atuantes em causas tão diferentes que vão da área ambiental, passando por entretenimento para a infância, gastronomia, moda, cultura, chegando às questões de raça, gênero e também religiosas, produziram mais de 500 conteúdos em um único dia e atingiram mais de um milhão de visualizações. A visita ainda rendeu 55 menções na imprensa. Definitivamente isso não é pouca coisa. Estes números apenas apontam para o poder de fogo destes que, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2021 , promovida pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), são acompanhados por 66% dos brasileiros. Ou seja, esses números com certeza são muito maiores e reafirmam a importância de incluir esses formadores de opinião no rol de cidadãos capazes de contribuir para o combate à desinformação e, em especial, às fake news.

O dia foi intenso. Assistimos a uma sessão no plenário do tribunal, e fomos saudados pelo então presidente do TSE, Edson Fachin: “Estamos de braços abertos para aqueles que, de boa-fé, querem entender como funcionam as eleições brasileiras. Porque quem conhece o sistema eleitoral brasileiro confia”. Ouvimos uma palestra extremamente esclarecedora com o ex-ministro do tribunal, Henrique Neves que explicou a atuação da justiça eleitoral, desde a sua criação, em 1932. Assistimos técnicos da instituição destrincharem o funcionamento da urna eletrônica, com direito ao desmonte, peça a peça, de uma delas. Entramos, ainda, na Seção de Totalização e Divulgação dos Resultados, que provoca fantasias negacionistas das mais diversas, e ficou conhecida como “sala secreta” ou “sala escura”. Nunca vi sala tão iluminada e tanta gente circulando em um local que, para muitos, carrega segredos inomináveis, que visam solapar as eleições do Brasil, que é, como afirmou Alexandre de Moraes, presidente do TSE recém-empossado, “a única democracia do mundo que apura e divulga os resultados eleitorais no mesmo dia, com agilidade, segurança, competência e transparência”.

Saímos de lá bastante reflexivos, especialmente sobre a gravidade das teorias conspiratórias e o grande mal que têm causado às democracias do mundo inteiro. Cada qual no seu pedaço, há mais de 15 dias todos temos postado informações fidedignas, checadas e, especialmente, vivenciadas naquele dia, em nossas mídias. A responsabilidade, que não se resume apenas a ter milhares de seguidores, mas sobretudo à cidadania, condição primeira de todos nós, é de alertar que vivemos um momento delicado, inundado por desinformação de toda ordem, eivado de opiniões que não traduzem os fatos e que isso tem deixado o país mais frágil e esgarçado, porque a confiança no processo que elege o chefe da nação é um pilar fundamental para a estabilidade política, social e econômica do país.

O trabalho continua firme e forte. Até as eleições, há muita informação a ser postada e repostada, verificada e rechecada. Nesse sentido, o Redes Cordiais segue subsidiando o trabalho dos influenciadores com a segunda edição do Guia para Influenciadores Digitais nas eleições, agora com foco no pleito de 2022 . A publicação, que pode ser baixada gratuitamente, traz princípios a serem observados pelos influenciadores digitais e uma caixa de ferramentas com algumas perguntas e respostas mais comuns para quem atua nesse segmento, além de informações atualizadas sobre desinformação, censura, violência política e proteção de dados.

No final do dia, saí de lá cantando baixinho a canção “Meninos eu vi”, de Tom Jobim, que também se inspirou em “I-Juca Pirama”. Com sua delicadeza ímpar, ela nos conta que: “Também vi a cidade incendiada, eu tive medo/ Eu vi a escuridão/ Eu vi o que não quis…”, e, ao final, nos brinda com a esperança que nesses tempos sombrios não nos pode faltar: “E acho que enfim eu vi o homem ser feliz/ Ah! Juro que um dia eu vi o homem ser feliz…”. Deixei Brasília convencida de que essa é a certeza que deve nos acompanhar, aquela que nos assegura que o poder de decisão dos rumos desta nação está em nossas mãos, e que para vermos “o homem ser feliz” é preciso escolher com consciência e muita atenção. É esse momento que eu espero, muito em breve, também testemunhar.

Januária Cristina Alvesé mestre em comunicação social pela ECA/USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira, coautora do livro “Como não ser enganado pelas fake news” (editora Moderna) e autora de “#XôFakeNews - Uma história de verdades e mentiras”. É membro da Associação Brasileira de pesquisadores e Profissionais em Educomunicação - ABPEducom e da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do Nexo.

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